Projeto de Economia criativa investe em capital intelectual e preserva identidade cultural
Denis Carlos Rodrigues Bogéa

Mestre em Cinema (UFS, 2023), Especialista em Cinema e Linguagem Audiovisual (UCAM, 2019) e em Arte, Mídia e Educação (IFMA, 2021), além de licenciado em Educação Artística (UFMA, 2010) e em História (UEMA, 2004). Atua como cineasta, pesquisador e educador, dedicando-se à interface entre cinema, memória, religiosidade e cultura popular.
O Maranhão é berço de manifestações culturais que equilibram o ancestral e o contemporâneo e uma delas acaba de chegar às telas de cinema. O documentário “O pau da festa”, do diretor Denis Carlos, acompanha o cotidiano dos homens envolvidos na tradicional Festa do Divino Espírito Santo e Senhora Santana, do Terreiro Fé em Deus, realizada há mais de meio século no bairro Sacavém, em São Luís.
Mais que um registro antropológico, a produção é uma mostra de como a economia criativa e o investimento em capital intelectual e identidade regional é capaz de gerar valor econômico e impacto social imediato.
A Festa do Divino acontece em várias paróquias e terreiros de São Luís, onde são realizadas missas, procissões, toques de caixeiras e o levantamento/derrubada do mastro.
Apoiado pelo edital de Economia Criativa, uma parceria da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), o filme mergulha nas nuances das Festas do Divino Espírito Santo, mas sob um prisma raramente explorado: a participação masculina e o simbolismo do mastro.
Historicamente, as Festas do Divino são associadas à centralidade feminina. No entanto, o diretor do filme, que vivencia o cotidiano do terreiro há décadas, percebeu uma lacuna nas pesquisas e produções audiovisuais.
“Meu recorte procura evidenciar essa participação masculina na festa. Isso abre uma discussão sobre como vão sendo construídos alguns conceitos que acabam se cristalizando nas tradições”, explica o cineasta.
Ele centra sua narrativa em três momentos importantes da celebração: a busca dos homens pela árvore que dará origem ao mastro, sua preparação e o momento em que ele é erguido. “Assim, a produção revela um calendário que as divulgações oficiais raramente mostram, despertando a curiosidade do público para os bastidores do rito”, complementa o diretor.

O rito do mastro
E quem fala mais sobre este aspecto da celebração é Manoel Santana da Silva Neto, 44 anos. Há 25 anos ele frequenta o Terreiro Fé em Deus e há 10 anos faz parte de um grupo que, atualmente, reúne cerca de 20 homens responsáveis pelo mastro e que estão retratados no documentário.
“Pouco mais de um mês antes do início da festa a gente vai para um sítio na região do São Raimundo onde fazemos a escolha da árvore que servirá de mastro para a celebração. Quando vamos escolher, levamos em consideração a altura, geralmente 10 metros, e com um peso que a gente consiga arrastar pela mata após a derrubada. No dia começamos os trabalhos por volta das 8h ou 9h e se estende até por volta das 16h”, informa Manoel Santana da Silva Neto.
Após este momento, a árvore fica reservada até ser preparada no dia de início da celebração. O ritual começa com um batismo feito com vinho, em seguida são colocados os ornamentos e, por fim, no topo do mastro, o mastaréu, um tipo de bandeira. Todo este trabalho é acompanhado de perto pelo padrinho do mastro, que, segundo a tradição, está sob a guia de um encantado chamada de Dona Miúda.
“Durante muitos anos o mastro foi enfeitado na casa de dona Celeste, que, infelizmente, já faleceu, fazendo com que a preparação seguisse para outro local. Mas no ano passado a família dela pediu para ficar responsável pelo preparo como forma de manter viva a memória de dona Celeste, que foi consagrada como madrinha perpétua do mastro”, conta Manoel Neto.
Neste momento, mesmo com a forte presença masculina associada ao mastro, duas figuras femininas voltam a ganhar destaque – Dona Miúda e Dona Celeste, conforme tradicionalmente já se verifica nas celebrações do Divino Espírito Santo.
O protagonismo feminino
Mãe Roxa, como é conhecida Maria Auxiliadora Amaral, líder do Terreiro da Fé em Deus, outra figura feminina importante da celebração, destaca que ao mostrar o trabalho dos homens na preparação do mastro o documentário vai permitir que as pessoas entendam o real significado deste ritual.

