Pesquisadores da UEMA utilizam monitoramento acústico para avaliar a resiliência de espécies de aves endêmicas e ameaçadas na Reserva Biológica do Gurupi

Flávio Kulaif Ubaid

Graduado em Ciências Biológicas e mestrado e doutorado em Zoologia pela UNESP de Botucatu. É Professor Adjunto da Universidade Estadual do Maranhão, campus Caxias, e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade, Ambiente e Saúde (PPGBAS). Coordena o Laboratório de Ornitologia.
O Planeta Terra enfrenta o que cientistas chamam de Sexta Extinção em Massa ou Extinção do Antropoceno. Diferente dos eventos passados, este é causado por ações humanas, como o desmatamento, as mudanças climáticas e o esgotamento de recursos naturais. Estima-se que o ritmo atual de desaparecimento de espécies seja até mil vezes maior do que o natural.
Nesse cenário crítico, o pesquisador Prof. Dr. Flávio Kulaif Ubaid, da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), campus Caxias, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), tem desenvolvido o projeto intitulado “Diversidade acústica da avifauna na reserva biológica do Gurupi, com foco nos táxons endêmicos e ameaçados de extinção”. A pesquisa utiliza “ouvidos eletrônicos” para entender como a vida resiste e se recupera em uma das regiões mais pressionadas da Amazônia: o Centro de Endemismo Belém (CEB).
O Coração da Pesquisa: A Reserva Biológica do Gurupi
O Centro de Endemismo Belém, que abrange partes do Pará e do Maranhão, é considerada a área mais descaracterizada de toda a Amazônia brasileira. Nos últimos 50 anos, perdeu mais de 30% de sua cobertura original para a pecuária e a agricultura.
Atualmente, os maiores refúgios de mata preservada estão no Maranhão, com destaque para a Reserva Biológica (REBIO) do Gurupi, que abrange os municípios de Centro Novo do Maranhão, Bom Jardim e São João do Caru.
Esta unidade de conservação é um verdadeiro mosaico: abriga desde áreas de floresta virgem até zonas atingidas por incêndios e extração ilegal de madeira. Por ser o lar de espécies que não existem em nenhum outro lugar do planeta, a reserva tornou-se o laboratório ideal para medir a resiliência da biodiversidade.

Tecnologia: O monitoramento acústico passivo
Tradicionalmente, para estudar aves, pesquisadores precisam ir ao campo e contabilizar o que veem e ouvem. No entanto, o projeto liderado pelo Laboratório de Ornitologia da UEMA, campus Caxias, utiliza uma tecnologia mais eficiente: o Monitoramento Acústico Passivo. Através de gravadores automáticos do modelo AudioMoths, a equipe de pesquisadores consegue registrar os sons da floresta 24 horas por dia, durante meses. As vantagens são claras:
- Baixo custo: não exige a presença constante dos pesquisadores.
- Detecção precisa: captura sons de aves “tímidas” ou de difícil visualização.
- Análise de dados: softwares avançados e algoritmos conseguem processar milhares de horas de áudio rapidamente.
Para o Prof. Dr. Flávio Ubaid, o uso dessa tecnologia carrega um propósito que vai além da coleta de dados. “Em um mundo cada vez mais silencioso devido à perda de biodiversidade, este projeto propõe algo poderoso: escutar a floresta antes que suas vozes desapareçam”, ressalta o pesquisador, enfatizando a urgência de registrar e compreender esses ecossistemas em tempo real.
Espécies em foco
O Centro de Endemismo Belém possui 545 espécies de aves. Destas, 18 são exclusivas da região, mas muitas correm sério risco de extinção, como o mutum-pinima (Crax fasciolata pinima) e o jacami-das-costas-escuras (Psophia obscura). Somado a isso, estão ameaçadas de extinção espécies como o jacu-estalo (Neomorphus geoffroyi), o gavião-real (Harpia harpyja) e o cabeça-de-prata (Lepidothrix iris).
O objetivo principal da tecnologia utilizada no projeto é comparar a atividade sonora dessas aves em três ambientes diferentes na Reserva do Gurupi: florestas preservadas, áreas de pastagem em regeneração e áreas queimadas em recuperação.
Impacto e Futuro
Além de gerar dados inéditos sobre como as aves recolonizam áreas degradadas, o projeto fortalece a ciência maranhense, sendo fruto de investimentos realizados por meio dos editais Universal FAPEMA 2022 e da Chamada PELD 2020 (parceria entre CNPq e FAPEMA), que garantem a continuidade dos estudos de longa duração na Amazônia. A pesquisa ainda serve como base para o treinamento de estudantes de graduação e pós-graduação, preparando novos especialistas em conservação da biodiversidade. Os resultados ajudarão a criar estratégias de proteção mais eficazes, garantindo que o canto dessas aves únicas continue a ser ouvido na floresta por muitas gerações.
O pesquisador Flávio Kulaif destacou o papel da Fundação. “Fundamental para tornar tudo isso possível é o apoio da FAPEMA, que investe no fortalecimento da ciência regional e na geração de conhecimento estratégico para o estado. Ao financiar projetos como este, a FAPEMA não apenas impulsiona a pesquisa científica, mas também contribui diretamente para a conservação de um dos patrimônios naturais mais valiosos do Brasil”, enfatizou o professor.






