Revista Inovação FAPEMA

A VIDA NAS REDES

Fábio Palácio de Azevedo* Mariana Souza Pedrosa**

Quem nunca abriu uma rede social apenas para responder a uma mensagem e, alguns minutos depois, percebeu que já havia assistido a dezenas de vídeos sem lembrar exatamente como chegou até eles? Experiências como essa fazem parte da rotina de milhões de pessoas e ajudam a explicar os resultados recentes de uma prática do Dicionário Oxford que já se tornou tradição. 

Todos os anos, o Oxford escolhe uma palavra capaz de traduzir o espírito do tempo. Nos últimos dois anos, as vencedoras nasceram justamente da experiência nas redes. Em 2024 foi brain rot, expressão que descreve o esgotamento mental provocado pelo consumo contínuo de conteúdos rápidos e superficiais. Em 2025, a escolhida foi rage bait, termo usado para definir publicações criadas deliberadamente para provocar indignação e, assim, aumentar o engajamento das pessoas em ambiências virtuais.

Segundo a própria equipe do dicionário, as duas expressões fazem parte de um mesmo ciclo. A indignação gera curtidas, comentários e compartilhamentos, os algoritmos ampliam esse alcance e a exposição constante acaba produzindo cansaço e saturação. Mais do que registrar modismos da internet, essas palavras ajudam a nomear uma experiência que já faz parte do cotidiano e sugerem que as redes sociais dizem muito mais sobre nossa época do que imaginamos.

É justamente dessa percepção que parte a pesquisa Hegemonia tecnopolítica: tempo, memória, estruturas de sentimento – uma visão à luz do materialismo cultural, desenvolvida na Universidade Federal do Maranhão. O projeto procura compreender como as redes sociais deixaram de ser apenas espaços de interação para se tornarem ambientes que influenciam a maneira como percebemos o mundo, construímos nossas memórias, organizamos nossos afetos e experimentamos a passagem do tempo. Em outras palavras, a pesquisa parte da ideia de que compreender o funcionamento das plataformas digitais é também compreender aspectos importantes da sociedade contemporânea.

Entre esses aspectos se incluem as formas de exercício daquilo que um pensador como Gramsci chamou de hegemonia civil. Trata-se das formas de imposição de poder político que abarcam não apenas aspectos coercitivos, mas também ideias, valores e percepções. O projeto parte da hipótese de que os recursos de poder hoje recorrem ao controle das subjetividades, processo que, para além de mecanismos de opinião, compreende a configuração de uma atmosfera ética e epistêmica, a modelagem de percepções e sentidos de realidade, incluindo experiências de tempo, memória e afetividades.

Para compreender esse fenômeno, o projeto dialoga com o materialismo cultural do sociólogo e teórico da cultura Raymond Williams. Essa perspectiva parte de uma constatação simples: cada época produz maneiras próprias de sentir, interpretar e experimentar a realidade. Williams chamou essas vivências compartilhadas de estruturas de sentimento, conceito que ajuda a compreender como mudanças culturais se manifestam no cotidiano muito antes de serem plenamente articuladas no pensamento ou explicadas teoricamente. Assim, observar como usamos as redes sociais também significa observar como determinadas formas de viver vão se tornando naturais.

Coordenada pelo professor Fábio Palácio de Azevedo, do Curso de Comunicação/Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPsi) da UFMA, a pesquisa reúne estudantes e pesquisadores em torno de um problema comum: compreender como as tecnologias digitais participam da reorganização da vida social e política. Vinculado ao Núcleo de Estudos e Pesquisas em Linguagens, Interação e Estratégias de Comunicação (Diversus) e à linha de pesquisa História, Epistemologia e Fenômenos Psicológicos do PPGPsi, o projeto teve início em 2025 e conta com a participação de professores, mestrandos e bolsistas de iniciação científica.

Mariana Pedrosa, pesquisadora de mestrado que participa do projeto com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), pretende compreender especificamente como jovens universitários da Geração Z narram sua relação com o tempo dentro das plataformas digitais.

A escolha desse grupo não é casual. A Geração Z é a primeira a crescer inteiramente sob a lógica das redes sociais, sem uma experiência subjetiva anterior à internet móvel e aos fluxos de informação organizados algoritmicamente. Para esses jovens, atualizar o feed, assistir a vídeos em sequência, alternar rapidamente entre aplicativos ou receber notificações constantes não representa uma novidade tecnológica, mas uma forma habitual de viver. A pesquisa procura compreender como essa geração interpreta essa experiência e que sentidos atribui a um cotidiano marcado pela velocidade, pela atualização permanente e pela sensação de que nunca há tempo suficiente.

Por meio de grupos focais com estudantes universitários, o estudo busca investigar menos o tempo de uso das plataformas e mais aquilo que os próprios participantes têm a dizer sobre sua experiência. Interessa compreender como descrevem a passagem do tempo enquanto navegam pelas redes, como percebem experiências de aceleração, distração ou esgotamento e de que maneira essas vivências se relacionam com suas escolhas sociais e cívico-políticas.

As palavras escolhidas pelo Dicionário Oxford não inventam fenômenos. Elas apenas dão nome a experiências que milhões de pessoas já compartilham. Nesse sentido, brain rot e rage bait talvez sejam menos importantes como expressões da internet do que como sintomas de uma época. Compreender por que elas surgem, circulam e fazem tanto sentido para quem vive conectado é também compreender o que as redes sociais revelam sobre a sociedade que construímos e sobre de que forma as ambiências virtuais moldam percepções e escolhas.

* Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP). Professor do Curso de Comunicação-Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia e coordenador da Pesquisa.

**Psicóloga, especialista em Psicologia Clinica. Mestranda em Psicologia no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFMA e bolsista FAPEMA na Pesquisa.

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