Projeto transforma narrativas sobre constelações e mitos indígenas em histórias ilustradas, valorizando saberes ancestrais e ampliando as possibilidades de divulgação científica.
Eleilton Guajajara

Estudante do 2º ano do curso técnico em Agropecuária do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), Campus Grajaú, e bolsista de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBITI) pela FAPEMA. Desenvolve pesquisa que une arte, astronomia e valorização dos conhecimentos tradicionais indígenas, sob orientação do professor Genilson Vieira Martins.
VENCEDOR DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: PopVídeo Ciências
Área do Conhecimento: Multidisciplinar
Título: Histórias nas Estrelas: Produção de Quadrinhos sobre o Universo e as Constelações nas Culturas Indígenas
Orientador: Genilson Vieira Martins
Unir arte, astronomia e conhecimentos tradicionais dos povos indígenas para contar histórias sobre o céu. Essa é a proposta da pesquisa Histórias nas Estrelas: Produção de Quadrinhos sobre o Universo e as Constelações nas Culturas Indígenas, que utiliza a linguagem dos quadrinhos para preservar memórias, valorizar culturas originárias e aproximar a ciência de novos públicos. O projeto, desenvolvido pelo estudante e pesquisador Eleilton Guajajara, sob orientação de Genilson Vieira Martins, ambos do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) campus Grajaú, conquistou o 1º lugar na categoria Pop Vídeo Ciências, da área Multidisciplinar, no Prêmio FAPEMA 2026.
A iniciativa parte da compreensão de que o céu também é um espaço de produção de conhecimentos, histórias e interpretações construídas ao longo de gerações. Por meio da observação dos astros, os povos indígenas desenvolveram saberes relacionados à natureza, ao território, à agricultura e aos ciclos da vida. Ao transformar essas narrativas em histórias ilustradas, a pesquisa busca ampliar o acesso a esse patrimônio cultural e demonstrar como diferentes formas de conhecimento podem contribuir para a educação científica.
Ao todo, cinco histórias em quadrinhos estão em desenvolvimento: A Constelação do Homem Velho, Constelação da Anta, Constelação da Ema, O Mito de Kwarahy e Zahy (Sol e a Lua) e O Mito do Caminho das Almas. O processo de produção envolve pesquisa, elaboração de roteiros e criação de personagens. A expectativa é que as obras sejam publicadas futuramente em versões impressas, ampliando as possibilidades de utilização do material em atividades educativas e de divulgação científica.
Da aldeia à produção
A trajetória do projeto também está relacionada à história pessoal de seu idealizador. O desenho surgiu de maneira autodidata no território indígena Morro Branco, inicialmente como uma forma de expressão artística. Posteriormente, os estudos no Instituto Federal do Maranhão (IFMA) abriram caminhos para aproximar essa habilidade de áreas como ciência, tecnologia e astronomia.
“Com o tempo, percebi que o desenho poderia ser muito mais do que uma atividade artística: poderia ser uma ferramenta para contar histórias, transmitir conhecimentos e valorizar a cultura do meu povo”, relata Eleilton Guajajara.
A experiência demonstra como interesses desenvolvidos no cotidiano podem ganhar novas dimensões quando encontram oportunidades de formação e pesquisa. Nesse percurso, a vivência no território indígena tornou-se parte fundamental da construção do projeto, conectando as tradições culturais aos recursos de comunicação visual.
O céu como fonte de conhecimento
Entre as narrativas trabalhadas, a Constelação do Homem Velho exemplifica a relação entre a observação do céu e os conhecimentos tradicionais sobre os ciclos naturais. Segundo o pesquisador, essa constelação está associada à agricultura, aos períodos do ano e às transformações da natureza, reunindo conhecimentos transmitidos entre gerações.

“Para o meu povo, o céu não é visto apenas como algo distante que está acima de nós, mas como parte da nossa relação com o território, com a natureza e com a própria vida”, explica.
Essa perspectiva amplia a compreensão da astronomia para além do estudo dos corpos celestes. Ela evidencia como a observação sistemática da natureza também pode orientar práticas cotidianas e integrar sistemas de conhecimento construídos historicamente por diferentes povos.
Para representar essas narrativas, entretanto, o trabalho exige cuidado com os significados culturais das histórias. O desafio é torná-las acessíveis sem desconsiderar sua importância para as comunidades de origem.
“Não é simplesmente desenhar uma história: é pensar em como representar visualmente conhecimentos que fazem parte da memória e da cultura dos povos indígenas”, destaca.
Arte e ciência em diálogo
A escolha das histórias em quadrinhos como ferramenta de divulgação científica está relacionada à possibilidade de transformar narrativas transmitidas oralmente em conteúdos visuais, combinando personagens, cenários e acontecimentos para facilitar a compreensão de diferentes públicos. A linguagem também pode despertar o interesse de crianças e jovens, os aproximando tanto da astronomia quanto das culturas indígenas.
A proposta não pretende substituir uma forma de conhecimento por outra, mas promover o diálogo entre diferentes maneiras de compreender o mundo. Enquanto a ciência acadêmica utiliza métodos próprios de investigação, os povos indígenas desenvolveram saberes a partir da observação da natureza, do céu e das relações com seus territórios.
“As HQs ajudam a colocar esses conhecimentos em diálogo de uma maneira visual e acessível. Isso pode fazer com que o estudante perceba que aprender ciência também pode partir daquilo que está presente na sua própria cultura e no seu território”, afirma.
Além da produção dos quadrinhos, o pesquisador pretende ampliar o conjunto de histórias, desenvolver novos materiais e produzir vídeos que contribuam para a divulgação desses conhecimentos. A intenção é que a iniciativa continue crescendo e possa alcançar outros estudantes e espaços educativos.
Para ele, o projeto também representa uma oportunidade de mostrar que os jovens indígenas podem ocupar espaços na ciência, na arte, na tecnologia e na educação, produzindo conhecimento e contando suas próprias histórias.





