Pesquisa revelou que quase 67% das amostras analisadas continham o Circovírus Suíno Tipo 2, além de registrar coinfecções com bactérias causadoras de doenças respiratórias.
Ana Isabela Lima Ribeiro

Médica veterinária formada na Universidade Estadual do Maranhão – UEMA e Mestre em Ciência Animal pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal – PPGCA pela mesma Instituição
VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Dissertação de Mestrado
Área de Conhecimento: Ciências Agrárias
Título: Detecção molecular de Agentes do complexo de doenças respiratórias em suínos abatidos na Ilha do Maranhão
Orientadora: Larissa Sarmento dos Santos Ribeiro

Importante pilar da agricultura familiar e do abastecimento de carnes no estado, a suinocultura maranhense passa a contar com um mapeamento sanitário inédito. Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) identificou pela primeira vez a circulação do Circovírus Suíno Tipo 2 (PCV2) na Ilha do Maranhão.
O estudo, conduzido pela médica veterinária e pesquisadora Ana Isabela Lima Ribeiro, avaliou 150 amostras de tecido pulmonar de suínos abatidos em estabelecimentos com e sem inspeção sanitária oficial. Os resultados revelaram uma alta taxa de contaminação: o vírus PCV2 foi detectado em 66,95% das amostras analisadas por técnicas de biologia molecular.

Para a pesquisadora Ana Isabela Lima Ribeiro, o diagnóstico preenche uma lacuna fundamental para a saúde animal no estado. “Esta é a primeira vez que comprovamos cientificamente a presença e a circulação do Circovírus Suíno Tipo 2 no estado do Maranhão. Encontrar o vírus em quase 67% das amostras analisadas mostra que o patógeno está amplamente disseminado nos nossos rebanhos”, explica a autora.
Perigo silencioso e proliferação assintomática
A circovirose suína não é transmitida para humanos e é uma enfermidade de notificação compulsória junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e figura entre os principais gargalos produtivos da suinocultura mundial. O grande risco da doença reside na sua capacidade de infecção silenciosa.

A médica veterinária destaca que o vírus pode circular sem apresentar sintomas visíveis de imediato, facilitando o contágio entre os plantéis. “O grande desafio do PCV2 é que ele pode se multiplicar de forma assintomática no animal. O suíno parece saudável, mas está transmitindo o vírus. Detectamos a presença do agente tanto em grandes criações tecnificadas quanto na agricultura familiar e nos abates sem fiscalização”, alerta Ana Isabela.
O perigo das coinfecções no sistema respiratório
Além de mapear o vírus, a investigação avaliou a presença de bactérias que compõem o chamado Complexo de Doenças Respiratórias dos Suínos (CDRS). O estudo identificou que 35,8% das amostras infectadas pelo vírus também apresentavam coinfecção pela bactéria Mycoplasma hyopneumoniae, além de registrar casos de associação com a bactéria Glaesserella parasuis (agente da Doença de Glässer).
Segundo a pesquisadora, a ação simultânea de vírus e bactérias agrava o quadro clínico do animal. “Quando o vírus da circovirose atua sozinho, ele já causa danos, mas quando ele se combina com bactérias como o Mycoplasma hyopneumoniae, as lesões pulmonares se agravam significativamente. Identificamos que mais de 35% dos animais com PCV2 também tinham essa bactéria, o que reduz drasticamente a produtividade dos animais”, detalha a cientista.
Genótipos de alta virulência e o apelo à vigilância
Por meio do sequenciamento genético das amostras, a pesquisa confirmou a presença dos genótipos PCV2a e PCV2b no rebanho local — duas das linhagens virais conhecidas internacionalmente pela alta virulência e severidade das lesões em suínos.
“A análise filogenética permitiu confirmar a circulação dos genótipos PCV2a e PCV2b no Maranhão. Eles estão entre as linhagens mais virulentas do vírus no mundo, o que exige atenção redobrada dos produtores na imunização e no manejo sanitário dos rebanhos”, ressalta Ana Isabela.
Diante desse cenário, o estudo, que ganhou o Prêmio FAPEMA 2026, na categoria Dissertação de Mestrado, sugere a implementação de medidas urgentes para conter a disseminação dos patógenos, como o fortalecimento da biosseguridade nas granjas, a conscientização contra o abate clandestino e a ampliação da fiscalização do trânsito de animais na Região Metropolitana de São Luís.
“Nossos achados acendem um alerta para a necessidade de reforçar a vigilância epidemiológica e coibir a movimentação clandestina de suínos na Ilha de São Luís e no interior. O trabalho conjunto entre os produtores, os médicos veterinários e os órgãos de defesa agropecuária é urgente para proteger a suinocultura maranhense”, conclui a pesquisadora da UEMA.





