Revista Inovação FAPEMA

SABERES TRADICIONAIS: ESTUDO AVALIA O USO DE PLANTAS PARA O TRATAMENTO DE ENFERMIDADES EM ANIMAIS

Pesquisa do IFMA, Campus São Raimundo das Mangabeiras, vai verificar as propriedades farmacológicas e o uso seguro e sustentável das plantas medicinais na saúde animal

Evylle Aparecida Ferreira Nogueira

Acadêmica de Medicina Veterinária pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA), Campus São Raimundo das Mangabeiras, e de Enfermagem pela Unopar – Polo Balsas. É técnica em Enfermagem pelo CETEP.

Pesquisa de campo priorizou comunidades onde a prática tradicional da pecuária está preservada

O saber popular sobre plantas medicinais para tratar doenças de animais de produção é o foco da pesquisa “Conhecimento popular sobre plantas utilizadas em medicina veterinária em áreas rurais de municípios da mesorregião Sul do Maranhão, Brasil”. Desenvolvido pela estudante Evylle Aparecida Ferreira Nogueira, do curso de Medicina Veterinária do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA), Campus São Raimundo das Mangabeiras, o estudo une conhecimento científico e saberes tradicionais para preservar esses conhecimentos nas comunidades rurais.

A pesquisa foi amplamente divulgada e teve espaço durante evento de tecnologia na Paraíba
 

A pesquisa é a continuidade de um projeto que, em sua primeira etapa, identificou diversas espécies vegetais utilizadas por produtores rurais para o tratamento de enfermidades em animais. “Esta renovação permitirá o aprofundamento das investigações e o avanço na documentação das informações para análises relacionadas à eficácia terapêutica, à segurança de uso e à identificação de efeitos toxicológicos das plantas”, explica a pesquisadora Evylle Nogueira.

As comunidades onde a pesquisa foi aplicada participaram ativamente das etapas de execução

O trabalho de campo é realizado em comunidades rurais dos municípios de São Raimundo das Mangabeiras, Sambaíba, Fortaleza dos Nogueiras, São Félix de Balsas e Formosa da Serra Negra. A escolha dessas localidades levou em consideração a forte atividade pecuária e a presença de produtores que ainda preservam práticas tradicionais de manejo sanitário dos animais, utilizando recursos vegetais encontrados na região.

“Registrar os saberes tradicionais é preservar a biodiversidade, valorizar a cultura e ampliar as alternativas sustentáveis para a saúde animal.” — Evylle Nogueira, pesquisadora.

Os pesquisadores utilizarão uma abordagem quali-quantitativa, baseada em entrevistas semiestruturadas, observação direta das práticas de campo e registros fotográficos autorizados pelos participantes. Os informantes serão identificados por meio da técnica conhecida como “bola de neve”, na qual pessoas reconhecidas pelo conhecimento tradicional indicam outros participantes com experiência semelhante. “Esses conhecimentos são transmitidos entre gerações e fazem parte da identidade das comunidades rurais. Registrá-los é uma forma de valorizar esse patrimônio e incentivar novas pesquisas sobre o potencial dessas espécies”, ressalta Evylle Nogueira.

O estudo integra projeto que em sua primeira etapa identificou espécies vegetais utilizadas para tratar doenças em animais

Após a conclusão do estudo, serão produzidos artigos científicos, materiais educativos e será consolidado um banco de dados etnobotânico. Fruto da pesquisa, estão previstas, ainda, ações de devolutiva junto às comunidades participantes. O estudo está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente àqueles relacionados à agricultura sustentável, à saúde, ao consumo responsável e à conservação da biodiversidade.

Metodologia da pesquisa 

Nesta etapa de entrevistas, serão levantadas informações como o nome popular das plantas, as partes utilizadas, as formas de preparo, as indicações terapêuticas, as formas de administração, a frequência de uso e a percepção dos produtores sobre a eficácia dos tratamentos. Sempre que possível, as espécies citadas serão coletadas para identificação botânica e posterior comparação com dados científicos disponíveis na literatura especializada.

“Nosso objetivo é sistematizar esse conhecimento tradicional e compará-lo com as evidências científicas disponíveis, contribuindo para o uso seguro e sustentável das plantas medicinais na saúde animal. Além disso, estaremos contribuindo para a preservação de um patrimônio cultural ameaçado pelas mudanças sociais e ambientais e ampliando as alternativas sustentáveis para a saúde animal na região sul do estado”, observa o coordenador do estudo, Maurício Eduardo Chaves e Silva.

A proposta também possibilita a formação acadêmica dos estudantes envolvidos, com a participação em todas as etapas da pesquisa científica, desde o trabalho de campo até a análise dos resultados e a produção de artigos. Essa dinâmica promove uma formação técnica e científica mais completa.

Saúde animal e cultura preservada

Além do resgate cultural, a pesquisa possui forte impacto socioeconômico. Em muitas propriedades rurais da região, especialmente entre agricultores familiares, o acesso a medicamentos veterinários convencionais é limitado por fatores econômicos ou logísticos. Nesse contexto, o uso de plantas medicinais continua sendo uma alternativa acessível para o cuidado com os animais e para a redução dos custos de produção.

Outro diferencial do projeto é a integração entre conhecimento popular e ciência. Após o levantamento das espécies utilizadas, os pesquisadores realizarão revisão bibliográfica em bases científicas nacionais e internacionais para verificar as propriedades farmacológicas e os possíveis riscos associados ao uso das plantas, permitindo uma análise crítica das informações obtidas nas comunidades.

Os dados também serão analisados por meio de índices etnobotânicos internacionalmente utilizados, como Frequência de Citação, Valor de Uso e Índice de Consenso dos Informantes. Estas são ferramentas que permitem identificar quais espécies possuem maior importância para as comunidades e quais apresentam maior concordância entre os participantes quanto à sua utilização.

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