Tese de doutorado de Samir Lola Roland desmistifica a visão de que a criação de gado era uma atividade secundária na economia colonial, destacando a exportação do couro e o papel estratégico do interior maranhense no Atlântico
Samir Lola Roland

Graduado em Ciências Humanas com habilitação em História pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA. Mestre em História Social pela Universidade Federal do Pará (UFPA) doutor em História pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
VENCEDOR DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Tese de Doutorado
Área do Conhecimento: Ciências Agrárias
Título: A economia do gado no Maranhão e no Piauí coloniais (1750-1779)
Orientador: Rafael Ivan Chambouleyron

Quando se fala na economia do Maranhão colonial durante o período pombalino, é comum lembrar de imediato das grandes lavouras de algodão e arroz voltadas para a metrópole. No entanto, nos sertões do estado e do Piauí, uma dinâmica econômica igualmente robusta e interligada garantia a sobrevivência de populações urbanas e conectava a região aos grandes circuitos do comércio internacional: a pecuária.
Em sua tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), sob orientação do professor Rafael Ivan Chambouleyron, o historiador Samir Lola Roland analisa a economia do gado no vale oriental do Maranhão e no Piauí entre os anos de 1750 e 1779. O trabalho desconstrói a ideia tradicional de que a criação de gado no interior era apenas uma atividade “acessória” ou de pouca relevância econômica.
Ao deslocar o foco das análises historiográficas do litoral para o interior, o trabalho de Roland convida a uma reinterpretação da própria identidade econômica e geográfica do estado: “Precisamos parar de olhar para a história do Maranhão focando apenas no litoral e em São Luís. O interior do nosso estado teve um papel crucial no comércio atlântico e na formação do Brasil colonial. Compreender essa força dos sertões é fundamental para reconhecer a importância histórica do interior maranhense”, defende o autor.
O couro e a inserção no comércio atlântico
Ao examinar acervos documentais, o pesquisador constatou que o beneficiamento e a comercialização dos subprodutos do gado, especialmente o couro, alcançaram patamares expressivos de exportação durante o funcionamento da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão.
Para reconstruir as teias dessa economia centenária, a pesquisa exigiu uma extensa imersão documental em acervos do Brasil e de Portugal. O autor consultou arquivos em São Luís, Teresina, Belém e Lisboa, analisando quase mil concessões de títulos de sesmarias, além de correspondências administrativas, registros de exportação e relatórios comerciais da época. Essa rigorosa metodologia quantitativa e qualitativa permitiu cruzar dados econômicos e sociais até então pouco explorados pela historiografia.

De acordo com Samir Lola Roland, a pecuária desempenhou um papel muito mais ambicioso do que a historiografia tradicional costuma atribuir. “Durante muito tempo, a história tratou a criação de gado apenas como uma atividade secundária, feita para alimentar quem trabalhava nos engenhos ou nas minas. O que demonstramos é que a pecuária do Maranhão e do Piauí foi muito além da subsistência: o couro se tornou um dos produtos mais valiosos e exportados pela nossa região para a Europa na segunda metade do século XVIII”, destaca o historiador.

O estudo aponta que, ao lado do algodão e do arroz, o couro figurou entre os itens mais lucrativos despachados para Lisboa nas décadas de 1760 e 1770, posicionando a região entre os principais polos exportadores do produto na América portuguesa.
Redes de abastecimento e integração regional
Além do mercado externo, a pecuária dos sertões do Maranhão e do Piauí sustentou uma complexa rede de abastecimento que mantinha vivas algumas das principais cidades coloniais. Rotas fluviais, marítimas e terrestres conectavam os currais do interior a centros urbanos que dependiam diretamente da carne seca, salgada e das reses em pé para a alimentação básica diária. “Sem o gado que saía do vale oriental do Maranhão e do Piauí, grandes centros urbanos da época simplesmente não teriam como se alimentar. A carne produzida nessa região garantia a sobrevivência de populações desde São Luís e Belém até Salvador e Rio de Janeiro, em rotas terrestres e fluviais impressionantes para a época”, pontua Samir Roland.
Um dos episódios marcantes analisados na tese foi o fortalecimento do comércio de gado em pé rumo à tradicional Feira de Capuame, na Bahia, especialmente após a expulsão dos jesuítas em 1759 e o confisco de suas fazendas. A partir de entrepostos estratégicos, como a Vila da Parnaíba, o litoral do vale oriental tornou-se um polo produtor e exportador de carne seca e salgada, conectando produtores sertanejos a mercados consumidores distantes por meio de complexas redes mercantis.
Conflitos de terra e o custo social da expansão
A consolidação dessa fronteira econômica, no entanto, não ocorreu de forma pacífica. A distribuição de cartas de sesmarias pela Coroa portuguesa para regularizar as propriedades esteve intimamente ligada ao avanço violento sobre os territórios indígenas e a disputas fundiárias entre sesmeiros e posseiros.
Samir Lola Roland explica que a ocupação dos sertões foi marcada por profundas assimetrias. “A expansão das fazendas de gado nos sertões maranhenses e piauienses não aconteceu em um vazio. Ela foi impulsionada pela distribuição de terras em sesmarias, mas também envolveu intensos conflitos territoriais com as populações indígenas e disputas entre os próprios colonos. O boi foi o grande agente da ocupação do interior, mas a um custo social e humano altíssimo”, pondera.





