Enquanto a inovação transforma o agronegócio, pesquisadores maranhenses criam balança e medidores audíveis que impulsionam o protagonismo, a geração de renda e a inclusão produtiva no campo
Christiane Lima

Graduada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Mestrado em Engenharia de Eletricidade (UFMA). Doutora em Engenharia de Eletricidade pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

A união entre o conhecimento acadêmico, o potencial do trabalhador e o apoio institucional está reescrevendo histórias no Instituto Federal do Maranhão (IFMA) – Campus São Luís – Maracanã, por meio da startup NUPITEC. A iniciativa surge como uma resposta eficiente para potencializar a capacidade de pessoas com deficiência, criando oportunidades reais para o empreendedorismo e para a inserção sustentável no mercado formal de trabalho.
O coração do projeto “NUPITEC – Soluções de Baixo Custo em Tecnologias Assistivas”, startup que está em fase de consolidação, bate no desenvolvimento de ferramentas simples, porém revolucionárias, voltadas para democratizar os instrumentos de pesagem e medição. Herdando a experiência acumulada desde 2020 pelo Núcleo de Pesquisa em Informática e Robótica Aplicada (NUPI), a startup desenvolveu protótipos de balanças digitais, trenas e medidores ambientais adaptados para emitir todos os seus resultados por meio de áudio.
O elo entre a bancada acadêmica e a terra firme da produção rural atende pelo nome de um colaborador essencial da equipe: Alessandro Henrique dos Santos Cavalcante, um jovem avicultor com deficiência visual, egresso do próprio curso de Zootecnia do IFMA Maracanã. Há mais de três anos, a rotina de manejo desse produtor ganhou um salto de eficiência com uma balança digital audível desenvolvida pelo núcleo. É através do som emitido pelo equipamento que ele pesa rações e insumos e acompanha o desenvolvimento de sua produção com total independência.
“Com estes aparelhos eu posso ter o controle da temperatura e umidade do galpão para o melhor conforto dos meus pintinhos. Outra vantagem é que eu posso ouvir o áudio do meu aparelho celular e observar o conforto térmico do meu galpão”, explicou Alessandro Cavalcante.

O projeto foi impulsionado pelo Edital nº 134/2024 de Apoio à Criação ou Consolidação de Startups (Fábricas de Inovação) e financiado com recursos da FAPEMA e IFMA.

Na avicultura, onde o controle climático do galpão assegura a qualidade e o sucesso dos lotes de aves, o novo instrumento permite que o zootecnista “ouça” as condições do ambiente em tempo real, tomando decisões estratégicas imediatas. “Ver nossos protótipos rodando em um ambiente real de produção é a maior recompensa que a pesquisa científica pode nos dar”, afirma a coordenadora do projeto, a professora Christiane Ferreira Lemos Lima. “Esse colaborador externo, que é cego e avicultor, tem sido fundamental. Ele já usava nossa balança audível há três anos e, desde janeiro de 2025, passou a testar o novo medidor de temperatura e umidade, trazendo feedbacks e sugestões de melhoria cruciais diretamente do campo. A ideia é expandirmos para várias pessoas que necessitem destas tecnologias”, explicou a professora.
Do protótipo ao ecossistema de negócios
Sob a orientação de Christiane Ferreira Lemos Lima e condução de Darlene Reis Barros e João Gabriel Gonçalves Moreira, a jornada da NUPITEC expandiu as fronteiras do refinamento técnico para consolidar a força do empreendedorismo maranhense. Ao longo de seis meses de aceleração promovidos pela Agência de Inovação do IFMA (AGIFMA), a equipe passou por workshops e mentorias focadas no amadurecimento de mercado, canais de venda e modelagem de negócios voltados para o fortalecimento do agronegócio, do varejo e da apicultura.
Os valores centrais da startup foram fincados na inclusão e na sustentabilidade, prevendo o reaproveitamento de materiais descartados na montagem dos equipamentos. “A transição de um projeto de laboratório para um modelo de negócio estruturado exigiu muito aprendizado”, explica a professora Christiane.
“As capacitações sobre Product-Market-Fit e as mentorias jurídicas da AGIFMA abriram nossos olhos. Nós mudamos o nome fantasia para NUPITEC focando na acessibilidade em português e desenhamos uma marca que carrega nossos valores de inclusão e compromisso ambiental, usando componentes reutilizados nos aparelhos.”
O esforço conjunto e o impacto socioeconômico da proposta renderam à NUPITEC o destaque de ficar em 5º lugar entre os dez melhores projetos desenvolvidos no edital de Criação e Consolidação de Startups, após a apresentação de um pitch de três minutos diante de uma banca avaliadora especializada.





