Revista Inovação FAPEMA

CIÊNCIA QUE TRANSFORMA: DADOS EPIDEMIOLÓGICOS REVELAM O CENÁRIO E OS DESAFIOS DO COMBATE À SÍFILIS EM COROATÁ

Acadêmica de Enfermagem da UEMA analisa uma década de notificações da doença e aponta caminhos para fortalecer o pré-natal, o tratamento de parceiros e a qualidade dos dados

Hosana Amorim

Acadêmica de Enfermagem da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Campus Coroatá. Integra o Núcleo de Estudos de Agentes Infecciosos e Saúde Pública (NEAISP).



A ciência produzida dentro das universidades maranhenses cruza os muros acadêmicos e impacta diretamente a realidade dos municípios do estado. Um exemplo claro desse potencial é a pesquisa desenvolvida por Hosana Amorim, acadêmica do curso de Enfermagem da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e bolsista de Iniciação Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA).

Por meio do projeto de pesquisa “Análise temporal dos casos notificados de sífilis em um município da macrorregião leste do estado do Maranhão”, realizado sob a orientação da Prof.ª Dra. Herica Emilia Félix de Carvalho, Hosana Amorim mapeou as notificações da doença para fornecer subsídios que pudessem aprimorar as ações de prevenção, diagnóstico e tratamento no município do Leste Maranhense.

Sob a perspectiva da epidemiologia, o estudo analisou o comportamento da sífilis no município de Coroatá ao longo de uma década. Longe das salas de atendimento clínico e da assistência direta ao paciente, a pesquisadora encontrou nos bancos de dados dos serviços de saúde uma forma poderosa de contar a história da assistência materno-infantil na região.

Ao consolidar e avaliar o banco de dados de dez anos, a pesquisa identificou um cenário robusto: foram 267 casos de sífilis adquirida, 140 casos em gestantes e 50 casos de sífilis congênita (quando a infecção é transmitida da mãe para o bebê).

Com os números compilados, a pesquisadora faz um alerta. “Esses números mostram que a sífilis continua sendo um importante problema de saúde pública e reforçam a importância da vigilância epidemiológica e da qualidade das notificações”, pontua Hosana Amorim.

Análise dos indicadores

A partir destes dados a acadêmica pode avaliar indicadores importantes, como a cobertura da testagem para sífilis, a realização do pré-natal e o tratamento das gestantes. A importância da pesquisa está no fato de, mesmo sem estar no atendimento, esses dados contam uma história sobre como a assistência vem acontecendo ao longo dos anos.

“Meu estudo analisa em que momento da gestação o diagnóstico da sífilis foi realizado. Até agora, percebemos uma distribuição relativamente equilibrada entre o primeiro, o segundo e o terceiro trimestre. Isso reforça uma mensagem muito importante: quanto mais cedo a gestante inicia o pré-natal, maiores são as chances de identificar a infecção rapidamente e iniciar o tratamento, protegendo também o bebê”, destaca Hosana Amorim.

A pesquisadora ressalta ainda que acompanhar indicadores relacionados à testagem permite identificar onde existem oportunidades de melhoria. “Quando analisamos esses dados ao longo do tempo, conseguimos enxergar tendências e fornecer informações que podem ajudar os gestores a fortalecer o diagnóstico precoce”, complementa.

Pesquisadora Hosana Amorim no trailer do Centro de Testagem e Aconselhamento de Coroatá para coleta de dados

Mas a pesquisa também aponta dados positivos como o fato de que a maioria das gestantes notificadas recebeu tratamento adequado. Ao mesmo tempo, ainda existem casos que mostram que há espaço para melhorar e garantir que todas as mulheres tenham acesso ao diagnóstico e ao tratamento no momento certo”, assinala.

Gargalo na erradicação da transmissão

No entanto, o estudo também jogou luz sobre um dos maiores gargalos para a erradicação da transmissão vertical da doença: a ausência do parceiro sexual no tratamento. Muitos parceiros não realizaram o tratamento e, em diversos registros, essa informação sequer constava nas fichas de notificação.

“Esse foi um dos resultados que mais me chamou atenção durante a análise dos dados. Observamos que muitos parceiros não realizaram o tratamento e, em diversos registros, essa informação sequer foi preenchida. Isso mostra que ainda existe um desafio importante, tanto para envolver os parceiros no cuidado quanto para melhorar a qualidade das notificações. Como a sífilis é uma infecção sexualmente transmissível, tratar apenas a gestante não é suficiente para interromper a cadeia de transmissão”, informa Hosana Amorim.

Por isso, a pesquisadora também chama atenção para a importância da qualidade das informações registradas, pois durante a organização do banco de dados ela encontrou várias fichas com informações incompletas ou marcadas como ‘ignoradas’. “À primeira vista isso pode parecer apenas um detalhe, mas, para quem trabalha com epidemiologia, faz muita diferença. Dados completos permitem compreender melhor a realidade e ajudam a direcionar políticas públicas mais eficientes”, informa.

A pesquisadora conclui, portanto, que o enfrentamento à sífilis vai muito além do insumo médico ou do teste rápido em si. Ela aponta que é preciso fortalecer o pré-natal, garantir que o tratamento aconteça no momento certo, envolver também os parceiros e investir na qualidade das informações registradas pelos serviços de saúde.

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