Vencedora do Prêmio FAPEMA na categoria Empreendedorismo, Kelly Marques de Sousa Bontempo criou a Casa Amabilitar para ajudar famílias a organizar a vida após o diagnóstico de AVC e outras doenças neurológicas
Kelly Marques de Sousa Bontempo

Pós-graduada em Gestão de Negócios no IBMEC (2014), graduada em Turismo pela Universidade Federal do Maranhão (2008) e em Gestão de Pessoas pelo SENAC- SP (2025).
VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Empreendedorismo (3º Lugar)
Título: Reciclaverso: Educação Socioambiental em Realidade Virtual

A alta hospitalar encerra uma etapa do tratamento. Para a família de uma pessoa que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), porém, pode abrir um período de dúvidas. Como organizar os cuidados? Onde encontrar reabilitação? Como compreender as orientações recebidas e incorporá-las à rotina? Entre a saída do hospital e a continuidade do tratamento, há um trabalho cotidiano que frequentemente recai sobre pessoas sem preparo para exercê-lo.
Foi para atuar nesse intervalo que nasceu, no Maranhão, a Casa Amabilitar. À frente da iniciativa está Kelly Marques de Sousa Bontempo, vencedora do terceiro lugar do Prêmio FAPEMA 2026 na categoria Empreendedorismo. Sua proposta reúne informação acessível, ferramentas de organização e conexão com profissionais de reabilitação neurológica para apoiar pacientes e familiares no pós-diagnóstico.
“A metodologia foi construída a partir da vivência real no pós-diagnóstico”, conta Kelly. Essa experiência orienta o empreendimento já que parte de uma necessidade de ajudar quem, de uma hora para outra, precisa aprender a cuidar.

O problema tem muitas camadas. Às dificuldades de acesso a serviços especializados somam-se a insegurança para tomar decisões, a sobrecarga emocional e o isolamento. A família precisa compreender uma condição de saúde enquanto reorganiza a própria vida. E ter informação disponível nem sempre significa conseguir entendê-la ou saber como utilizá-la.
A Casa Amabilitar procura aproximar esses dois pontos. Seleciona conteúdos técnicos e científicos e os traduz para uma linguagem que possa ser compreendida por quem está fora da área da saúde. Também desenvolve guias e materiais para acompanhar tratamentos e organizar tarefas. A intenção é fazer com que o conhecimento encontre lugar na rotina. “A proposta é transformar um cenário de desorganização e insegurança em uma jornada estruturada, acessível e orientada”, descreve a empreendedora.
Na prática, isso envolve desde um material com os primeiros passos após o AVC até ferramentas para registrar e acompanhar os cuidados. Um planner físico já teve suas primeiras vendas; a versão digital está em validação com usuários. A plataforma também reúne conteúdos e está construindo uma rede de profissionais para facilitar conexões com as famílias. O negócio ainda passa pela validação e consolidação de seu modelo. São etapas que Kelly busca desenvolver com pesquisas entre famílias e profissionais, ajustando a proposta às necessidades identificadas.
Há, entretanto, uma dimensão do cuidado que não cabe em uma agenda. A necessidade de ser escutado por alguém que reconheça aquela experiência. Uma comunidade formada pela iniciativa reúne mais de 45 mulheres de diferentes regiões do Brasil. Nesse espaço, a troca de informações também abre caminho para apoio mútuo. O podcast “Esposas Atípicas: histórias de travessia entre o luto e a luta” amplia essa conversa. Nos dados apresentados à premiação, eram sete episódios lançados e mais de 239 downloads.

O título do programa aproxima duas experiências que podem coexistir após o diagnóstico. A primeira é lidar com as mudanças na vida familiar. A segunda, encontrar condições para seguir. Ao trazer essas histórias para a conversa pública, a iniciativa dá espaço também a quem assume o cuidado.
Conscientização sobre o AVC
A atuação alcança ações presenciais. Em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, foram realizadas quatro atividades de conscientização sobre AVC em espaços públicos, com mais de 50 pessoas diretamente alcançadas. Outros dois eventos ocorreram na Assembleia Legislativa e em uma instituição de ensino superior.
Na formação, um curso presencial em São Luís reuniu 14 participantes da área de Educação Física. Outro, realizado pela internet, teve 15 participantes, entre familiares e assistentes sociais, e resultou no e-book “Me tornei PCD, e agora?”. Já o material “Primeiros passos pós-AVC” registrava mais de 40 downloads.
São resultados iniciais que ajudam a testar formatos e reconhecer demandas. Não representam, por si, comprovação de melhora clínica dos pacientes. Revelam, porém, a construção de caminhos para fazer a informação circular e chegar a pessoas que precisam organizar o cuidado.
A participação no Programa Startup Nordeste, segundo Kelly, contribuiu para definir o público, rever estratégias e direcionar o empreendimento para soluções digitais. A Casa Amabilitar também conquistou o bicampeonato no Empreenda Senac São Paulo, em 2023 e 2024.
Agora, entre os próximos passos, estão a conclusão do planner digital e o desenvolvimento de uma ferramenta de inteligência artificial para selecionar conteúdos conforme as necessidades dos usuários. Essa funcionalidade ainda está em desenvolvimento. A iniciativa também pretende construir parcerias com unidades de saúde e secretarias para projetos de apoio às famílias após a alta hospitalar.
A premiação da FAPEMA reconhece um empreendimento em construção, voltado a uma questão que permanece quando o atendimento hospitalar termina. O desafio de Kelly é dar sustentabilidade e alcance a uma proposta cujo ponto de partida está dentro de casa. Uma família precisa cuidar de alguém e também precisa de orientação para conseguir fazê-lo.




