Revista Inovação FAPEMA

CÂNCER DE MAMA: A CIÊNCIA BUSCA NOVAS RESPOSTAS

Da inteligência artificial à nanotecnologia, pesquisas investigam caminhos para prevenir, identificar e enfrentar a doença no Maranhão.

No Maranhão, pesquisadores apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) investigam diferentes caminhos para enfrentar o câncer de mama, que vão desde o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial para auxiliar no diagnóstico ao uso de tecnologias educacionais na prevenção e no cuidado. Há também estudos que analisam a distribuição da mortalidade pela doença no território maranhense e pesquisas que exploram o potencial da nanotecnologia para futuras aplicações biomédicas 

O câncer de mama permanece como a neoplasia maligna de maior incidência entre as mulheres em âmbito global e nacional. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA) há uma estimativa de  78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil no triênio 2026–2028, e a doença representa 30% dos casos de câncer entre mulheres, excluídos os tumores de pele não melanoma  registrando anualmente mais de 70 mil novos casos. 

O diagnóstico em tempo oportuno é um dos fatores importantes para o tratamento e o prognóstico das pacientes e é isso o que busca a pesquisa “Métodos computacionais baseados em inteligência artificial para detecção e diagnóstico de câncer de mama por ultrassonografia”, realizada pelo Prof. Dr. João Otávio Bandeira Diniz, do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) – Campus Grajaú. Os estudos foram iniciados este ano com previsão para ser concluído em 2028.

Pesquisador João Otávio Bandeira Diniz

O trabalho desenvolvido pelo pesquisador une o processamento de imagens médicas, redes neurais e aprendizado profundo por meio de Inteligência Artificial para aproximar a tecnologia de ponta da realidade maranhense.

“Muitas mulheres que vivem em municípios do interior precisam se deslocar por horas para realizar exames ou consultar um especialista. Além disso, temos desigualdades socioeconômicas, dificuldades de transporte, menor disponibilidade de equipamentos e também falta de profissionais especializados em algumas regiões. Tudo isso pode atrasar a realização do exame, a interpretação do resultado e, consequentemente, o início do tratamento. Quando falamos de câncer, tempo é um fator muito importante”, pontua o Prof. Dr. João Otávio Bandeira Diniz.

Ele explica que a ultrassonografia não vem para substituir a mamografia no rastreamento do câncer de mama, pois são exames que possuem finalidades e indicações diferentes. Entretanto, o ultrassom apresenta algumas características muito interessantes para regiões afastadas dos grandes centros por ser um equipamento mais acessível, pode ser portátil, não utiliza radiação ionizante e já está presente em muitos serviços de saúde.

Métodos para classificação de ultrassom

“Isso permite imaginar um cenário no qual municípios do interior possam realizar exames localmente e utilizar ferramentas computacionais para auxiliar na interpretação dessas imagens. Dessa forma, conseguimos aproximar a tecnologia da população e reduzir a necessidade de concentrar todo o processo diagnóstico nos grandes centros”, destaca o pesquisador.

Para apoiar o trabalho médico e reduzir possíveis variações na interpretação das imagens de ultrassom, o projeto aposta na Inteligência Artificial (IA) como uma tecnologia de suporte à decisão clínica. O sistema não substitui o médico, mas atua como um “segundo par de olhos”.

“Quando treinamos um modelo de aprendizado profundo com milhares de imagens, ele aprende determinados padrões associados às lesões. Ele consegue analisar características relacionadas ao formato, às bordas, à textura e à distribuição dos pixels da imagem, inclusive combinações muito sutis que podem ser difíceis de quantificar visualmente. A IA pode, por exemplo, indicar que determinada região apresenta características semelhantes às observadas em casos malignos e chamar a atenção do profissional para aquela área. A decisão continua sendo do médico. O que buscamos é oferecer mais uma informação para auxiliar essa decisão, reduzir variações na interpretação e aumentar a segurança do processo diagnóstico”, afirma Prof. Dr. João Otávio Bandeira Diniz.

