Com apoio da FAPEMA, o grupo de sotaque da baixada moderniza sua cadeia produtiva e prova que a inovação tecnológica e social caminha lado a lado com a ancestralidade
No coração do bairro Liberdade, um dos maiores quilombos urbanos do Brasil, o som do gude e do pandeiro ecoa há décadas carregando o legado de Mestre Apolônio Melônio. Ali, o Boi da Floresta mantém mais de 80% de seus integrantes vindos da própria comunidade. No entanto, longe de estar parado no tempo, o grupo encontrou na convergência entre o saber popular, o design contemporâneo e o empreendedorismo, o combustível para navegar pelo século XXI sem perder a sua essência.
O divisor de águas recente dessa trajetória foi o apoio financeiro e metodológico obtido através do Edital de Economia Criativa, uma iniciativa conjunta da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-MA). O resultado? Uma revolução nos bastidores que transformou o fazer cultural em um ecossistema sustentável de inovação e salvaguarda.
Quem conta como ocorreu esta transformação é Talyene Cruz Melônio, que além de filha do fundador do grupo, Mestre Apolônio, é a atual coordenadora do Boi da Floresta. “Antes das capacitações promovidas com o apoio da Fundação e do Sebrae, a produção das indumentárias seguia o saber-fazer tradicional, mas com pouca formalização de custos, tempo de trabalho e precificação. As oficinas e a incubação trouxeram noções de planejamento, cadeia produtiva e valorização do trabalho artesanal”, explica.
As oficinas de encadernação, precificação, serigrafia e bordado promovidas pelo edital permitiram ao Boi da Floresta transformar seu saber-fazer artesanal em uma linha de produtos com identidade cultural própria. São camisetas serigrafadas com os personagens e cores do grupo, broches bordados com miçangas e canutilhos, e cadernos artesanais produzidos com técnicas de encadernação artesanal.
“Antes, esses itens não eram confeccionados pelo grupo. Com as capacitações, passamos a produzi-los e comercializá-los tanto de forma on-line, através do nosso perfil no Instagram, como em feiras, apresentações e, futuramente, como souvenirs da loja do Memorial Apolônio Melônio”, informa Talyene Cruz Melônio.
O projeto gerou uma fonte de renda complementar para o boi e para os brincantes/artesãos e suas famílias, valorizando o trabalho manual e fortalecendo a economia criativa local. “Além disso, a precificação adequada, aprendida nas oficinas, garantiu que o valor do conhecimento tradicional fosse justamente reconhecido, impactando positivamente a realidade financeira das costureiras, bordadeiras e artesãos do quilombo urbano”, afirma Talyene Melônio.
Neste processo, o grupo passou a entender melhor o fluxo coletivo de produção – do risco ao bordado, do veludo à costura – e a calcular o preço justo das peças, considerando as múltiplas mãos envolvidas. Isso otimizou processos, evitou desperdícios e deu mais autonomia financeira aos artesãos da comunidade. Mas todo esse processo é realizado sem que o grupo deixe de lado suas tradições.
“A tradição é mantida nos rituais, na dança em meia-lua, no uso de materiais tradicionais como o couro de boi e cabra para confecção dos tambores, na oralidade, mas a linguagem e os meios se atualizam para dialogar com a juventude do quilombo urbano”, enfatiza a coordenadora.

A tradição e o diálogo com a juventude
Talyene Cruz Melônio destaca que o grupo mantém o equilíbrio entre a tradição e o diálogo com a juventude ao compreender que inovação não significa ruptura. “Mestre Apolônio já compartilhava seus conhecimentos por meio da tradição oral e oficinas práticas desde os anos 2000, envolvendo crianças e jovens do bairro. Atualmente, damos continuidade a atividades como oficinas de bordado, percussão, tambor de crioula, que inserem os mais novos no saber-fazer ao mesmo tempo em que utilizam ferramentas e linguagens contemporâneas”, explica.
Entre as ferramentas de linguagem contemporânea usadas pelo Boi da Floresta, Talyene Cruz Melônio cita as redes sociais como o Instagram e a produção audiovisual ‘Silêncio na Boiada’. O documentário curta-metragem conta como o grupo atravessou um momento de silenciamento, distanciamento e mortes provocados pela pandemia do COVID-19.
A partir de um olhar coletivo, a história é contada por seus integrantes, que apresentam o território, o grupo, os dilemas do momento e como deram a volta por cima. Apesar do cenário de restrição, o Boi da Floresta encontrou formas de dar continuidade, atualizar as tradições e garantir a sobrevivência de seus brincantes durante a maior crise sanitária mundial do último século, mostrando-se um guardião das pessoas e de seu território.

