Pesquisadores do IFMA estão desenvolvendo sistema preditivo que pode antecipar focos de incêndio

Suellen Pinheiro Ribeiro

Doutoranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) (2025-2029). Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFMA (2023-2025). Graduada em Ciências Biológicas – Licenciatura pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).
VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Dissertação de Mestrado
Área: Ciências Biológicas
Título da pesquisa: Caracterização ambiental e avaliação dos serviços ecossistêmicos de manguezais para as áreas portuárias de São Luís, Maranhão, Brasil
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Flávia Rebelo Mochel
O Maranhão abriga aproximadamente 450 mil hectares, a maior área contínua desse ecossistema no Brasil. Ao mesmo tempo, esses ambientes estão inseridos em territórios onde existem atividades industriais, portuárias, urbanas e diferentes formas de ocupação. Uma pesquisa premiada e apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico (FAPEMA) revela como a pressão portuária impacta os serviços ecossistêmicos, enquanto comunidades costeiras dão exemplo de pertencimento e engajamento ambiental.
O trabalho desenvolvido por Suellen Pinheiro Ribeiro sob orientação da Prof.ª Dr.ª Flávia Rebelo Mochel e coorientação do Prof. Dr. Denilson da Silva Bezerra, “Caracterização ambiental e avaliação dos serviços ecossistêmicos de manguezais para as áreas portuárias de São Luís, Maranhão, Brasil”, surgiu da percepção da pesquisadora de que havia uma lacuna importante nos estudos sobre os serviços ecossistêmicos dos manguezais em áreas portuárias.
A partir disso veio o interesse em compreender como esses ecossistemas se comportam em uma região submetida a diferentes pressões antrópicas – aquelas causadas pela ação humana -, como as atividades industriais e portuárias. “São Luís apresenta uma relação muito forte entre manguezais, comunidades costeiras e atividades portuárias. Os manguezais também desempenham funções importantes de proteção costeira, suporte à biodiversidade, regulação ambiental e fornecimento de recursos. Por isso, achei importante compreender quais serviços permanecem disponíveis nessas áreas e como as comunidades percebem e utilizam esses benefícios.
A pesquisa acabou unindo justamente essas dimensões ecológica, social e econômica”, explica Suellen Pinheiro Ribeiro.
Serviços ecossistêmicos são os benefícios diretos e indiretos que a natureza e o funcionamento dos ecossistemas proporcionam para a sobrevivência, o bem-estar e a economia dos seres humanos.
No caso do Porto do Itaqui, a pesquisa mostrou que existe uma oferta mais limitada de serviços ecossistêmicos quando comparada às áreas comunitárias analisadas. No Porto do Itaqui foram identificados 11 serviços, enquanto na Camboa dos Frades foram identificados 26 e, em Mangue Seco, 28. Essa variação demonstra que a intensidade das intervenções humanas e industriais reduz drasticamente a diversidade de benefícios ecossistêmicos disponíveis.
“Portanto, o desafio não é simplesmente escolher entre desenvolvimento portuário ou conservação. É compreender que os manguezais também oferecem benefícios fundamentais para a sociedade e que o planejamento dessas atividades precisa considerar a manutenção das funções ecológicas e dos serviços que esses ambientes proporcionam”, alerta a pesquisadora.

A relação da comunidade com o ecossistema
Um dos pontos mais expressivos trazidos pela revisão sistemática da dissertação foi a assimetria na abordagem científica tradicional. Enquanto 57% da literatura foca em serviços de regulação como o sequestro de carbono e a proteção costeira, apenas 4% dos estudos contemplam os serviços culturais.

Na prática das comunidades, porém, o ecossistema é indissociável da vida diária. Em Mangue Seco, os moradores relacionam o manguezal diretamente ao lazer, ao turismo, à educação, às práticas religiosas e à geração de renda derivada da pesca artesanal e do extrativismo de caranguejos e mariscos.
A pesquisa comprovou que o conhecimento tradicional traz consigo uma valiosa leitura do ambiente. A pesquisa procurou justamente ampliar esse olhar. Não se trata apenas de medir quanto carbono o manguezal sequestra ou quanto ele contribui para a proteção costeira. É necessário compreender também os conhecimentos, práticas, usos e relações construídas pelas comunidades ao longo do tempo. Esse conhecimento tradicional ajuda a compreender o valor do manguezal para além de uma perspectiva exclusivamente ecológica ou econômica”, assevera a pesquisadora.
Base científica para a tomada de decisão
Na comunidade de Mangue Seco, a pesquisadora também aplicou formulários e analisou a disposição de pagar (WTP, do inglês Willingness to Pay, ou também chamada de DAP em português), que é o preço máximo que um consumidor aceita pagar por um determinado produto ou serviço) da população para a conservação do ecossistema. O dado de que 93% dos moradores estão dispostos a contribuir financeiramente para proteger o manguezal chamou a atenção de Suellen Pinheiro Ribeiro.
Esse resultado mostra que existe uma percepção muito forte sobre a importância do manguezal para a vida da comunidade e demonstra uma disposição de participação nas ações de conservação. Além disso, o estudo aponta que quando a comunidade reconhece a importância de conservar o manguezal, ela está também reconhecendo a importância de preservar seu próprio modo de vida.
Através do modelo estatístico aplicado, constatou-se que a frequência de visitação e o contato direto com a natureza aumentam a percepção do valor ambiental. “Esse achado reforça a necessidade de reorientar as políticas de educação ambiental na Ilha de São Luís, tirando-as do confinamento das salas de aula e levando estudantes e cidadãos para vivências práticas, como trilhas interpretativas, projetos de ciência cidadã e trocas diretas com marisqueiras e pescadores”, propõe Suellen Pinheiro Ribeiro.
O objetivo não é paralisar o desenvolvimento econômico, mas fornecer subsídios científicos claros para que gestores públicos e investidores privados incorporem o valor dos serviços ecossistêmicos no planejamento ambiental e territorial. A manutenção das funções ecológicas essenciais deve figurar no centro das estratégias de licenciamento, restauração e monitoramento costeiro.

“Por isso, minha mensagem para os jovens pesquisadores é que olhem para os manguezais com essa perspectiva mais ampla. Ainda existem muitas perguntas a serem respondidas e muitas lacunas na ciência, principalmente quando pensamos nos serviços culturais e na relação entre esses ecossistemas e as comunidades. E, para a sociedade, eu deixaria uma mensagem simples: cuidar dos manguezais é também cuidar da biodiversidade, das comunidades que dependem deles e do futuro do nosso litoral”, assinala.





