Tendo como fonte a obra Quarto de Despejo, pesquisa parte de registros históricos para investigar a permanência da vulnerabilidade socioambiental em áreas periféricas da capital maranhense
Maria Eduarda dos Santos Ribeiro

Estudante do Curso Técnico em Logística, do Centro Educa Mais Padre José Bráulio Sousa Ayres
VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Pesquisadora Júnior
Área de Conhecimento: Linguística, Letras e Artes
Título do projeto: Escrevivência do abandono: racismo ambiental e a continuidade dos quartos de despejos em São Luís
Orientadora: Eva Vilaní de Macêdo Leite
A obra ‘Quarto de despejo: diário de uma favelada’, da escritora Carolina Maria de Jesus, foi o ponto de partida para a pesquisa da estudante Maria Eduarda dos Santos Ribeiro, do Centro Educa Mais Padre José Bráulio Sousa Ayres, localizado na Cidade Olímpica, em São Luís. O estudo estabeleceu diálogo entre literatura, memória e realidade socioambiental das experiências narradas pela autora, que retratou a vida na Favela do Canindé, em São Paulo, na década de 1950, e as condições de vulnerabilidade socioambiental vivenciadas por comunidades de bairros da capital maranhense.
Com o projeto ‘Escrevivência do abandono: racismo ambiental e a continuidade dos quartos de despejos em São Luís’, a pesquisadora Maria Eduarda parte da leitura crítica da obra de Carolina Maria de Jesus para refletir sobre a desigualdade social e racial. O trabalho se manifesta na ocupação do espaço urbano e na distribuição dos riscos ambientais.
A pesquisadora explica que os relatos da escritora revelam condições precárias de habitação e saneamento básico, exposição a riscos ambientais e invisibilidade social. “A realidade descrita pela autora da obra, ultrapassa o período histórico em que a obra foi escrita e permite refletir sobre problemas que continuam presentes nas cidades brasileiras”, observa a pesquisadora.
O estudo reuniu leitura bibliográfica, observação de comunidades e análise comparativa de registros históricos e atuais, que estabeleceram as relações entre a obra literária e a realidade local. Foram utilizadas fotografias de jornais, publicações em redes sociais e materiais de acervos bibliotecários.
A análise contemplou áreas do Itaqui-Bacanga, Vila Palmeira, Barreto, Ilhinha, Vila Embratel, Anjo da Guarda, Coroadinho, Coroado e Bairro de Fátima. Os locais foram considerados por apresentarem características relacionadas à ocupação de áreas de manguezais, regiões alagadas e igarapés, além de processos de crescimento urbano desordenado e exposição a riscos ambientais.
Entre os registros analisados estão imagens do Coroadinho, que documentam a ocupação e a presença de áreas alagadas em 1984, além de fotografias da Vila Palmeira, na década de 1980. A pesquisa também recorreu a uma reportagem do jornal Posição, publicada em 1976, sobre a realidade dos moradores do bairro do São Francisco. Com o título ‘Onde o povo veste sol e vive no abandono’, a publicação retrata a precariedade habitacional e a invisibilidade social enfrentadas pela população naquele período.

Ao avaliar essas imagens das questões presentes em Quarto de despejo, o estudo aponta semelhanças entre as experiências retratadas pela autora Carolina Maria de Jesus e os desafios enfrentados por populações periféricas de São Luís. A análise também chama atenção para a persistência de desigualdades que não se limitam às características físicas dos territórios, mas envolvem dimensões sociais, econômicas e políticas.

O estudo, orientado pela professora Eva Vilaní de Macêdo Leite, conquistou o segundo lugar no Prêmio FAPEMA 2026, na categoria Pesquisador Júnior.
Vivência social
A pesquisa ressalta, ainda, a proximidade entre os bairros estudados e a comunidade em que está localizada a escola onde Maria Eduarda estuda. Relação que aproxima a investigação do cotidiano dos estudantes e permite refletir sobre a própria realidade urbana, a partir da literatura, de registros históricos e da observação do território.
Nesse contexto, o conceito de racismo ambiental contribui para compreender como populações socialmente vulnerabilizadas, frequentemente compostas por pessoas negras e de baixa renda. Segmento que, historicamente, está mais exposto a problemas como a falta de saneamento básico, a precariedade habitacional e os impactos ambientais negativos.
Neste sentido, o trabalho pode servir de suporte para discussões acadêmicas e formulação de políticas públicas mais inclusivas, especialmente nas áreas de habitação, saneamento básico e preservação ambiental.




