Estudo mostra como a literatura preserva histórias, identidades e as transformações da cidade
Conceição de Feitosa

Doutora em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e graduada em Letras pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). É professora da Rede Pública Estadual do Maranhão e servidora da UFMA.
VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Tese de Doutorado
Área do Conhecimento: Linguística, Letras e Artes
Título: São Luís Naturíssima Trindade: influxos e reflexos de uma cidade, conotados em sua poesia’
Orientador: Regina Kohlrausch
Há cidades que podem ser vistas. Outras também podem ser ouvidas, lembradas e sentidas. São Luís pertence a todas essas dimensões, e a poesia tem sido uma das formas mais potentes de registrar suas marcas, transformações e afetos. Foi dessa relação entre cidade, memória e literatura que nasceu a pesquisa ‘São Luís Naturíssima Trindade: influxos e reflexos de uma cidade, conotados em sua poesia’, da pesquisadora Conceição de Maria Corrêa Feitosa. O estudo aproxima três obras de poetas maranhenses, que mostram diferentes faces da mesma cidade.
Doutora em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e professora da rede pública estadual do Maranhão, Conceição Feitosa transformou memórias da infância em investigação acadêmica. A pesquisa, sob orientação da professora de Literatura, Regina Kohlrausch, conquistou o Prêmio FAPEMA 2026, na categoria Tese de Doutorado, área Linguística, Letras e Artes.

“Esta pesquisa mostra que uma cidade não existe apenas em seus prédios, mapas e documentos. A cidade também vive nas palavras daqueles que a experimentam e na literatura capaz de guardar aquilo que o tempo insiste em transformar”, enfatiza a pesquisadora.
Pautado nas obras São Luís Naturíssima Trindade – Trioleto Poético (1981), de Dinacy Mendonça Corrêa; O Futuro Tem o Coração Antigo (2013), de Celso Borges; e Éguas (2017), de Dyl Pires, o estudo relaciona poetas de diferentes momentos e a relação de suas produções com a cidade. São três tempos e três maneiras de percorrer poeticamente São Luís.
Vinda de família de poetas, Conceição Feitosa viveu parte da infância no Centro Histórico de São Luís, entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Em 1981, ainda criança, durante o II Festival de Poesia Falada da UFMA, ouviu o poema ‘São Luís Naturíssima Trindade – Trioleto Poético’, de sua mãe, Dinacy Mendonça Corrêa. Mais de quatro décadas depois, aquela experiência retornaria como uma das bases de sua tese.
O estudo valoriza a produção literária local como fonte legítima de conhecimento sobre o estado. “Os escritores registram conflitos, memórias, identidades e diferentes formas de viver e imaginar o território”, observa Conceição Feitosa. Paralelamente, ao colocar poetas maranhenses em diálogo com questões acadêmicas mais amplas, a pesquisadora amplia a visibilidade desses autores e mostra a rica produção de conhecimento de nomes locais, que viveram a cidade.

Nos poemas, São Luís vai além de ser espaço físico. É personagem, memória, experiência e sentimento. A comparação entre as três obras mostra que não existe uma única São Luís. A cidade se transforma conforme mudam o tempo, o espaço e o olhar de quem a percorre.
A pesquisa contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) e foi selecionada no edital Nauro Machado para ser publicada em livro. O alcance amplia as possibilidades de circulação do estudo para além da universidade.
Cidade que muda e permanece

Na obra de Dinacy Corrêa, a cidade surge entre palafitas e azulejos, sons, vozes, carnaval, tensões sociais e pertencimento. Em Celso Borges, memória, transformação e ruína convivem em uma São Luís marcada pela passagem do tempo. Já em Dyl Pires, o olhar se amplia para bairros, periferias e outras experiências urbanas, revelando uma cidade em constante movimento.
É também aí que reside uma das principais contribuições da pesquisa: revelar como a poesia pode registrar dimensões da vida urbana que muitas vezes escapam aos documentos oficiais. Uma rua que desapareceu, uma paisagem modificada, um bairro, uma voz ou um sentimento diante das mudanças podem permanecer vivos nos versos. A poesia torna-se, assim, uma espécie de arquivo da sensibilidade.





