Com base em atendimentos em Imperatriz, estudo identificou características de vítimas e entraves na compreensão da violência sexual
Ana Beatriz Caires Ramos

Mestranda em Sociologia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Graduada em Licenciatura em Ciências Humanas/Sociologia pela UFMA. Técnica em Meio Ambiente pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA)
VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Jovem Cientista
Área de Conhecimento: Ciências Humanas
Título do projeto: Elaboração do mapa da violência contra mulher em Imperatriz/MA a partir dos dados da Delegacia da Casa da Mulher Maranhense
Orientadora: Maynara Costa de Oliveira Silva

Pesquisa realizada na Casa da Mulher Maranhense, em Imperatriz, revela que a maioria das vítimas que procuram a instituição são mulheres jovens, entre 18 e 34 anos, pardas e em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Os principais casos são violência sexual, agressões psicológicas e morais. Os agressores, em sua maioria, são pessoas próximas. Estes dados integram a pesquisa ‘Elaboração do mapa da violência contra mulher em Imperatriz-MA, a partir dos dados da Delegacia da Casa da Mulher Maranhense”, da mestranda em Sociologia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Ana Beatriz Caires Ramos.
Para execução do estudo, houve observação presencial da rotina de atendimento, diário de campo, entrevistas e análise documental de 75 fichas de atendimento, registradas no ano de 2023. Dentre as 10 profissionais entrevistadas, seis possuíam envolvimento direto no atendimento e acolhimento de mulheres em situação de violência sexual, no processo de escuta e encaminhamento. Os dados foram sistematizados em categorias como idade, ocupação, cor/raça e vínculo com o autor da violência.
De acordo com a pesquisadora, o resultado apontou a necessidade de mudanças estruturais nas dinâmicas institucionais e nas relações de poder que perpetuam desigualdades de gênero. “É preciso que as políticas públicas sejam integradas, territorializadas e comprometidas com a dignidade das mulheres”, ressaltou Ana Beatriz Ramos.
O percurso das vítimas, que transitam por múltiplas portas, órgãos e documentos, revelam uma dinâmica fragmentada, frequentemente tensionada entre o cuidado e a burocracia, entre a sensibilidade e os limites impostos pelos protocolos. Já os atos institucionais, como o acompanhamento prolongado de uma vítima ou o contato em situações de risco, revelaram a resistência das práticas de cuidado nos interstícios da norma e a potência do acolhimento ético como espaço de reconstrução subjetiva.

“Essa violência não é um evento isolado ou excepcional, mas fruto de desigualdades históricas e sociais que fazem parte de um sistema que frequentemente explora corpos femininos”, observa a pesquisadora.
Outra situação encontrada foi em relação às fichas incompletas preenchidas durante o atendimento. De acordo com conclusão dos estudos, isso é mais um dos problemas enfrentados, demonstrando que não é apenas uma falha burocrática, e sim a evidência de uma tensão entre os protocolos institucionais e a situação em que a vítima está vivenciando, revelando, em muitos casos, a ineficiência dos dados captados.

Ao observar o atendimento realizado pelas mulheres, foi constatado a necessidade de adequar suas narrativas a um modelo de queixa convencional, para que seja validada. “Assim, organizei a monografia a partir da compreensão que violência sexual não se restringe a um desvio ou episódio isolado, mas integra a lógica estrutural das relações de poder que sustentam a organização da vida social. Seu enfrentamento demanda mais do que dispositivos legais, e sim, exige escuta qualificada, reconhecimento das singularidades e transformação das práticas institucionais no cotidiano do atendimento”, afirmou.
O projeto, orientado pela professora doutora Maynara Costa de Oliveira Silva, foi contemplado pela FAPEMA com Bolsa de Iniciação Científica (BIC) e integra as cotas destinadas à UFMA; e conquistou o Prêmio FAPEMA 2026, na categoria Jovem Cientista.





