A indústria têxtil segue normatizações que organizam visualmente as instruções de conservação e a existência de símbolos gráficos impressos, mas que não garantem acessibilidade
Sabrina de Melo Freire
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Estudante do 2º ano do curso de Design de Interiores do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) e tem ensino fundamental pelo Centro de Ensino Santa Teresa.
A autonomia no cotidiano começa em detalhes que muitas vezes passam despercebidos, principalmente por quem não tem qualquer deficiência. Escolher uma roupa, identificar a cor de uma peça, combinar o vestuário para uma ocasião ou saber exatamente como lavar e cuidar de um tecido são atos corriqueiros. No entanto, para pessoas com deficiência visual, essas ações frequentemente dependem da intermediação de terceiros.
Buscando transformar essa realidade por meio do design inclusivo, uma pesquisa científica desenvolvida no Maranhão investigou e estruturou um sistema inovador de tradução visual-tátil para etiquetas de vestuário.

O projeto “Design inclusivo: etiquetas têxteis para pessoas com deficiência visual”, desenvolvida pela estudante Sabrina de Melo Freire, do 2º ano do curso de Design de Interiores do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), campus de São Luís, sob a orientação da Profa. Dra. Ivana Márcia Oliveira Maia, contou com o incentivo e o fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBITI), que destaca o papel estratégico do estado no apoio à formação de jovens cientistas, permitindo que estudantes do ensino médio integrem equipes de pesquisa de alto impacto social.
A indústria têxtil segue normatizações consolidadas que organizam visualmente as instruções de conservação (lavagem, alvejamento, secagem, passadoria e cuidados profissionais) e a existência de símbolos gráficos impressos.
Entre as principais normas estão a ISO 3758, norma internacional que estabelece um sistema de símbolos gráficos para a etiquetagem de cuidados e conservação de produtos têxteis; e a ABNT NBR ISO 3758, que estabelece o sistema de símbolos gráficos utilizados na etiquetagem de produtos têxteis para informar os tratamentos de cuidado e conservação adequados.
A lacuna entre a norma e o tato
No entanto, Sabrina de Melo Freire sentia-se incomodada com o fato destes normativos não garantirem acessibilidade para quem não pode percebê-los visualmente. Foi a partir deste incômodo que nasceu o projeto de pesquisa.

Na tentativa de superar esta barreira o Sistema Braile já foi utilizado diretamente em tecidos, mas esbarrou em desafios técnicos. “Os resultados experimentais obtidos neste estudo corroboram os achados relatados na literatura quanto aos problemas na utilização do Braille em tecidos: relevo irregular, espaçamento inadequado e deformação decorrente da flexibilidade dos materiais que dificultam a leitura”, explica Sabrina de Melo Freire.
Desta forma, a pesquisa não procurou simplesmente reproduzir os símbolos internacionais em relevo. A estratégia foi tomar a ISO 3758/NM ISO 3758 como referência para o conteúdo semântico das informações e investigar como essas informações poderiam ser materializadas em um sistema acessível às condições perceptivas dos usuários e às características do vestuário.
Isso significou trabalhar com uma lógica de tradução e adaptação e não de reprodução literal. “Os símbolos convencionais devem preservar seu significado relacionado aos cuidados da peça, mas sua representação acessível precisa considerar relevo, espaçamento, materialidade, localização na etiqueta, facilidade de exploração pelo tato e possibilidade de complementação digital”, destaca Sabrina de Melo Freire.
Muito além do relevo
Realizada em conjunto com a pesquisa de mestrado em Design de Ricardo Sousa (PPGDg UFMA), a investigação incluiu entrevistas com 10 pessoas com deficiência visual. Os relatos confirmaram a demanda urgente por acesso autônomo, mas revelaram um dado crucial: uma solução exclusivamente tátil também seria insuficiente.
