Revista Inovação FAPEMA

A CIÊNCIA A SERVIÇO DA CONSERVAÇÃO DA VEGETAÇÃO NO MARANHÃO

Estudo premiado nacionalmente revela como o monitoramento via satélite e a gestão territorial na transição Amazônia–Cerrado são vitais para conter focos de incêndio e proteger ecossistemas e comunidades

Na pesquisa foram analisados 20 anos de dados das áreas de transição Amazônia–Cerrado

Eduarda Braga

Engenheira Florestal pela Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão e mestranda em Ciências Ambientais pela mesma instituição. 



As áreas de vegetação protegidas não são ilhas isoladas. Tudo o que acontece no entorno delas interfere diretamente em sua conservação. Quando a vegetação nativa é substituída por pastagens, monoculturas ou áreas abertas, a paisagem se torna mais fragmentada, mais seca e com maior quantidade de bordas expostas ao vento e ao calor. Isso cria verdadeiros corredores de propagação do fogo, desafiando a conservação ambiental no Maranhão. Uma pesquisa maranhense ganhou reconhecimento em uma premiação nacional e busca reverter esta situação.

É a mestranda Eduarda Vaz, da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL), quem busca meios para proteger os ecossistemas e comunidades maranhenses da ação do fogo por meio do trabalho “Ameaças do fogo às áreas protegidas na zona de transição Amazônia–Cerrado”, resultado de sua dissertação de mestrado “Dinâmica Espacial do Fogo no Cerrado do Maranhão (2001–2023)”. A pesquisa foi premiada com o 2º lugar na categoria Jovem do Prêmio MapBiomas e teve a orientação da profa. Dra. Taíssa Rodrigues, da UEMASUL, Campus Imperatriz

Eduarda Vaz alerta que o fogo ainda é utilizado como uma ferramenta de manejo em muitas propriedades rurais e detalha o problema decorrente desta prática. “O problema ocorre quando essas queimadas são realizadas em períodos inadequados ou sem controle suficiente, podendo escapar para áreas vizinhas e alcançar as unidades de conservação”, explica.

Por isso, sua pesquisa destaca justamente que a proteção legal, embora essencial, não é capaz de impedir sozinha a entrada do fogo, sendo necessário cuidar também do território ao redor, fortalecendo as zonas de amortecimento, o diálogo com os produtores e as ações preventivas.

MapBiomas monitora as transformações na cobertura e no uso da terra nos territórios e seus impactos

Sensoriamento remoto e a memória do território

Sua pesquisa usa sensoriamento remoto e dados do MapBiomas para subsidiar ações de conservação e gestão ambiental. O MapBiomas é uma rede global e multi-institucional, formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia, que monitora as transformações na cobertura e no uso da terra nos territórios e seus impactos. Em 2025, a rede completou dez anos, fornecendo a mais atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Nascido no Brasil, o MapBiomas está atualmente presente em 14 países – toda a América do Sul e Indonésia.

“O sensoriamento remoto nos permite enxergar o território para além daquilo que conseguimos observar em uma visita de campo. Por meio dos satélites, podemos acompanhar áreas muito extensas, identificar onde o fogo ocorreu, quantas vezes uma mesma área queimou e quais tipos de vegetação ou usos da terra foram atingidos”, informa Eduarda Vaz.

Neste sentido, os dados do MapBiomas são especialmente importantes porque formam uma espécie de memória ambiental do território brasileiro, permitindo reconstruir as transformações da paisagem ao longo do tempo e compreender como o avanço das pastagens, da agricultura ou da perda de vegetação nativa se relaciona com a dinâmica do fogo.

Pesquisa está analisando duas décadas de dados ambientais para ter um panorama mais amplo do problema

“Essas informações não substituem o trabalho de campo, mas ajudam a torná-lo mais estratégico. Em vez de agir somente depois que o incêndio acontece, os gestores podem identificar áreas mais vulneráveis, planejar aceiros, organizar brigadas, definir períodos de maior atenção e direcionar recursos para os locais onde eles são realmente necessários”, afirma a pesquisadora.

Duas décadas em análise

Para ter um panorama mais amplo do problema, Eduarda Vaz, que é bolsista de mestrado da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), analisa duas décadas de dados. “Ao observar aproximadamente duas décadas de dados, conseguimos identificar padrões, períodos críticos e áreas que queimam repetidamente. Na pesquisa, por exemplo, verificamos picos importantes em 2004–2005, 2010 e entre 2015 e 2017. Também identificamos unidades em que o fogo ocorreu de forma pontual e outras onde retornou diversas vezes ao mesmo local”, explica.

A análise da série histórica permite separar um evento isolado de um problema estrutural e, com isso, transformar dados do passado em instrumentos de prevenção para o futuro. “Um ano pode ser excepcionalmente seco, chuvoso ou marcado por um grande incêndio, mas isso não significa que represente o comportamento habitual daquela área. Essa diferença é fundamental para a gestão ambiental. Uma área que queimou uma única vez demanda uma resposta diferente daquela que vem sendo atingida repetidamente”, destaca.

Vulnerabilidade da zona de transição Amazônia–Cerrado 

Nos últimos anos, a vulnerabilidade da zona de transição Amazônia–Cerrado, no Maranhão, foi ampliada pela expansão da fronteira agrícola, pela fragmentação da vegetação, pelo aumento das áreas de pastagem e pela ocorrência de períodos de estiagem mais intensos. Quando a vegetação está mais seca, uma queima de manejo que sai do controle pode alcançar proporções muito maiores, causando problemas ambientais e para a população do entorno.

“Para as populações rurais, o fogo não é apenas uma questão ambiental distante. Ele chega à casa das pessoas por meio da fumaça, da perda de produção, da morte de animais, da destruição de cercas, da contaminação da água e do medo de que as chamas alcancem as comunidades. Em muitos casos, uma família pode perder em poucas horas uma área produtiva construída ao longo de anos”, alerta a mestranda, frisando que existe ainda um impacto emocional pouco discutido.

Reconhecimento nacional

Por seu trabalho, Eduarda Vaz foi premiada em 2º lugar na categoria Jovem do Prêmio MapBiomas, uma premiação de âmbito nacional que reconhece trabalhos científicos de destaque voltados ao monitoramento e à análise ambiental.

Eduarda Vaz foi premiada em 2º lugar na categoria Jovem do Prêmio MapBiomas

“Recebo esse prêmio com muita alegria, gratidão e também com um grande senso de responsabilidade. Estar entre os trabalhos reconhecidos nacionalmente pelo Prêmio MapBiomas mostra que pesquisas desenvolvidas no Maranhão possuem qualidade, relevância e capacidade de contribuir para desafios ambientais que ultrapassam as fronteiras do estado. Essa conquista não é individual. Ela representa o trabalho construído com orientadores, coautores, laboratórios, instituições e todas as pessoas que contribuíram para minha formação. Também demonstra a importância da UEMASUL na produção de conhecimento sobre o território maranhense e o papel fundamental da FAPEMA ao permitir que jovens pesquisadores tenham condições de estudar, desenvolver projetos e permanecer na ciência”, afirma Eduarda Vaz.

MapBiomas mostra ocorrência de queimados na porção maranhense do Cerrado

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