Aprendizados transmitidos por mestres carpinteiros navais unem experiência, geometria e educação, preservando tradição que atravessa gerações
John Haién Ribeiro Costa

Graduado em Comunicação Social, habilitação em Rádio e TV na Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
VENCEDOR PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Comunicação Científica – Telejornalismo
Título da pesquisa: ‘Saberes do Mar: Pesquisa revela a matemática por trás da construção artesanal de embarcações maranhenses
Madeira, ferramentas e técnicas de construção materializam conhecimentos acumulados ao longo de gerações, na fabricação de embarcações artesanais. Esse legado carrega uma história que vai além da pesca e da navegação, revelando como a experiência dos mestres carpinteiros navais se transforma em soluções precisas para a construção de barcos. É nesse universo que se insere a reportagem “Saberes do Mar: Pesquisa revela a matemática por trás da construção artesanal de embarcações maranhenses”, produzida pelo repórter John Haién Ribeiro Costa, da TV da UFMA, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
A reportagem analisa a relação entre conhecimentos tradicionais carpinteiros navais e conceitos matemáticos, apontando uma dimensão científica nessas práticas, que por vezes, passa despercebida.
A reportagem parte da tese “O velejar das embarcações maranhenses: uma narrativa sobre saberes docentes (matemáticos) de um mestre carpinteiro naval ensinados no âmbito do Estaleiro Escola”, de Rayane de Jesus Santos Melo, pesquisadora e professora do curso de licenciatura em Matemática da UFMA. Como personagem, o mestre carpinteiro naval Otávio Nogueira, cuja vivência é base para identificar os conhecimentos matemáticos presentes na construção tradicional das embarcações. A investigação mostra que, muito antes de fórmulas e conceitos chegarem aos livros didáticos, procedimentos relacionados a medidas, proporções, formas e relações espaciais já faziam parte da rotina desses profissionais. Trata-se de uma matemática construída na experiência, aperfeiçoada pela observação e transmitida pela prática.
Observar os mestres permite deslocar o olhar sobre aquilo que pode ser reconhecido como conhecimento matemático, analisa o pesquisador. “A reportagem procura justamente mostrar esses saberes e aproximá-los do ambiente educacional. Essa perspectiva amplia o entendimento sobre a matemática ao mostrar que ela também se manifesta em práticas culturais e profissionais desenvolvidas fora dos espaços formais de ensino”, ressalta John Haién.

Essa conexão entre conhecimento acadêmico e experiência tradicional pode ser observada no Estaleiro Escola, criado em 2006 e dedicado ao ensino e à preservação da construção naval artesanal. É ali que mestres como Otávio Nogueira compartilham com novas gerações técnicas que atravessaram décadas e, em alguns casos, séculos de história. Cada etapa da construção envolve decisões baseadas em referências visuais, medições e relações geométricas que nem sempre recebem nomes científicos, mas desempenham funções concretas na fabricação das embarcações.
A reportagem recupera a contribuição do professor Luiz Felipe Andrés, criador do projeto ‘Embarcações do Maranhão’. A iniciativa reuniu uma equipe multidisciplinar para documentar a tradição naval maranhense e registrar os conhecimentos associados à construção das embarcações. Ao colocar esses saberes em evidência, a reportagem contribuiu para ampliar o reconhecimento dos construtores navais como protagonistas de um patrimônio cultural que combina técnica, memória e identidade.
No Estaleiro Escola, preservar é guardar objetos, reproduzir modelos antigos e manter vivo um processo de transmissão de conhecimento. Os mestres ensinam fazendo, observando e corrigindo, enquanto os alunos aprendem a interpretar a madeira, compreender medidas e reconhecer as particularidades de cada construção. “O conhecimento produzido pela experiência passa a ser compartilhado com as novas gerações”, sintetiza John Haién.
A reportagem foi produzida para o quadro ‘Em Dia com a Ciência’, exibido no telejornal JTV UFMA, da TV UFMA e ganhou reconhecimento no Prêmio FAPEMA 2026, na categoria de Comunicação Científica.
Tradição x educação x ciência
A investigação propõe ainda levar esses saberes para as escolas. Ao reconhecer que práticas tradicionais podem conter conhecimentos matemáticos sofisticados, o estudo abre possibilidades para aproximar conteúdos curriculares da realidade cultural dos estudantes. A construção de uma embarcação, nesse contexto, pode deixar de ser vista apenas como atividade artesanal e passar a ser também uma porta de entrada para discutir conceitos matemáticos a partir de situações concretas.

Essa aproximação entre ciência e saber popular está no centro da ideia de transformação social associada à pesquisa. Ao investigar e sistematizar conhecimentos desenvolvidos pelos mestres carpinteiros, o trabalho contribui simultaneamente para a valorização cultural e para a reflexão sobre novas formas de ensinar matemática. John Haién avalia que “a ciência, nesse caso, não substitui o conhecimento tradicional, mas sim, ajuda a torná-lo visível, documentá-lo e criar novas possibilidades para sua transmissão”.





