Como a UEMA está criando o "backup" digital do Maranhão.
Érico Peixoto Araújo
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Engenheiro civil e pesquisador na área de Modelagem da Informação da Construção, com ênfase em BIM e HBIM aplicados ao patrimônio arquitetônico. Sua atuação integra tecnologia, documentação digital e representação avançada do ambiente construído, desenvolvendo metodologias de escaneamento, reconstrução digital e modelagem paramétrica voltadas à preservação e análise arquitetônica
O Centro Histórico de São Luís, com seus azulejos portugueses e casarões que possuem séculos de história, sempre foi um dos principais cartões postais do Maranhão. Mas, para além da beleza estética, esse acervo enfrenta um inimigo silencioso: o tempo. Tradicionalmente, a preservação consistiu em intervenções reativas e muitas vezes tardias devido à falta de documentação precisa. No entanto, uma inovação advinda da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) pretende mudar esse paradigma, provando que o desenvolvimento tecnológico de ponta não é exclusividade de grandes centros globais, mas uma realidade maranhense.
O projeto é liderado pelo coordenador e proponente Érico Peixoto Araújo, doutor em Urbanismo pela UFRJ e professor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Sob sua coordenação, a iniciativa estabelece como meta central a digitalização do Centro Histórico de São Luís através de tecnologias de ponta, como drones e escaneamento 3D.
O foco principal é a aplicação da modelagem HBIM (Heritage Building Information Modeling), uma ferramenta que permite não apenas documentar, mas monitorar de forma inteligente o patrimônio edificado maranhense. “No caso de São Luís, onde fatores climáticos, como alta umidade e exposição ao salitre, aceleram a degradação das edificações, um modelo digital atualizado pode fornecer informações fundamentais para a implementação de estratégias de conservação preventiva”, explica o coordenador.
Gêmeo digital
No cerne dessa revolução está o conceito de Gêmeo Digital (Digital Twin). Imagine uma réplica exata, bit por bit, de um edifício histórico, mas que não é apenas uma “foto 3D”. Através do uso integrado de drones e escaneamento a laser (LiDAR), os pesquisadores capturam “nuvens de pontos” de alta precisão.
Esses dados são processados na metodologia HBIM (Heritage Building Information Modeling), criando modelos paramétricos que “entendem” a estrutura, o material e o estado de conservação de cada viga ou azulejo. É um modelo inteligente que permite prever cenários de degradação e otimizar custos de restauro. “Esse gêmeo digital não apenas replica as condições físicas do espaço, mas também integra dados históricos e culturais, permitindo uma abordagem multidisciplinar na gestão do patrimônio.” explica Érico Araújo.

Maranhão 2050
O projeto “Documentar para preservar: modelagem de edifícios históricos de São Luís a partir de nuvens de pontos” está sendo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), por meio do edital Plano Maranhão 2050.
O plano está financiando o desenvolvimento de produtos, ferramentas tecnológicas, serviços, e metodologias inovadoras que proporcionem o avanço em todas as áreas inseridas nos seguintes eixos temáticos: Educação, Identidade e Cultura Transformadoras e Estruturantes, Economia Próspera e Inclusiva, Meio Ambiente Valorizado e Resiliente, Sociedade Saudável, Segura e Justa e Governança Efetiva, Conectada e Inovadora.
A lição da tragédia de Notre-dame
A tragédia da Catedral de Notre-Dame, em Paris, oferece o paralelo mais contundente para a urgência do projeto maranhense. Em 2019, enquanto as chamas consumiam séculos de história, a esperança de uma reconstrução fiel não residia apenas nas pedras que restaram, mas em um “backup” digital. Anos antes, o historiador Andrew Tallon havia realizado um escaneamento a laser completo da estrutura, gerando uma nuvem de pontos com precisão milimétrica.

Assim como a UNESCO (2019) defende que a digitalização cria réplicas cruciais para a reconstrução em caso de danos severos, os dados de Notre-Dame tornaram-se o guia mestre para os restauradores franceses. O projeto em São Luís busca essa mesma preservação digital preventiva contra o colapso estrutural ou a degradação acelerada.
A criação de um “gêmeo digital” não é um mero desenho, mas um repositório que integra dados históricos e materiais. Em Paris, isso permitiu entender como a catedral foi construída; em São Luís, a modelagem HBIM permitirá simular intervenções e monitorar a degradação de forma inteligente e não invasiva.
Ao espelhar-se em exemplos como o de Notre-Dame, o projeto reforça que o uso de drones e escaneamento a laser não é um luxo tecnológico, mas uma ferramenta de resiliência cultural indispensável para cidades que, como São Luís, possuem o título de Patrimônio Cultural Mundial.
Soluções multidisciplinares
O projeto da UEMA não se limita à engenharia; ele propõe uma ponte social através da educação patrimonial e do turismo imersivo. Ao transformar o Centro Histórico em um ambiente digital interativo, a tecnologia quebra as barreiras físicas da exclusão.
Alunos de escolas públicas, por exemplo, podem explorar o “gêmeo digital” em sala de aula, compreendendo sua identidade cultural através de ferramentas tecnológicas de ponta. Além disso, o acesso virtual amplia o potencial turístico global, permitindo que São Luís seja “visitada” e estudada em qualquer lugar do mundo, fomentando a economia criativa local.

Além disso, a digitalização é uma grande aliada da gestão patrimonial pública. A transparência de dados digitais facilita a comunicação entre gestores públicos e a sociedade, permitindo que as políticas de preservação sejam baseadas em dados, não em suposições políticas.
Este projeto é um manifesto de que a inovação tecnológica no Maranhão é o caminho para uma gestão pública mais eficiente e menos onerosa. Ao alinhar-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 9 e 11 da ONU, São Luís deixa de ser apenas uma cidade que olha para o passado com nostalgia e passa a ser um modelo de cidade resiliente e inteligente.