“Muitas pessoas participam da festa sem realmente entender o que significa este mastro. Agora, elas vão compreender que existe toda uma técnica no preparo. Não é uma coisa feita de um jeito qualquer, é um ritual cheio de significados. Então, ele vai deixar um legado, principalmente para a juventude que nem sempre tem senso de compromisso e responsabilidade”, avalia Mãe Roxa.

Ela está à frente do terreiro há 7 anos, desde que a líder anterior, Mãe Elzita, precisou se afastar das atividades por problemas de saúde. Mãe Elzita faleceu em dezembro de 2025 e não chegou a ver o documentário pronto. Então, a produção é, também, uma forma de manter vivo o legado e a memória da líder religiosa que deu início à celebração na comunidade.
“Mãe Elzita deixou um legado muito bonito para todos nós. Ela sempre dizia que eu não era apenas a Filha de Santo dela, mas a filha dela de verdade. Essa força dela resiste aqui no nosso terreiro, por isso, quando fui convidada para assumir a casa, eu aceitei. Se não, ela poderia fechar”, conta Mãe Roxa.
A Festa do Divino Espírito Santo e Senhora Santana, do Terreiro Fé em Deus, ocorre no mês de julho. No dia 26, é celebrado o dia de Senhora Santana. O mastro é erguido 8 dias antes, marcando o início da festa, que é encerrada no dia 27, quando o mastro é derrubado.
As percepções do diretor
Mas Dennis Carlos chama atenção para um ponto fundamental da sua produção. “Eu não tive a pretensão ou preocupação em traduzir a festa, o que seria impossível por meio da interpretação audiovisual. Esta é uma linguagem que se dá muito por meio da construção de uma realidade que está ligada ao universo de quem edita e dirige. Então, o que se vê na tela são as minhas compreensões, minhas visões acerca desse recorte da presença masculina na festa”, destaca.

O diretor do documentário também frisa sua preocupação em fazer com que as pessoas se reconheçam no filme. “Na minha mente o filme está direcionado para elas que fazem a festa, mas mesmo assim, sempre vai ficar algo de fora. O filme sempre é um recorte de uma realidade realizado por uma pessoa com um universo distinto. As pessoas estão vivendo e a vida é repleta disso. Não tem como você colocar em compartimentos”, avalia.
Além disto tudo, a finalização de “O pau da festa” é um exemplo prático de como as políticas públicas fortalecem a cadeia produtiva do audiovisual maranhense. Após um longo processo de pré-produção e filmagens realizados com recursos próprios, o aporte de recursos por meio do Edital Economia Criativa foi o divisor de águas para a pós-produção.
OLHO
“Acho importante colocar isso na medida em que a gente pensa um filme como se fosse uma coisa que surgisse do nada na tela e não tivesse um trabalho longo que antecede isso. Nesse sentido, após um processo que remete à forma como tenho realizado meus filmes, com recursos próprios na pré-produção e na produção também, este edital trouxe mais segurança e agilidade nessa fase final do filme. É uma importante contribuição na cadeia produtiva audiovisual do Maranhão, uma vez que entende as etapas da realização de um filme e, decide apoiá-la”, enfatiza Denis Carlos.
Atualmente, o filme se prepara para ser exibido em festivais e mostras de cinema pelo Brasil, e com expectativas altas para exibições em eventos consolidados no estado como o Guarnicê, Maranhão na Tela e a Mostra Sesc de Cinema.
Projeto de trilogia
Denis Carlos também revela que este documentário integra o que ele chama de “Trilogia do Pau”, sendo parte de um conjunto maior de pesquisa na qual ele tem trabalhado há algum tempo. “A trilogia tem este nome para evidenciar algo que é inerente ao universo do mastro/pau nas festas que é esse caráter dúbio, do sagrado e do profano, que é típico dessa ocasião das festas do divino”, afirma.
A outra celebração que ganhará documentário pelas mãos do diretor acontece na comunidade do Cururuca, em Paço do Lumiar, no Terreiro Santa Rosa de Lima, de Pai Bia, e já em fase avançada de produção. A terceira, ainda por começar a produção, vai envolver algumas festas no interior do Maranhão, mas sempre buscando destacar o mastro e as relações que são estabelecidas a partir dele.





