Pesquisa desenvolvida por aluna do IFMA – Pinheiro chama a atenção para os problemas gerados pela diminuição das relações humanas sustentáveis no ambiente laboral
Laís Dourado

Cursa o 3° ano da turma de Informática do IFMA – Pinheiro.

De um lado, algoritmos que ditam jornadas de mais de 12 horas para entregadores e motoristas de aplicativo. Do outro, profissionais com mais de 50 anos empurrados para a margem do mercado pela velocidade das transformações digitais, ou aposentados que enfrentam crises profundas de identidade e saúde mental. No centro de tudo isso, uma pergunta que ecoa desde os clássicos da filosofia: o que o trabalho está fazendo com o que somos? Uma pesquisa desenvolvida por uma estudante do campus Pinheiro do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA) tenta encontrar respostas.
Quem desenvolve o trabalho é a aluna Laís Emanuelly Silva Dourado, que tem 17 anos e cursa o 3° ano da turma de Informática da instituição. O projeto “Ética, política e mundo do trabalho: intersubjetividades e sustentabilidade no IFMA-Campus Pinheiro” é desenvolvido com Bolsa de Iniciação Científica financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA).
O ponto de partida da pesquisa foi o mapeamento das problemáticas internas no próprio campus. “O projeto surgiu a partir de conversas entre os dois orientadores da pesquisa. Ambos são graduados em Filosofia. Conversando sobre problemas relacionados ao mundo do trabalho, desenvolveram o interesse de discutir filosofia, intersubjetividade e mundo do trabalho. São muitas nuances que o trabalho apresenta e repercute na formação de subjetividades”, explica Laís Emanuelly Silva Dourado.
No contexto do IFMA, campus Pinheiro, a pesquisa buscava perceber como as dinâmicas de trabalho apresentavam problemáticas. Mas a partir de leituras filosóficas sobre a dimensão do trabalho, o estudo expandiu suas fronteiras. Hoje, a pesquisa se debruça sobre temas globais e urgentes: a inteligência artificial (IA), a precarização do trabalho e o impacto socioemocional dessas transformações na dignidade humana.
É essa engrenagem complexa que Laís Emanuelly Silva Dourado e Lucidalva Pereira Gonçalves, orientadora do projeto, e Gilnaldo Cantanhede Nunes, suborientador, investigam buscando conectar a teoria filosófica às dores reais e cotidianas do ambiente laboral contemporâneo.
Intersubjetividade no mundo do trabalho
Nos Institutos Federais, o “trabalho” não é apenas um tema; ele integra a proposta pedagógica como um princípio de ensino. A originalidade do projeto está em usar a filosofia como uma lente para enxergar como o trabalho estrutura historicamente a sociedade e molda as nossas relações. Por isso que o cerne da pesquisa traz o conceito de “intersubjetividade”.
“De forma sucinta, podemos pensar a intersubjetividade como uma relação que define a forma como construímos conhecimento e a própria percepção da realidade. A intersubjetividade permite a percepção do outro como sujeito consciente e a construção da nossa própria identidade”, pontua Laís Emanuelly Silva Dourado.
Relações humanas sustentáveis no ambiente de trabalho são aquelas baseadas na reciprocidade, na colaboração mútua e no respeito pela pessoa como um fim em si mesma, e não como uma mera peça de reposição. Quando o ambiente de trabalho ignora essa dimensão, a saúde do trabalhador desmorona, aponta o estudo que se baseou na revisão bibliográfica a partir de relatórios, ensaios, textos filosóficos, pesquisas, tendo como fio condutor filosofia, trabalho e tecnologia e estudos a respeito das relações interpessoais no trabalho.
Dificuldades para quem tem mais de 50 anos
Uma das primeiras frentes da pesquisa identificou o forte impacto da transição tecnológica na empregabilidade de pessoas com mais de 50 anos. Esse público enfrenta barreiras severas tanto para ingressar quanto para se manter no mercado devido à velocidade das novas ferramentas digitais.
Mas o problema vai além da exclusão ativa. O estudo acende um alerta vermelho para o pós-carreira: a falta de um planejamento adequado para a aposentadoria, somada à ausência de condições dignas de vida, tem empurrado idosos para quadros severos de depressão e, em casos extremos, ao suicídio. O fim da vida laboral, quando desestruturado, desmorona a subjetividade do indivíduo.
“Estas pessoas enfrentam mais dificuldades para lidar com as tecnologias recentes. Então há um impacto na empregabilidade. Evidentemente isso tem a ver também como a tecnologia é utilizada na estruturação dessa forma de trabalho”, informa a estudante.
Tecnologia que precariza as relações laborais
Além disso, no caso dos trabalhadores de aplicativos que trabalham diretamente para uma plataforma digital, há a perda da autonomia, o que tem sido identificado como trabalho morto, em substituição ao trabalho vivo. Esta situação é piorada com as longas jornadas de trabalho, por vezes mais de 12 horas diárias, falta de segurança tanto física, em função dos assaltos e acidentes, quanto em função da ausência de direitos trabalhistas, já que não há um contrato de trabalho.
Portanto, se o mercado exclui os mais velhos, ele redesenha a juventude por meio da chamada “uberização”, segundo a pesquisa. “Buscamos compreender inicialmente como a inteligência artificial impacta a criação de empregos. A partir dos relatórios identificamos que há mais uma mudança de direção, ou seja, alguns empregos serão instintos e as oportunidades que se abrem ainda dependem de uma formação ou especialização, o que não está ao alcance da maioria das pessoas”, comenta Laís Emanuelly Silva Dourado.
Entretanto, ela ressalta que ainda é difícil ilustrar os impactos da IA no mundo do trabalho. “Tentando uma conexão com o “trabalho uberizado”, percebemos que as plataformas usam majoritariamente IA para estruturarem essa forma de trabalho. Então, os trabalhadores recebem comandos para executarem tarefas repetitivas e simples, com pouca ou nenhuma autonomia, trabalhando para uma plataforma como um autômato, sem direitos trabalhistas, mas com a “ilusão” de que são “empresários de si mesmos”. Porém, esses aspectos acabam por precarizar a vida do trabalhador, com efeito negativo para a dignidade humana”, destaca.
Laís Emanuelly Silva Dourado alerta que a chamada “uberização” acaba por precarizar outras formas de trabalho, na medida em que opera como uma norma ou padrão pelo qual até o serviço público, por exemplo, passa a ser medido.





