Estudo sobre as interações no órgão de trânsito propõe uma comunicação inclusiva e acessível.
João Vieira da Silva Júnior

Mestre em Letras pela Universidade Federal do Maranhão. possui curso superior em Gestão de Pequenas e Médias Empresas pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (2007). Formação em Letras – Inglês/Português pelo Instituto de Ciências Sociais e Humanas – ICSH.
VENCEDOR DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Dissertação de Mestrado
Área: Linguística, Letras e Artes
Título: Metáforas Conceptuais e Construção de Sentidos: Impactos na (Des)Humanização das Interações no Detran – MA
Orientadora: Monica Fontenelle Carneiro
É muito comum sentir receio ou dificuldade ao tentar resolver uma pendência em um órgão público diante do excesso de burocracia e de termos técnicos. O pesquisador João Vieira da Silva Junior, mestre em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras (PGLetras) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), desenvolveu uma investigação sobre os impactos da linguagem nas interações do Departamento Estadual de Trânsito do Maranhão (Detran-MA).
Ele analisou como as metáforas usadas espontaneamente no cotidiano institucional moldam a percepção pública sobre o órgão. Segundo o pesquisador, a forma de se comunicar define o tipo de serviço prestado à população e, em muitas vezes, a barreira comunicativa afasta o cidadão de seus direitos. “No contexto dos órgãos de trânsito, marcado pela sensação de distanciamento e de burocratização, a linguagem pode tanto perpetuar práticas excludentes quanto oportunizar um atendimento mais humanizado e inclusivo“, avalia o autor.
Ressignificando a comunicação: do controle à parceria
Para reverter esse cenário e promover uma real acessibilidade linguística, alinhada à Política Nacional de Linguagem Simples, o autor defende uma modulação do discurso institucional. O pesquisador propõe incorporar conceitos voltados à construção coletiva, ao diálogo e à cidadania ativa. Essa mudança na prática se reflete na forma como as ações e os processos são apresentados à população.
Expressões tradicionais como “Detran vai à escola” dão lugar a abordagens colaborativas como “Detran e escola construindo um trânsito seguro”, substituindo a ideia de imposição pela de cooperação.
Além disso, até mesmo expressões cotidianas como “tirar a carteira” ganham novo peso ao serem compreendidas sob a ótica da garantia e conquista de direitos. Com essa alteração, a obtenção da Carteira Nacional de Habilitação deixa de parecer apenas uma exigência burocrática e passa a ser reconhecida como um momento de exercício pleno da cidadania.
O especialista ressalta a importância de mudar a percepção da sociedade sobre a instituição. “A linguagem institucional e dos cidadãos posiciona o Detran de forma verticalizada e como único agente que promove as melhorias no trânsito. Por isso, propomos a adoção de metáforas que promovam a cultura do diálogo e da comunicação não-violenta, evitando que a instituição seja vista como punitiva”, pontua.width=”300″] Defesa da dissertação de Mestrado feita pelo pesquisador Silva Júnior[/caption]
Apoiando-se na Teoria da Metáfora Conceptual (desenvolvida por George Lakoff e Mark Johnson), o estudo demonstra que a metáfora não é apenas um recurso poético, mas uma estrutura de pensamento que orienta atitudes no dia a dia.
Silva Júnior explicou que, quando o órgão utiliza metalinguagens que tratam a fiscalização e a educação como um “combate” ou “imposição de regras”, reforça-se o distanciamento. Por outro lado, ao adotar conceitos que situam a legislação como uma ferramenta de garantia de direitos e preservação da vida, estimula-se a responsabilidade compartilhada no trânsito. Segundo Silva Júnior, essa virada de chave na escolha dos termos é o que permite transformar o usuário do serviço público de espectador passivo em parceiro ativo da segurança viária.

Da academia para o interior: impacto e transformação no Maranhão
Um dos grandes diferenciais do trabalho de João Vieira da Silva Junior é o seu alcance prático e regional. Além de pesquisador, ele é servidor do Detran-MA há 11 anos e atua na 3ª Ciretran, no município de Codó. Sua vivência diária no interior do estado permitiu observar de perto como as diferenças linguísticas e o jargão técnico prejudicam o atendimento da população. “Buscamos fortalecer a descentralização da produção científica. Sendo um estudo vinculado à UFMA, mas com recorte empírico na 3ª Ciretran de Codó, levamos o conhecimento produzido na universidade para a atuação prática no interior do estado“, explica Silva Junior.





