Inteligência Artificial mapeia o futuro energético no Porto do Itaqui e mostra o alinhamento intelectual maranhense com soluções de nível global
Silvangela Barcelos

Graduada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Maranhão), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – COPPE/UFRJ) e doutorado também pela COPPE/UFRJ.

Nas correntes do estuário maranhense, o Porto do Itaqui não esconde apenas gigantes de aço e commodities. Nele, está sendo realizada uma pesquisa do uso de uma tecnologia que pode ser a resposta para um dos dilemas mais persistentes do desenvolvimento nacional: como gerar energia limpa sem o uso de grandes barragens. Diferente de projetos que buscam criar máquinas do zero, o esforço atual foca na validação em campo da turbina Iarama (Iara Maranhão).
Trata-se de uma tecnologia com DNA nacional, gestada dentro do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT/INEOLF). O que ocorre agora no Itaqui é o ápice de uma jornada de maturidade técnica que começou nos laboratórios de mecânica em Itajubá (MG), passou por tanques de dinâmica de sistemas e enfrentou as águas do Lago de Furnas para testes hidrodinâmicos.
O projeto “Geração hidrocinética: instalação e teste de uma turbina hidrocinética para geração de energia elétrica em ambiente portuário” é resultado de uma parceria entre a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a Empresa de Administração Portuária do Maranhão (EMAP), e a Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA).
O desafio no Maranhão, portanto, é a transição da hidrodinâmica para a elétrica. O foco da equipe liderada pelos doutores Silvangela Barcelos e Shigeaki Leite é a implementação do gerador e do conversor — o “coração” que transforma o giro das pás em eletricidade disponível. “Então agora o que a gente está trabalhando é o quê? Colocar o gerador e testar em campo, gerando energia, que seria na área ali da EMAP”, explica Shigeaki Leite.



A Anatomia do Movimento
Diferente das hidrelétricas convencionais que exigem a asfixia de rios por meio de barramentos, a turbina hidrocinética opera sob uma lógica de convivência, não de interrupção. O princípio é a termodinâmica aplicada à fluidez: a turbina aproveita a energia cinética — o movimento natural das massas de água — para girar pás submersas.
O movimento das pás aciona um gerador interno, convertendo a força das marés em eletricidade. No Itaqui, essa peça de engenharia não seria um objeto estático, mas um organismo monitorado por Inteligência Artificial. A plataforma de IA desenvolvida pelo projeto não apenas “observa”, mas analisa padrões hídricos e elétricos em tempo real, antecipando perdas de fluxo e garantindo o máximo de aproveitamento da corrente marítima.
Contexto Geopolítico
Países desenvolvidos não exportam apenas o hardware (a turbina), mas o software de gestão. Se o Maranhão desenvolvesse sua própria IA para mensurar ganhos de créditos de carbono e identificar perdas de fluxo, ele deixaria de ser um “comprador de caixas pretas” para ser também exportador de inteligência, o que garante ainda resultados econômicos para a iniciativa privada através do investimento externo. De um ponto de vista prático, o “custo” público em projetos como este retorna como ganho ambiental, social e econômico.
A crise energética europeia, resultado da dependência externa e das tensões geopolíticas, aponta a urgência da soberania tecnológica. Graças à dedicação de cientistas e investimentos públicos precisos, o Maranhão mostra que está alinhado à geopolítica global. A autonomia não vem da compra de “pacotes fechados” estrangeiros, mas do domínio sobre a integração das tecnologias.
Tendência científica internacional
De um ponto de vista científico, a solução segue uma tendência internacional: O arquipélago de Orkney – grupo de cerca de 70 ilhas, com 20 habitadas, situado no norte da Escócia, abriga o European Marine Energy Centre (EMEC), o maior centro de testes de energia marinha do mundo. Este arquipélago escocês é hoje um laboratório global. Orkney foi onde se provou que não basta ter uma turbina; é preciso ter a infraestrutura portuária e digital para “escoar” essa inteligência.
As correntes marítimas em Orkney (chamadas de Fall of Warness) são tão violentas e constantes que a região gera mais de 120% da energia de que necessita, e o excedente de energia é usado para produzir hidrogênio verde. Em um mercado global onde “créditos de carbono” também fazem parte do vocabulário comum, o Itaqui investe não só na própria infraestrutura energética , como garante um ativo que pode ser convertido em certificações ambientais e novos produtos tecnológicos, exatamente como os escoceses fizeram.