O boi como rede de proteção social
Fundado em 1972 pelo Mestre Apolônio Melônio, e com sede na rua Tomé Sousa, no bairro Liberdade, em São Luís, o Boi da Floresta é um dos grupos mais tradicionais e respeitados do Maranhão, sendo referência no sotaque de Pindaré (ou da Baixada).
O sotaque da baixada, ou de Pindaré, é tradicional no norte do estado e se caracteriza pela presença de instrumentos como matracas, pandeiros e maracás. A brincadeira incorpora o personagem Cazumbá – figura mística e andrógina, com traje animalesco, que representa o elo entre diversão e ancestralidade.
O sotaque que caracteriza o grupo reflete a história de vida de seu fundador, que nasceu em São João Batista, município da Baixada Maranhense, e já aos 8 anos se tornou pela primeira vez amo de um boizinho, e não parou mais. Já em São Luís, onde predomina o sotaque de matraca (ou da Ilha), lutou a vida toda pela sobrevivência do bumba meu boi da baixada, sendo, inclusive, um dos fundadores do Boi de Pindaré, ao lado do cantador Coxinho, outro grupo de referência nesse sotaque. Além do Boi da Floresta, Mestre Apolônio, que morreu aos 96 anos, em 2015, fundou, também, o Tambor de Crioula de Mestre Apolônio.

Por isso que mais que um grupo de bumba meu boi, o Boi da Floresta representa também um agente de coesão social e sobrevivência material, funcionando como uma rede de proteção comunitária que vai muito além das apresentações juninas.
“A comunidade enxerga o Boi da Floresta como muito mais do que um grupo cultural. Ele é percebido como uma instituição de amparo social essencial. Lideranças do boi acompanham constantemente quem está hospitalizado, quem precisa de alimentação ou gás de cozinha, quem enfrenta problemas com a justiça ou mesmo com o tráfico”, pontua a coordenadora do grupo.
Design e memória: o futuro Memorial Apolônio Melônio
Um dos frutos mais expressivos do fomento à pesquisa e inovação é o planejamento do Memorial Apolônio Melônio. O espaço ocupará dois cômodos da casa onde o mestre viveu, dentro do próprio barracão do boi, e funcionará sob o conceito de museu vivo e comunitário.

A pesquisa já produziu a identidade visual escolhida pelos brincantes, um site com acervo digitalizado e projetos expográficos cocriados com o grupo de pesquisa Narrativas em Inovação Design e Antropologia (NIDA), alunos do curso de Design, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), brincantes e artesãos da ‘Família Floresta’.

“O papel do memorial será o de um museu vivo e comunitário. O espaço servirá para que as pessoas possam tocar, ouvir, aprender e, sobretudo, contar a história do mestre e do boi a partir da perspectiva do próprio Boi da Floresta”, reforça Talyene Cruz Melônio.
Agora, segundo a coordenadora do grupo, o próximo passo é captar recursos para reformar os dois cômodos da casa onde o mestre viveu, produzir e instalar a exposição de forma permanente e fazer do memorial um ponto de referência para a Liberdade e para toda São Luís.

Inovação e cultura popular
Projetos como o do Boi da Floresta mostram que financiar o saber popular e o conhecimento tradicional é tão relevante quanto financiar pesquisas de laboratório. A iniciativa reconhece que há outras formas legítimas de produzir e transmitir conhecimento – baseadas na oralidade, na prática manual, na memória coletiva e na relação das comunidades com o território onde vivem.
“A FAPEMA, ao apoiar este projeto, valida que o fazer artesanal dos bordados, a construção dos instrumentos, as toadas e os rituais do bumba meu boi são ciência viva. Isso fortalece a autonomia das comunidades tradicionais, contribui para a descolonização do conhecimento e mostra que a inovação também mora nos saberes ancestrais”, assinala Talyene Cruz Melônio.
Ao unir o subsídio científico e tecnológico da FAPEMA (que valida metodologias, apoia a pesquisa antropológica, de design e a salvaguarda digital) aliada ao olhar mercadológico e empreendedor do SEBRAE (focado em gestão, precificação e canais de venda), o projeto mostra que a inovação também mora nos saberes ancestrais, na oralidade e na memória coletiva, operando uma necessária descolonização do conhecimento.
MAIS
Conheça o Memorial de Mestre Apolônio clicando no link:
https://www.memorialapoloniomelonio.com/





