O estudo analisa potenciais efeitos de problemas no coração, pulmão e bucais induzidos por substância contida no chamados vapes
Daniela Bassi Diba
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Fisioterapeuta, possui pós-doutorado, doutorado e mestrado em Fisioterapia pela Universidade Federal de São Carlos e pela University of Illinois at Chicago (doutorado sanduíche). É graduada em Fisioterapia pelo Centro Universitário Central Paulista com várias especializações na área.
O uso de cigarro eletrônico – popularmente chamado de vape – é proibido no Brasil desde 2009 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), incluindo sua venda, importação e publicidade. Apesar disso, há uma crescente popularização deste cigarros, especialmente entre jovens. Esse cenário motivou a criação do projeto Vape Zero Maranhão, coordenado pela fisioterapeuta Daniela Bassi Diba. A iniciativa inédita no país integra o Plano Maranhão 2050, do Governo do Estado, e propõe investigar efeitos combinados do uso destes cigarros sobre o sistema cardiovascular, respiratório e na saúde bucal.
O estudo será concluído em dezembro de 2027 e está na fase de coletas da rigidez arterial, da função pulmonar, força muscular respiratória.
A proposta surge diante da lacuna científica existente, aponta Daniela Bassi. Estes dispositivos eletrônicos de entrega de nicotina foram introduzidos no mercado como alternativa ao cigarro tradicional e com a proposta de cessar o tabagismo. No entanto, seu uso tem crescido rapidamente, impulsionado por estratégias de marketing que frequentemente minimizam riscos à saúde. “Apesar do aumento no uso, há poucos estudos que avaliem os impactos dos cigarros eletrônicos, de forma integrada. Nosso objetivo é compreender esses efeitos e transformar o conhecimento em ações de prevenção”, ressalta.
Apesar de não envolver combustão, o vape não é seguro, pois produz um aerossol tóxico que contém nicotina, substâncias cancerígenas e aromatizantes, podendo causar dependência, doenças pulmonares graves e riscos cardiovasculares. Entre os principais riscos, destaca-se o alto potencial de vício, sendo que muitos dispositivos possuem grande concentração de nicotina, frequentemente na forma de sais, o que aumenta sua capacidade de causar dependência.

Além disso, o uso está associado à Lesão Pulmonar Associada ao Uso de Cigarro Eletrônico/Vaping (EVALI), problemas cardiovasculares e doenças bucais. Outro ponto importante é o mito de que se trata apenas de ‘vapor de água’, quando, na verdade, o que é inalado é um aerossol composto por nicotina, propilenoglicol, glicerina e até metais pesados. Mesmo com a proibição da Anvisa devido aos riscos à saúde pública, o consumo de vapes tem aumentado no país.
O público de análise são pessoas entre 18 e 29 anos, usuários de cigarros eletrônicos, com uma amostra estimada de 120 participantes. Serão avaliados indicadores como composição corporal, exames laboratoriais, variabilidade da frequência cardíaca, rigidez arterial e função pulmonar. Além da produção científica, a iniciativa prevê desenvolvimento de ferramentas inovadoras, como aplicativos interativos, realidade virtual e ações educativas em escolas e universidades.

Riscos cardiovasculares
Evidências científicas recentes apontam que o uso de vapes pode estar associado a arritmias cardíacas, dor no peito e aumento do risco de doença coronariana. Além disso, alterações na variabilidade da frequência cardíaca indicam desequilíbrio no sistema nervoso autônomo, o que pode favorecer eventos cardiovasculares. Outro ponto de atenção é a rigidez arterial e a disfunção endotelial, consideradas marcadores iniciais de doenças cardiovasculares. Embora alguns estudos sugiram menor impacto em comparação ao cigarro convencional, há indícios de aumento do estresse oxidativo e inflamação vascular.
Sistema respiratório e saúde bucal
O sistema respiratório é outro alvo relevante. Casos de lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos, conhecidos como EVALI, já foram registrados, com sintomas como tosse, inflamação pulmonar e redução da função respiratória. Na saúde bucal, os efeitos também começam a ser observados. O contato do aerossol com a mucosa oral pode causar xerostomia, inflamação gengival, erosão dentária e aumento do biofilme bacteriano, fatores que contribuem para doenças periodontais.

Avanço do uso
Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) revelam que 5,6% da população brasileira com 14 anos ou mais utiliza cigarros eletrônicos, sendo 1,9% combinado com o cigarro convencional.

O estudo aponta que 76,3% dos adolescentes que experimentaram esses dispositivos passaram a consumi-los regularmente e que, cerca de 78% dos usuários não reduziram o consumo de cigarros convencionais. Ainda segundo o relatório, 94,7% dos brasileiros reconhecem os malefícios destes dispositivos, embora perceba o fácil acesso, mesmo com a proibição. Esta é a pesquisa mais recente do órgão, realizada em 2023 e divulgada ano passado. Foram ouvidos 16.608 brasileiros de 14 anos ou mais, em 349 municípios de todas as regiões do país.
76,3% – Adolescentes começaram a usar o vape após o primeiro contato.
Ação macro
O Plano Maranhão 2050 é uma estratégia de longo prazo do estado, com foco na redução da pobreza, aumento do IDH nos 217 municípios e crescimento do PIB estadual. O plano promove o desenvolvimento sustentável e a infraestrutura, com ações integradas de saúde, educação e meio ambiente.
O que são DEFs?
DEF – significa Dispositivo Eletrônico para Fumar.
São aparelhos que funcionam com bateria ou eletricidade e produzem uma emissão (vapor ou aerossol) que imita o ato de fumar. Eles podem usar líquidos com ou sem nicotina; outros operam com cápsulas, sais de nicotina, refis aromatizados ou folhas de tabaco aquecida.
Cigarros eletrônicos, vapes, pods e vaporizadores são tipos de DEFs — mudam apenas no nome ou formato. Em outras palavras, todos esses nomes se referem a aparelhos parecidos, que funcionam de formas diferentes, mas têm o mesmo objetivo: simular o cigarro comum.
Fonte: www.ma.gov.br/anvisa