Nesta etapa da pesquisa os participantes revelaram que utilizam diferentes estratégias para acessar informações que vão desde a exploração tátil, memória, ajuda de familiares ou vendedores e até mesmo aplicativos de reconhecimento de imagem. Eles também apontaram dificuldades para distinguir peças semelhantes quando a diferença estava apenas na cor e problemas na identificação de informações que haviam sido fornecidas verbalmente no momento da compra.
“Este processo, portanto, redirecionou o projeto de uma solução exclusivamente física para uma solução multimodal com um QR Code e a audiodescrição passando a funcionar como extensão da etiqueta física”, revela Sabrina de Melo Freire.
Esta solução multimodal integrou quatro camadas complementares de informação: perceptibilidade a partir de formas simples, contornos definidos, diferenciação de texturas e relevo suficientemente perceptível; legibilidade tátil com controle da altura, espessura e espaçamento dos elementos; organização informacional para que os elementos possuíssem uma lógica espacial compreensível, evitando que o usuário precisasse interpretar aleatoriamente os símbolos; e a integração multimodal para que a informação que não pudesse ser adequadamente transmitida pela superfície física pudesse ser disponibilizada por QR Code e audiodescrição.
“Como o problema do espaçamento do Braile aparece de maneira recorrente na literatura, esta questão foi incorporada como requisito de projeto para garantirmos a legibilidade tátil. Além disso, todos os critérios adotados nos levaram a adotarmos formas simples, linhas bem definidas, símbolos padronizados, contrastes de textura e controle da altura e do espaçamento do relevo nos protótipos desenvolvidos”, reforçou a pesquisadora.
Prototipagem e viabilidade econômica
Durante a fase de testes, diferentes materiais e técnicas foram avaliados, indo desde papéis especiais (como Offset e Color Plus) até tintas puff para relevo, Braile produzido com reglete positiva, tecidos de algodão e poliéster, e impressão por sublimação. A pintura puff (ou com tinta expansiva/3D) é uma técnica artesanal em que a tinta se expande e ganha relevo fofo ao entrar em contato com o calor. Já a reglete positiva é um instrumento para a escrita manual em Braille que permite escrever diretamente da esquerda para a direita, formando os pontos já em alto-relevo.
Para garantir a viabilidade comercial e evitar custos que pudessem inviabilizar a adoção pelas marcas, a pesquisa consolidou o uso de suportes em papel estruturado de alta durabilidade nas camadas da etiqueta tátil, associados a diretrizes industriais claras de posicionamento e controle de qualidade.
A lógica desenvolvida pela pesquisa permitiu separar dois níveis de aplicação: um para a indústria e outro para o consumidor. “Para a indústria, o conteúdo traduz os resultados da pesquisa em parâmetros de produção que vão desde a seleção do sistema de símbolos, características do relevo, materiais, técnicas de aplicação, posicionamento da etiqueta, integração com QR Code, requisitos de acessibilidade e até procedimentos de controle de qualidade. Para o consumidor o foco é apresentar uma linguagem simples para explicar o significado dos símbolos e como interagir com a etiqueta física e com o conteúdo digital”, pontuou a pesquisadora.
Impacto social e a ciência que transforma vidas
Mais do que solucionar um problema técnico da indústria, a pesquisa demonstra como o design inclusivo atua diretamente na promoção da dignidade e dos direitos humanos. A autonomia conquistada pelo consumidor com deficiência visual ao decodificar de forma independente as características de suas roupas resgata a liberdade de escolha, a identidade estética e o poder de consumo.
Ao longo da execução do plano de trabalho, um dos principais desafios tecnológicos apontados por ela foi compreender como transformar informações originalmente concebidas para a percepção visual em estímulos táteis que fossem, ao mesmo tempo, fáceis de reconhecer, simples, reproduzíveis e compatíveis com os materiais e processos utilizados na produção têxtil. A experiência mostrou que não se tratava apenas de acrescentar relevo a uma etiqueta, mas de considerar cuidadosamente aspectos como materiais, altura e definição do relevo, espaçamento entre os elementos e permanência da informação após o uso e a manipulação da peça.





