Conhecimentos etnocientíficos e etnomatemáticos de quebradeiras de coco como caminhos para o diálogo entre saberes tradicionais e educação escolar
Rayane de Jesus Santos Melo

Doutora em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e mestra em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Especialização em Docência do Ensino Superior e Metodologia do Ensino de Matemática, além de licenciaturas em Matemática e Pedagogia.
VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Comunidades Tradicionais e Patrimônio Cultural
Título da pesquisa: Saberes da Ciência e da Matemática de Quebradeiras de Coco Babaçu de Chapadinha – MA: Interfaces com a Educação
A ciência e a matemática praticadas diariamente pelas quebradeiras de coco babaçu também ensinam. Essa é a proposta de um projeto que transforma os babaçuais de Chapadinha (MA) em um laboratório a céu aberto. A iniciativa é fruto da pesquisa “Saberes da Ciência e da Matemática de Quebradeiras de Coco Babaçu de Chapadinha – MA: interfaces com a Educação”, coordenada pela professora e doutora em Educação, Rayane de Jesus Santos Melo, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
O estudo investiga como as mulheres quebradeiras de coco mobilizam conhecimentos construídos pela experiência, pela observação e pela relação com o território. O trabalho lança luz sobre formas de produção de conhecimento que historicamente ficam à margem dos currículos escolares.
A investigação tem como referências a etnociência e a etnomatemática, campos que ajudam a compreender os conhecimentos produzidos por diferentes grupos sociais, a partir de suas próprias práticas e modos de vida. No trabalho das quebradeiras, aparecem operações que, vistas de perto, revelam grande complexidade: classificação, estimativa, medição, proporcionalidade, observação de características físicas dos frutos e tomada de decisões. A ideia de que nada se perde do coco sintetiza uma das dimensões centrais dessa relação com o babaçu. Esse aproveitamento integral do fruto combina conhecimento sobre a natureza, organização do trabalho e uma lógica de sustentabilidade transmitida entre gerações.
O trabalho de campo foi realizado no Assentamento Canto do Ferreira, em Chapadinha, a partir de visitas, diálogos e aproximação com a cooperativa e a associação local. Um dos desafios encontrados pela pesquisadora foi perceber que algumas mulheres não reconheciam seus próprios conhecimentos como saberes relevantes. Foi nesse contexto que uma das participantes, dona Vitória (nome fictício), apresentada na pesquisa com nome fictício, ganhou papel central na investigação.
Indicada pelo próprio grupo, ela decidiu compartilhar sua história, acreditando que a pesquisa poderia contribuir para ampliar a visibilidade e o reconhecimento das quebradeiras. A narrativa revelou uma trajetória marcada pelo trabalho desde cedo, pelas dificuldades de acesso à escola e pelas transformações provocadas pela conquista da terra.
“A história de dona Vitória também ajuda a compreender que o conhecimento sobre o babaçu não pode ser separado das disputas e transformações ocorridas no território”, avalia Rayane Melo. Vitória começou a frequentar a escola aos 13 anos, mas precisou abandonar

os estudos, por dificuldades de deslocamento e condições sociais enfrentadas. Sua chegada ao Assentamento Canto do Ferreira, em 2005, marcou uma mudança em sua vida, pois possibilitou acesso à terra e ampliação do reconhecimento social. Dois anos depois, a criação da Associação das Mulheres Quebradeiras de Coco promoveu avanço na organização coletiva e na mobilização por direitos. Essa trajetória individual se entrelaça à história de uma comunidade e às relações construídas em torno dos babaçuais.
Na prática cotidiana, os conhecimentos etnocientíficos aparecem em gestos aparentemente simples, mas baseados em anos de observação e experimentação. Ao coletar e selecionar os frutos, as quebradeiras analisam cor, textura e facilidade de extração. Durante a quebra, aplicam técnicas desenvolvidas pela experiência e mobilizam conhecimentos sobre as propriedades físicas do coco. Depois da extração, observam características das amêndoas e avaliam sua qualidade e o potencial de produção de óleo. “Para nossa pesquisa, essas práticas constituem sistemas próprios de classificação e compreensão da natureza, construídos não em laboratórios convencionais, mas no contato contínuo com o território”, observa Rayane Melo.
No caminho da Matemática

A matemática também está presente onde nem sempre é percebida como matemática. Entre as práticas identificadas estão quantificação, estimativa, medição e relações de proporcionalidade. Um dos exemplos registrados é a estimativa de que um cofo (cesto de palha de babaçu) comporta aproximadamente cinco quilos de amêndoas, quantidade associada à produção de cerca de dez litros de azeite. No preparo de alimentos, também aparecem proporções, como na produção de cuscuz com aproximadamente 90% de farinha do mesocarpo e 10% de outro ingrediente. São raciocínios matemáticos incorporados ao fazer cotidiano, muitas vezes sem a utilização da linguagem formal ensinada na escola.
É justamente nessa fronteira entre os saberes tradicionais e o conhecimento escolar que a pesquisa identifica um dos principais desafios. Quando esses saberes ficam fora dos currículos, a escola se distancia do território e contribui para invisibilizar conhecimentos transmitidos entre gerações. O estudo propõe, como alternativa, práticas pedagógicas interdisciplinares e interculturais capazes de colocar esses universos em diálogo. História e organização das quebradeiras, propriedades e usos do babaçu, conceitos matemáticos presentes na produção e rodas de conversa são algumas das possibilidades apontadas pelo estudo para aproximar estudantes, professores e comunidade.
Reconhecimento e visibilidade
Desenvolvida pela UFMA entre 2024 e 2025, com participação do bolsista de Iniciação Científica Juan Pedro da Silva Barbosa, a pesquisa alcançou reconhecimento acadêmico ao conquistar o primeiro lugar no XXXVII Seminário de Iniciação Científica (SEMIC) e no XVII Seminário de Iniciação Tecnológica e Inovação (SEMITI), em novembro de 2025, além de menção honrosa no I ENIPECIMA e IV ENPECIMA, realizados em outubro do mesmo ano. O trabalho ganhou o primeiro lugar no Prêmio FAPEMA 2026, na categoria Comunidades Tradicionais e Patrimônio Cultural.
“Acredito que nosso trabalho, além de registrar conhecimentos sobre o babaçu, aponta uma questão fundamental para a educação escolar, que é o reconhecimento da ciência e da matemática como experiência cotidiana, como memória coletiva e como expressão de uma relação profunda entre a comunidade e o território que sustenta sua vida”, enfatiza a pesquisadora.





