Semelhanças quase indistinguíveis entre duas espécies do gênero Carollia levou pesquisador maranhense a investigar se não se tratava de uma única espécie com traços moldados pelo ambiente
Fábio Henrique de Souza Cardoso

Doutorado em Ciência Animal pela Universidade Estadual do Maranhão. Mestrado em Ciência Animal pela Universidade Estadual do Maranhão, com período de complementação acadêmica na Universidad del Quindío, na Colômbia, onde também realizou estágio internacional. Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Maranhão.
VENCEDOR DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Tese de Doutorado
Área: Ciências Agrárias
Título da pesquisa: Abordagem integrativa na delimitação taxonômica de Carollia perspicillata em diferentes domínios fitogeográficos e o estado da arte do gênero
Orientadora: Profa. Dra. Maria Claudene Barros

Um problema taxonômico que há muito tempo chama a atenção dos pesquisadores é a dificuldade de distinguir espécies muito semelhantes morfologicamente. Um exemplo disso são duas espécies de morcegos frugíveros do gênero Carollia. Foi exatamente esse dilema biológico que motivou uma pesquisa maranhense a realizar uma abordagem taxonômica integrativa para investigar mais de perto suas semelhanças, diferenças e distribuição nos ecossistemas brasileiros.
Carollia perspicillata e Carollia brevicauda são as duas das espécies mais comuns deste gênero, mas a semelhança do comprimento do antebraço, formato das orelhas, e características do crânio faz com que distinguir quem é quem seja uma tarefa quase impossível na prática diária do trabalho de campo dos pesquisadores.
Por isso, Fábio Henrique de Souza Cardoso debruçou-se sobre este mistério durante a execução de sua pesquisa “Abordagem integrativa na delimitação taxonômica de Carollia perspicillata em diferentes domínios fitogeográficos e o estado da arte do gênero”. Com orientação da Profa. Dra Maria Claudene Barros, o trabalho buscava responder a uma pergunta central relativamente simples: trata-se, de fato, de duas espécies diferentes ou de uma única espécie com traços moldados pelo ambiente?
Essa pergunta direcionou toda a investigação e levou à construção de uma abordagem integrativa. “A abordagem integrativa foi fundamental, pois quando trabalhamos somente com morfologia, podemos encontrar variações que parecem indicar diferenças entre espécies, mas que podem estar relacionadas ao sexo, idade, ambiente ou simplesmente à variação natural dentro de uma mesma espécie. Por isso, nós combinamos diferentes linhas de evidência: morfologia externa, craniometria, morfometria geométrica e marcadores moleculares, utilizando diferentes ferramentas de delimitação de espécies”, explica Fábio Henrique de Souza Cardoso.
Confronto de evidências científicas
Essa estratégia permitiu que uma evidência fosse confrontada com a outra e tornou a conclusão muito mais robusta, porque não dependeu de uma única característica ou de um único marcador para interpretar a diversidade encontrada.
A pesquisa de Fábio Henrique, que ganhou o Prêmio FAPEMA 2026 na categoria Tese de Doutorado, analisou 247 espécimes provenientes de diferentes domínios fitogeográficos, como Caatinga, Cerrado e Amazônia para identificar de forma mais precisa aquilo que é variação dentro da espécie daquilo que poderia representar uma diferença entre espécies. Os domínios fitogeográficos (ou domínios morfoclimáticos e fitogeográficos) são grandes porções do espaço geográfico que reúnem características próprias de relevo, clima, hidrografia, solo e vegetação.

de morcegos para estudos
Confronto de evidências científicas
Essa estratégia permitiu que uma evidência fosse confrontada com a outra e tornou a conclusão muito mais robusta, porque não dependeu de uma única característica ou de um único marcador para interpretar a diversidade encontrada.
A pesquisa de Fábio Henrique, que ganhou o Prêmio FAPEMA 2026 na categoria Tese de Doutorado, analisou 247 espécimes provenientes de diferentes domínios fitogeográficos, como Caatinga, Cerrado e Amazônia para identificar de forma mais precisa aquilo que é variação dentro da espécie daquilo que poderia representar uma diferença entre espécies. Os domínios fitogeográficos (ou domínios morfoclimáticos e fitogeográficos) são grandes porções do espaço geográfico que reúnem características próprias de relevo, clima, hidrografia, solo e vegetação.

“Quando analisamos animais provenientes de ambientes diferentes, encontramos variações morfológicas que poderiam, inicialmente, sugerir uma estruturação geográfica. Entretanto, quando essas características são analisadas em conjunto com os dados moleculares, a interpretação se torna mais complexa. Outro ponto importante foi a baixa divergência genética entre determinados grupos. Isso nos mostrou que diferenças morfológicas, isoladamente, não poderiam ser utilizadas como evidência definitiva de espécies distintas”, aponta o pesquisador.
A revisão taxonômica das espécies
Os resultados indicaram que, nas áreas amostradas, C. perspicillata e C. brevicauda não se configuram como unidades taxonômicas distintas, mas sim uma única espécie (C. perspicillata) amplamente distribuída.
Neste sentido, a filogenia foi uma das ferramentas fundamentais para compreender essa questão, pois permitiu visualizar as relações entre os indivíduos e verificar se os exemplares atribuídos a C. brevicauda formavam uma linhagem molecular independente e consistente em relação a C. perspicillata.
“Quando associamos essa informação aos diferentes modelos de delimitação, a interpretação se tornou mais consistente. Utilizamos métodos como ABGD, ASAP, mPTP e GMYC, justamente porque cada abordagem trabalha com pressupostos diferentes. O ponto mais importante é que não tomamos a decisão com base em um único método. Nós buscamos congruência entre diferentes evidências”, destaca.
Perguntas que ainda precisam ser respondidas
Fábio Henrique de Souza Cardoso enfatiza que a análise cienciométrica – que mede, analisa e avalia a produção e o desenvolvimento da ciência e da pesquisa científica – mostrou que ainda existem lacunas importantes no conhecimento sobre os morcegos brasileiros relacionadas à distribuição das espécies, à história evolutiva, à ecologia, à dinâmica populacional e ao próprio conhecimento taxonômico. Essas lacunas, garante o pesquisador, representam, ao mesmo tempo, um desafio e uma oportunidade para a ciência brasileira.
“Por isso, cientificamente é importante deixar claro que o nosso trabalho sobre a C. perspicillata e a C. Brevicauda não encerra definitivamente todas as discussões quanto a se tratarem ou não de duas ou uma única espécie. A taxonomia é dinâmica, e novas amostragens, especialmente em áreas ainda pouco estudadas, poderão ampliar essa discussão. Foi justamente essa postura científica em reconhecer o que os dados demonstram e também os limites daquilo que podemos afirmar, que considero um dos pontos fortes do trabalho”, celebra.





