O estudo analisa normas institucionais na regulação de expressões de gênero e sexualidade e produz cartilha com foco na formação de educadores
Jhonatan Wendell Ferreira

Doutorando em Educação pela Universidade de Pernambuco (UPE). Mestre em Educação: Gestão de Ensino da Educação Básica pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Cruzeiro do Sul, e em Pedagogia pelo Centro Universitário FAVENI.
Vencedor do Prêmio FAPEMA 2026
Categoria: Dissertação de Mestrado
Área: Ciências Humanas e Sociais
Título da pesquisa: Corpos (In)dóceis: diversidade sexual e de gênero em uma escola cívico-militar no Maranhão
Orientadora: Kelly Almeida de Oliveira
O corpo não é apenas uma dimensão biológica, mas sobretudo uma construção social e histórica, atravessada por normas culturais, discursos e relações de poder. É o que reflete a pesquisa de mestrado ‘Corpos (In)dóceis: diversidade sexual e de gênero em uma escola cívico-militar no Maranhão’, realizada pelo mestre em Educação, Jhonatan Wendell Tavares Ferreira. A proposta é compreender como esses discursos atravessam os corpos e as identidades no cotidiano escolar, a partir de uma investigação sobre diversidade sexual e de gênero.
Ancorado nos Estudos de Gênero e na Teoria Queer, especialmente nas contribuições da filósofa Judith Butler, o trabalho compreende o gênero como resultado de processos performativos submetidos a normas sociais. O estudo leva a refletir de que maneira discursos institucionais, presentes no ambiente escolar cívico-militar impactam em expressões de diversidade sexual e de gênero. Também associa como estas falas produzem formas de governamento dos chamados ‘corpos dissidentes’.
A pesquisa não se limitou ao diagnóstico. Como resultado do Mestrado Profissional, foi desenvolvido o produto educacional ‘BIZU: Desbravando as Diversidades Sexuais e de Gênero’. Trata-se de cartilha destinada a professores, policiais e bombeiros militares, que atuam em escolas da rede militar. O material traz conceitos sobre diversidade sexual e de gênero, em linguagem direta, e incorpora elementos do cotidiano militar, como o Código Q, conjunto de códigos tradicionalmente utilizados na comunicação das forças militares. “A proposta foi construir um material que dialogasse com a realidade dos profissionais que estão nesses espaços”, afirma Jhonatan Ferreira.
O protótipo da cartilha foi apresentado à própria escola pesquisada, permitindo que docentes contribuíssem com sugestões, antes da elaboração da versão definitiva. As contribuições foram incorporadas ao material, posteriormente disponibilizado em formato digital aos docentes e à equipe gestora. Dessa forma, o estudo transformou parte dos resultados da investigação em uma ferramenta de formação, aproximando produção acadêmica e cotidiano escolar.
Pesquisa – Segundo levantamentos do pesquisador, em instituições marcadas por disciplina, hierarquia e mecanismos de controle, tensões são produzidas quando identidades e expressões que escapam à norma heterocisnormativa entram em contato com padrões institucionais de comportamento. Nesse cenário, ele avalia que a escola aparece como um espaço no qual diferentes formas de expressão podem ser negociadas, reguladas, silenciadas ou invisibilizadas.
A investigação situa esse debate no processo de militarização da educação básica, intensificado com a criação do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (PECIM), em 2019. Segundo a pesquisa, esta política incorporou às escolas uma lógica
associada à disciplina, hierarquia e controle, apoiada em discursos de valorização da autoridade, restauração da ordem e melhoria dos índices educacionais. “A partir dessa perspectiva, questiona-se como estruturas organizacionais fortemente disciplinadoras lidam com a pluralidade de identidades e experiências relacionadas a gênero e sexualidade”, explica Jhonatan Ferreira.

O estudo, que contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Gestão de Ensino da Educação Básica (PPGEEB) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), sob orientação da doutora em Educação, Kelly Almeida de Oliveira. A pesquisa ganhou destaque no Prêmio FAPEMA 2026, sendo vencedora na categoria Ciências Humanas e Sociais. A proposta dialoga ainda com os eixos do Plano Estratégico de Longo Prazo Maranhão 2050 relacionados à educação, identidade, cultura e à construção de uma sociedade saudável, segura e justa.
Processo produtivo
Para compreender essas dinâmicas, Jhonatan Ferreira adotou uma abordagem qualitativa, voltada às percepções e experiências dos participantes em seus contextos profissionais e socioculturais. Seis docentes de uma escola cívico-militar maranhense participaram voluntariamente da pesquisa. Todos se autodeclararam cisgêneros: três mulheres heterossexuais e três homens, dos quais dois eram heterossexuais e um homossexual, com idades entre 35 e 64 anos. Entrevistas e observações dos participantes forneceram o material posteriormente submetido à Análise Textual Discursiva, metodologia que envolveu processos de unitarização, categorização e construção de metatextos.

Os estudos resultaram em sete categorias de análise: corpo, sexualidade, gênero, internalização dos discursos opressivos, controle do corpo, interseccionalidade, domínio do corpo negro e controle dos conteúdos. As narrativas dos docentes revelaram diferentes maneiras de compreender corpo, gênero e sexualidade, incluindo perspectivas espirituais, biológicas, éticas e individuais. A pesquisa também identificou situações em que gênero e sexualidade eram compreendidos como ‘opções’ ou ‘escolhas’, além de confusões entre conceitos como gênero, sexualidade e expressão de gênero. Para o pesquisador, os resultados mostram a importância de ampliar a formação docente sobre essas temáticas.
“A escola precisa ser compreendida como espaço de escuta e aprendizagem, no qual a diferença não seja automaticamente associada à desordem. Reconhecer a diversidade é também criar condições para que diferentes sujeitos possam aprender, ensinar e expressar suas identidades com dignidade”, conclui o pesquisador.





