O estudo quer apontar alternativa terapêutica de baixo custo contra infecções hospitalares

Vitor Moraes

Graduado em Biomedicina pela Universidade Ceuma e técnico em Estética pelo Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA). Bolsista de Iniciação Científica do Ceuma, no Laboratório de Pesquisa e Inovação em Biotecnologia em Patógenos.
O avanço da resistência bacteriana é uma das maiores crises globais de saúde pública da atualidade. O aumento da mortalidade, o prolongamento das internações hospitalares e os altos custos para os sistemas de saúde têm impulsionado pesquisadores em todo o mundo, a buscar novas alternativas terapêuticas para combater microrganismos resistentes aos antibióticos tradicionais. Nesse cenário, um estudo desenvolvido na Universidade Ceuma aposta no reposicionamento de medicamentos como estratégia inovadora e economicamente viável.
O graduando em Biomedicina e pesquisador Vitor da Silva Moraes conduz o trabalho intitulado ‘Novas soluções para um antigo problema: busca de moléculas para o combate a patógenos multirresistentes’. A iniciativa surge em um contexto considerado alarmante pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que classifica a resistência antimicrobiana como uma das maiores ameaças à saúde pública no século XXI.
A pesquisa investiga o potencial antimicrobiano da metformina, medicamento amplamente utilizado no tratamento do diabetes mellitus tipo 2. A proposta é analisar se a substância pode atuar também no combate a bactérias resistentes, especialmente aquelas associadas a infecções hospitalares. A escolha da metformina se deu pelo perfil de segurança já consolidado do medicamento, além do baixo custo e da ampla disponibilidade no mercado. Essas características tornam a substância uma candidata promissora para regiões com limitações socioeconômicas.

Apesar do cenário, o desenvolvimento de novos antibióticos tem desacelerado, pois, criar um novo fármaco pode levar mais de dez anos e exigir investimentos bilionários, com alto risco de fracasso. Esse contexto impulsiona a busca por alternativas mais rápidas e viáveis. “Estamos avaliando uma molécula já aprovada para uso clínico, o que reduz etapas importantes do desenvolvimento de novos medicamentos e pode acelerar uma futura aplicação terapêutica”, explica Vitor Moraes. Segundo ele, o objetivo é ampliar as possibilidades de tratamento, diante do avanço das superbactérias.
Em sua pesquisa, Vitor Moraes é orientado pela doutora em Biofísica e professora do Ceuma, Camila Guerra Martinez. O estudo conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) por meio da modalidade de Bolsa de Iniciação Científica (BIC) .

A orientadora do estudo, Camila Martinez, aponta que compreender o mecanismo de ação da metformina sobre as bactérias é uma etapa decisiva para validar seu uso como alternativa terapêutica. Ela reitera que a pesquisa testa a metformina contra duas bactérias perigosas: a Pseudomonas aeruginosa e a Staphylococcus aureus, que são preocupantes, pois conseguem desenvolver resistência a vários antibióticos, tornando as infecções mais difíceis de tratar, como a sepse e pneumonia relacionada à ventilação mecânica.
Por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera esses microrganismos de alta prioridade na lista global de patógenos perigosos. No Brasil, o Staphylococcus aureus é uma das principais causas de infecções na corrente sanguínea, sendo responsável por cerca de 36,9% dos casos.

para análise dos elementos
O problema mais grave, segundo a orientadora, é que mais da metade dessas infecções (52,8%) são causadas por uma versão resistente da bactéria chamada MRSA. Essa bactéria resistente não responde aos antibióticos comuns, então os médicos precisam usar tratamentos mais fortes, mais caros e muitas vezes mais difíceis de administrar. Além disso, essas infecções apresentam maior risco de complicações e mortalidade.
Estudo avalia redução do tempo de tratamento com antibióticos
A metformina é uma droga barata e já é distribuída gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), portanto, não iria gerar mais custos para o sistema de saúde, aponta Camila Martinez. Havendo a possibilidade de sua aplicação para o tratamento de infecções, caberia apenas redirecionar verbas, e não destinar maior aporte de dinheiro. Já foi identificado que a metformina tem efeito bactericida e que, combinada com antibióticos comerciais, reduz a dose necessária para matar a bactéria, reduzindo o gasto com antibiótico. Outra vantagem é de que, o tratamento realizado antes com a metformina vai reduzir também o tempo de uso do antibiótico comercial.
“Então, realmente é uma investigação muito promissora, científica e socialmente. Agora nós queremos entender o mecanismo. Porque a metformina tem ação contra aureus, que chamamos gram positiva; e pseudomonas, que é gram negativa. Precisamos identificar a melhor dose e tempo de tratamento para alcançar a ação bactericida direta, e o tempo e dose para agir junto com o antibiótico”, pontua Camila Martinez.
“Compreender o mecanismo de ação da metformina sobre as bactérias é uma etapa decisiva para validar seu uso como alternativa terapêutica”, Camila Martinez.
Além da relevância científica, o projeto também apresenta impacto social para o Maranhão. A proposta pode contribuir para o melhoramento do sistema público de saúde ao investigar alternativa terapêutica acessível e de baixo custo, especialmente importante para populações em situação de vulnerabilidade. A pesquisadora enfatiza que “o Maranhão tem potencial para se tornar referência no desenvolvimento de soluções inovadoras voltadas aos desafios globais em saúde”.