Prevenção e qualificação do cuidado – pesquisa investiga tecnologia educacional na prevenção e no cuidado do câncer de mama

Distante cerca de 200 quilômetros de Grajaú, onde acontecem os estudos do professor João Diniz, outra pesquisa sobre o câncer de mama vem do município de Imperatriz, na região tocantina, mostrando que a inovação não se refere apenas a equipamentos sofisticados. O uso do aplicativo MamaPrev por profissionais de Imperatriz auxiliou na reunião de informações sobre rastreamento e detecção precoce. As ferramentas do aplicativo possibilitaram avaliar o grau de risco das pacientes, ajudando o profissional a direcionar possíveis condutas de rastreamento.

 O aplicativo fez parte da Dissertação de Mestrado do pesquisador Aldo Lopes da Costa Júnior, da Universidade Federal do Maranhão. Ele está dando continuidade na pesquisa com sua Tese de Doutorado, prevista para ser concluída em 2028, pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná. 

Pesquisador Aldo Júnior

Nesta nova fase do projeto, o objetivo é avaliar a efetividade do uso de tecnologia educacional por profissionais de saúde (enfermeiros, médicos, odontologistas, educadores físicos e assistentes sociais) e pacientes da Estratégia de Saúde da Família (ESF) e Núcleo Ampliado de Saúde da Família (NASF) da cidade de Imperatriz.

 Na primeira fase do estudo, buscou-se identificar o conhecimento dos PS (Pronto Socorro) relacionado à prevenção do câncer de mama, mediante revisão integrativa da literatura e investigação com público-alvo para definição do conteúdo do App. A equipe de desenvolvimento foi multidisciplinar, formada por dois profissionais de saúde, dois desenvolvedores e uma designer, sendo adotado o método ágil scrum para otimizar o tempo e facilitar a comunicação entre a equipe.

 Na segunda fase da dissertação de mestrado, realizou-se a validação de conteúdo e aparência com 25 juízes, e avaliação de design e usabilidade com seis experts em informática. Nesta fase, foi evidente que as tecnologias educacionais como aplicativo para profissionais de saúde, desenvolvidas com qualidade e rigor metodológico, validado por meio de juízes e público alvo, seguindo as recomendações dos órgãos de referência, é um potencial tecnológico como estratégia complementar para o fortalecimento dos cuidados preventivos de saúde.

 Com resultados positivos de sua pesquisa do mestrado, na tese de doutorado intitulado “Atitudes e práticas profissionais no uso de tecnologia educacional sobre câncer de mama: ensaio clínico randomizado pragmático”, Aldo Lopes está buscando avaliar o potencial de educação permanente de uma tecnologia educacional sobre prevenção do Câncer de Mama para profissionais de saúde da Atenção Básica de Saúde.

Distribuição espacial das taxas de mortalidade por câncer de mama no MA

 Pesquisa analisou a distribuição espacial da mortalidade por câncer de mama no Maranhão.

Compreender como a doença se comporta e afeta a vida das mulheres maranhenses nas diferentes regiões do estado ganhou novas perspectivas com uma pesquisa desenvolvida por Sarah Raquel Campelo Ribeiro, da Universidade Federal do Maranhão. Os estudos tiveram a orientação da professora doutora Poliana Pereira Costa Rabêlo e a coorientação do enfermeiro mestre Pablo Nascimento Cruz.

O estudo “Análise espacial da mortalidade por câncer de mama em estado do nordeste brasileiro” investigou a mortalidade por câncer de mama no Maranhão ao longo de uma década (2014 a 2023), utilizando ferramentas de geoprocessamento para analisar os dados das 19 regiões de saúde maranhenses.

Pesquisadora Sarah Ribeiro

Entre os anos de 2014 e 2023, o levantamento aponta o registro de 2.504 óbitos de mulheres com 20 anos ou mais decorrentes da doença no Maranhão. Em termos proporcionais, a taxa média registrada foi de 10,7 óbitos por 100 mil mulheres no estado.

A análise detalhada do perfil sociodemográfico dessas mulheres revela características marcantes das vítimas da doença no período: maior concentração entre 50 e 59 anos, representando 24,8% dos casos; 58,9% das mulheres identificadas eram pardas; 31,9% possuíam de 8 a 11 anos de estudo; e 35% eram casadas.

O uso da análise espacial permitiu ir muito além da simples contagem de óbitos, demonstrando que a mortalidade não se distribui de maneira homogênea no território maranhense.   Grandes polos regionais como São Luís, Timon e Imperatriz concentram índices expressivos de mortalidade porque funcionam como centros de referência que concentram serviços especializados, profissionais e recursos tecnológicos, o que atrai fluxos de pacientes e impacta a dinâmica dos registros de óbitos. 

