Revista Inovação FAPEMA

ENSINO SUPERIOR EM TRANSFORMAÇÃO: DA TRANSMISSÃO À MEDIAÇÃO

Trabalho de pesquisa acompanhou os desdobramentos de uma formação estratégica que reuniu 109 professores universitários para a implementação das metodologias ativas de ensino

João Batista Bottentuit Junior

Doutor em Ciências da Educação com área de especialização em Tecnologia Educativa pela Universidade do Minho, Mestre em Educação Multimídia pela Universidade do Porto, Tecnólogo em Processamento de Dados pelo Centro Universitário UNA e Licenciado em Pedagogia pela Faculdade do Maranhão e mais 11 especializações lato sensu. 



A imagem do professor posicionado à frente de uma plateia passiva, em longas jornadas de aulas expositivas está ganhando novos contornos no ensino superior maranhense. O avanço no ensino tem a contribuição da pesquisa “Estratégias didáticas: avaliando os impactos da formação de professores em metodologias ativas para atuação no ensino superior no Maranhão”, elaborada pelo pesquisador João Batista Bottentuit Junior.

Em seu trabalho, que integra o Plano Maranhão 2050, João Batista Bottentuit Junior acompanhou os desdobramentos de uma formação estratégica que reuniu 109 professores universitários em torno de um objetivo comum: a implementação das metodologias ativas.

Ao integrar fundamentos acadêmicos a oficinas práticas, a formação promoveu uma “reengenharia” pedagógica, focada em uma docência centrada no estudante. Para os participantes, o equilíbrio entre a base teórica e a aplicação prática foi o diferencial que permitiu a apropriação de técnicas que, até então, pareciam distantes do cotidiano acadêmico.

“A formação revelou-se um espaço fecundo para o aprimoramento dos conhecimentos dos participantes acerca das metodologias ativas de aprendizagem, ampliando sua compreensão sobre os fundamentos teóricos, as possibilidades práticas e os impactos pedagógicos dessas abordagens no contexto educacional contemporâneo”, aponta João Batista Bottentuit Junior nas considerações finais do seu projeto de pesquisa.

O cerne da mudança: aprender fazendo

A essência do Active Learning permeou os debates. O conceito é claro: envolver o aluno em atividades cognitivas que exijam reflexão, discussão e aplicação, rompendo com a recepção passiva de conteúdo.

O Active Learning (Aprendizagem Ativa) ou Metodologias Ativas são estratégias pedagógicas que colocam o aluno como protagonista central do seu próprio processo de aprendizado, conforme define José Moran, um dos principais especialistas em inovação educacional no Brasil, e cujo trabalho foi uma das referências de João Batista Bottentuit Junior.

Pesquisador avalia que já houve redução na ênfase em aulas expositivas

Entre os módulos de maior impacto nos resultados da pesquisa, destacaram-se: a Sala de Aula Invertida (Flipped Classroom), onde o tempo presencial é otimizado para interação, após o estudo prévio de materiais multimídia; a Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL), que aproxima a teoria da realidade através de problemas autênticos; e a Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) e Estudos de Caso, que fomentam o trabalho colaborativo e a produção de soluções concretas.

“Ao longo do processo, observou-se um avanço significativo na capacidade dos cursistas de planejar, aplicar e refletir criticamente sobre estratégias centradas no estudante, como a sala de aula invertida, a aprendizagem baseada em projetos, a gamificação e o estudo de casos”, explica Bottentuit em seu trabalho.

Resultados visíveis na prática

A mudança de postura dos docentes já ecoa nos corredores das instituições, indicando uma redução drástica na ênfase em aulas expositivas, dando lugar a atividades investigativas e cooperativas.

A avaliação também passou por uma metamorfose. Sai o modelo punitivo e entra a avaliação formativa contínua, com o uso de rubricas e avaliação por pares, uma prática que Eric Mazur (Peer Instruction) defende como essencial para o desenvolvimento do pensamento conceitual.

O ganho de aprendizagem é mais nítido em competências de ordem superior, como análise e síntese.

“Além disso, a formação contribuiu de modo expressivo para a apropriação de diferentes modelos e tecnologias educacionais voltadas à implementação dessas metodologias, favorecendo uma visão mais integrada entre didática, inovação e tecnologia digital”, conclui o pesquisador.

Desafios e o caminho da inovação

Apesar do entusiasmo, o caminho para a inovação ainda tem obstáculos. Os professores apontaram o tempo extra de preparação, a resistência inicial de alguns alunos habituados ao modelo tradicional e a necessidade de infraestrutura tecnológica e física (salas flexíveis e conectividade) como os principais desafios.

Para mitigar essas barreiras, a formação ofereceu roteiros práticos e estratégias de mediação. Essa transição do “saber-transmitir” para o “facilitar a aprendizagem” dialoga diretamente com a educação dialógica de Paulo Freire, onde o professor atua como mediador para a consciência crítica, e com o pragmatismo de John Dewey, focado na experiência. Os dois autores também são fortes referências no trabalho de João Batista Bottentuit Junior.

Mas, ao final, a recomendação massiva dos participantes reforça que a inovação pedagógica não é apenas uma tendência, mas uma necessidade urgente para formar profissionais capazes de atuar com autonomia e criticidade em um mundo em constante transformação.

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