Pesquisa revela que apenas cerca de 10% da água doce estimada alcança o Complexo Estuarino de São Marcos durante eventos extremos de seca, como o fenômeno El Niño
Weyder de Menezes
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Graduado em Engenharia Civil e mestrado em Ciência e Tecnologia Ambiental com ênfase em Dinâmica de Sistemas Costeiros e Oceânicos na Universidade Federal do Maranhão. Bacharel em Ciência e Tecnologia.
Os efeitos do fenômeno El Niño no Maranhão vão muito além do calor intenso e da baixa umidade do ar percebidos pela população. Um impacto menos visível, mas de grande importância ambiental, está na redução da disponibilidade de água nos principais rios do estado, tornando os períodos de seca cada vez mais severos.
Uma pesquisa desenvolvida pelo professor Weyder Freire Santos de Menezes revelou que, durante eventos extremos de seca, apenas cerca de 10% da vazão de água doce estimada chega efetivamente ao Complexo Estuarino de São Marcos (CESM). O resultado amplia a compreensão sobre o comportamento hidrológico dos rios maranhenses e oferece informações importantes para a gestão dos recursos hídricos do estado.
O estudo fez parte da dissertação intitulada Regionalização de vazões ecológicas em eventos extremos de seca influenciados pelo ENSO (El Niño – Southern Oscillation) e seu comportamento face à dinâmica estuarina: Maranhão – Brasil. A pesquisa, que foi apoiada pela FAPEMA, investigou a influência do fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENSO) nas vazões mínimas durante períodos de seca extrema e analisou diferentes cenários da quantidade de água doce que chega ao Complexo Estuarino de São Marcos.
Os resultados da pesquisa extrapolam o ambiente acadêmico e fornecem uma base técnica importante para o planejamento da gestão dos recursos hídricos no Maranhão.

As informações produzidas podem subsidiar políticas públicas relacionadas ao licenciamento ambiental, à concessão de outorgas para uso da água, ao planejamento da agricultura irrigada, à navegação, à expansão portuária e às estratégias de adaptação às mudanças climáticas.
Ao estabelecer novos parâmetros para as vazões ecológicas e ampliar o conhecimento sobre a influência do El Niño e das marés na dinâmica dos rios maranhenses, o estudo oferece instrumentos que poderão contribuir para a conservação dos recursos hídricos e para o desenvolvimento sustentável do estado.
Os cálculos indicavam que a contribuição esperada dos rios Mearim, Grajaú e Pindaré seria de aproximadamente 651,85 metros cúbicos por segundo (m³/s). Entretanto, as medições diretas realizadas no estuário registraram apenas 70,44 m³/s de água doce, o equivalente a aproximadamente 10,8% do volume esperado.

O resultado evidencia que a influência das marés e da mistura entre água doce e água salgada é muito maior do que se imaginava. Além disso, os dados indicam que as retiradas de água ao longo do percurso dos rios também podem estar contribuindo para essa diferença.
Weyder de Menezes ressalta que o estuário é um ambiente complexo e que essa mistura e o balanceamento/proporção dessas águas é responsável por gerir o ecossistema desse ambiente. “O El Niño altera o regime de precipitação no Nordeste que por sua vez diminui o movimento de água pros corpos hídricos e diminui a vazão dos rios. Como resultado acontece uma diminuição da contribuição de água doce no ambiente estuarino, desencadeando um desequilíbrio no ecossistema”, explicou o pesquisador.
Popularmente conhecido como Baía de São Marcos, o Complexo Estuarino de São Marcos possui aproximadamente 100 quilômetros de extensão, que forma um ambiente de elevada importância ecológica.


Como a pesquisa foi realizada
Os dados utilizados na pesquisa foram obtidos a partir das estações hidrométricas da Agência Nacional de Águas (ANA) e complementados por medições realizadas diretamente na Baía de São Marcos.
Além das medições de campo, o pesquisador desenvolveu e ajustou modelos matemáticos, conhecidos como curvas-chave e curvas de permanência, capazes de estimar a vazão dos rios com maior precisão a partir da variação do nível da água.
Essas ferramentas contribuem para o monitoramento contínuo das bacias hidrográficas e podem auxiliar órgãos gestores e pesquisadores em estudos futuros sobre disponibilidade hídrica e gestão dos recursos naturais.
Secas mais intensas
Como parte do trabalho, foram calculados novos limites mínimos de água que precisam permanecer em seis importantes bacias hidrográficas do Maranhão: Mearim, Itapecuru, Grajaú, Pindaré, Gurupi e Parnaíba. Esses limites correspondem às chamadas vazões ecológicas, ou seja, à quantidade mínima de água necessária para garantir a sobrevivência dos ecossistemas aquáticos e a manutenção dos serviços ambientais prestados pelos rios.
“Qualitativamente as vazões ecológicas variam em função das dimensões do rio, do bioma, da inclinação, do clima, etc. Quantitativamente existem diversas métricas para avaliar a vazão ecológica. A mais utilizada hoje é a Q7,10; e na pesquisa existe uma tabela onde eu calculei essas vazões para os principais rios”, explicou Weyder de Menezes.
Durante períodos de seca extrema no Nordeste, conhecer a vazão ecológica dos rios torna-se essencial para preservar os ecossistemas aquáticos e orientar o uso sustentável da água.
No Maranhão, essa informação possui importância estratégica. O rio Mearim, por exemplo, desempenha diferentes funções econômicas e sociais: sustenta atividades pesqueiras, integra a Hidrovia do Mearim, fornece água para a rizicultura e a carcinicultura e deságua na Baía de São Marcos, onde está localizada uma das principais estruturas portuárias do país, com destaque para o Porto do Itaqui.
Por isso, a definição de parâmetros que considerem a capacidade de suporte das vazões ao longo de toda a extensão dos rios torna-se fundamental para conciliar desenvolvimento econômico e conservação ambiental.
Segundo a pesquisa, essa redução na disponibilidade hídrica ocorre quando o Índice Oceânico Niño (ONI), utilizado para medir as anomalias de temperatura da superfície do Oceano Pacífico Equatorial Central, influencia diretamente o comportamento hidrológico dos rios maranhenses, tornando os períodos de seca ainda mais severos.
Outro resultado importante foi a constatação de que as marés alteram profundamente o comportamento dos rios na Baía de São Marcos. Ao alcançar o estuário, a água sofre alterações na velocidade do fluxo, na salinidade, na disponibilidade de água doce e em toda a hidrodinâmica da região.
Maranhão: um estado de grande potencial hídrico
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Maranhão possui uma extensão territorial de 329.651,495 quilômetros quadrados, sendo o oitavo maior estado do Brasil e o segundo maior da Região Nordeste.
Cerca de 90% do território maranhense integra a Região Hidrográfica Atlântico Nordeste Ocidental, uma das doze regiões hidrográficas brasileiras. Essa região é formada por importantes bacias, entre elas Gurupi, Pericumã, Itapecuru, Mearim, Munim e Turiaçu, além do litoral maranhense.
Essa ampla rede hidrográfica reforça a importância de pesquisas capazes de compreender o comportamento dos rios maranhenses diante dos eventos climáticos extremos e de fornecer subsídios científicos para garantir a segurança hídrica e o uso sustentável da água no estado.