Por outro lado, o estudo evidencia as dificuldades enfrentadas por mulheres que vivem em áreas mais distantes dos centros de referência. Fatores como barreiras geográficas, custos e tempo de transporte, dificuldades de acesso a exames e gargalos na rede de assistência pesam fortemente na continuidade do cuidado oncológico.

Variações expressivas em municípios específicos como os aumentos apontados em Pedreiras (725%) e Zé Doca (404,87%) exigem cautela analítica e indicam a necessidade de qualificar os registros de notificação compulsória, combater eventuais subnotificações em períodos anteriores e monitorar o acesso ao diagnóstico.

“É importante destacar que o estudo encontrou distribuição espacial aleatória e não identificou associação estatisticamente significativa entre as taxas de mortalidade e o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) ou o Índice de Gini, que avalia o grau de desigualdade na distribuição de renda ou de riqueza em uma população. Isso não exclui, porém, a possibilidade de que desigualdades assistenciais, deslocamentos, atrasos no diagnóstico e limitações nos registros não estejam influenciando os resultados. As diferenças regionais podem estar relacionadas à organização desigual da rede de saúde, ao acesso aos serviços especializados e à qualidade dos registros”, pontua a pesquisadora.

Sarah Raquel Campelo Ribeiro reforça que a análise espacial contribui para identificar regiões que necessitam de maior atenção e pode subsidiar estratégias de descentralização, diagnóstico precoce e fortalecimento da rede de atenção oncológica, reforçando a importância de qualificar os registros, fortalecer a Atenção Primária e ampliar o acesso aos serviços oncológicos, garantindo diagnóstico e tratamento oportunos nas diferentes Regiões de Saúde.

“Nesse cenário, a Atenção Primária pode atuar de forma mais resolutiva por meio da busca ativa, da educação em saúde, da identificação de sinais e fatores de risco oncológicos e do encaminhamento oportuno para investigação. Além disso, os profissionais devem acompanhar as pacientes, fortalecendo a comunicação com os serviços especializados”, propõe Sarah Raquel Campelo Ribeiro.

Nanopartículas de ouro apresentam potencial para contribuir com futuras aplicações na área da biomedicina

A nanotecnologia tem se destacado em áreas como indústria, tecnologia e saúde, especialmente pelo uso de nanopartículas. A pesquisa, intitulada ‘Análise da atividade bactericida e toxicológica de nanopartículas de ouro estabilizadas em extratos vegetais’, investiga as nanopartículas de ouro (AuNPs), que apresentam características importantes, como estabilidade, compatibilidade com o organismo e facilidade de interação com outras substâncias. 

Pesquisadora Ana Beatriz Barros

Por isso, elas podem ser utilizadas em diferentes áreas da saúde, como na liberação de medicamentos, em exames para diagnóstico, na criação de sensores e no combate a microrganismos.

A produção tradicional dessas nanopartículas pode envolver substâncias tóxicas e causar impactos ao meio ambiente. Por esse motivo, a pesquisa utiliza a chamada síntese verde, uma alternativa mais sustentável que aproveita substâncias presentes nas plantas, como flavonoides, taninos, terpenos e compostos fenólicos, para ajudar na produção e na estabilização das nanopartículas. 

Para realizar o estudo, foram utilizados extratos de duas plantas: a Cocos nucifera, o coco, principalmente as fibras da parte interna da casca, e as folhas da Xylopia aromática, conhecida como pimenta-de-macaco. O objetivo foi avaliar a segurança das nanopartículas de ouro produzidas com esses extratos e verificar se elas podem causar alterações no material genético das células.

Pesquisa estuda a síntese verde como alternativa para estabilização das nanopartículas.

A pesquisa já conseguiu produzir as nanopartículas de ouro. Os resultados indicaram que elas apresentaram boa estabilidade e baixa toxicidade aguda no teste com Artemia salina. Os resultados obtidos até o momento abrem caminho para novas investigações sobre o uso dessas nanopartículas em aplicações biomédicas, inclusive em estudos relacionados ao câncer de mama.

A pesquisadora explica que os estudos continuam. “Estamos dando continuidade com avaliações na nanopartícula de prata, que também tem potencial no tratamento dessa doença”, informa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *