Revista Inovação FAPEMA

SABERES DE TRANSIÇÃO: PESQUISA DA UEMASUL MAPEIA O USO DE PLANTAS MEDICINAIS NA ZONA DE TRANSIÇÃO DO CERRADO-AMAZÔNIA

Estudo no mestrado em Ciências Ambientais alia etnobotânica e anatomia vegetal para registrar a medicina popular em comunidades rurais e na Reserva Extrativista do Ciriaco.

Entrevista semiestruturada com morador local durante a etapa de campo do projeto. Aplicação da técnica bola de neve garante a escuta atenta dos especialistas em plantas medicinais da comunidade.

Daniel Lopes Costa 

Graduado em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão – UEMASUL. Pós Graduado em Ciências Ambientais e Análise Ambiental (FACUMINAS). Atualmente é mestrando em Ciências Ambientais pela Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão – UEMASUL 

Em uma faixa de terra onde a Floresta Amazônica e o Cerrado se encontram, o conhecimento tradicional se transforma em um recurso vivo de saúde e conservação. Na zona rural de Imperatriz e na Reserva Extrativista do Ciriaco, em Cidelândia, moradores locais mantêm guardados em quintais e na mata os segredos do uso terapêutico da flora regional. 

Essa riqueza socioambiental é o objeto central da dissertação de mestrado de Daniel Lopes Costa, pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCIAMB) da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL). Sob orientação da professora Dra. Niara Porto de Carvalho, o estudo investiga a diversidade de plantas medicinais nativas e exóticas utilizadas pelas comunidades locais. 

Com 45 entrevistas já finalizadas, 20 no povoado Coquelândia e 25 na Reserva Extrativista do Ciriaco, o levantamento revelou 769 registros etnobotânicos, englobando preliminarmente 70 espécies vegetais organizadas em 50 famílias botânicas. “O que mais chama atenção é a dimensão desse conhecimento nas comunidades“, destaca Daniel. “Nós trabalhamos justamente com pessoas reconhecidas dentro das comunidades por terem conhecimento sobre plantas medicinais, como raizeiras, mateiros, agricultores e rezadeiras. Um especialista indica outro, através de uma técnica chamada ‘bola de neve’, e assim conseguimos chegar às pessoas que realmente detêm esse conhecimento”, explicou Daniel Costa.

O pesquisador faz questão de sublinhar a função primária do estudo dentro da cadeia do conhecimento científico. “A nossa pesquisa não testa a eficácia farmacológica ou clínica das plantas, é importante deixar isso bem claro. O que ela oferece é uma base etnobotânica: mostra quais espécies são utilizadas, para quais finalidades são citadas e como são preparadas. Esses dados funcionam como uma etapa inicial, aproximando o conhecimento tradicional da pesquisa científica para subsidiar futuros estudos farmacológicos e, quem sabe, políticas de fitoterapia no SUS no Maranhão”, ressaltou. 

Quintais vivos e o protagonismo das folhas

Etapa de prensagem de espécimes vegetais coletados durante a pesquisa do PPGCIAMB/UEMASUL. O processo garante que as amostras fiquem preservadas para a identificação correta das espécies e estudos anatômicos em laboratório

Entre as espécies de maior destaque nas citações dos moradores, figuram nomes populares amplamente conhecidos no cotidiano maranhense, como o hortelã-pimenta, o mastruz, o hortelã-grosso, a erva-cidreira e o boldo. A pesquisa revelou padrões bem consolidados quanto ao manejo e ao uso desses recursos. A folha se consolidou como a parte vegetal mais utilizada nas preparações medicinais, enquanto o chá desponta como a principal forma de preparo dos remédios caseiros adotados pelas comunidades.

Nesse cenário, os quintais residenciais cumprem um papel fundamental ao funcionarem como os principais pontos de coleta e cultivo dessas plantas. Essa proximidade física entre os moradores e os recursos vegetais reflete uma integração harmoniosa entre a vegetação nativa extraída da mata e as espécies cultivadas trazidas de fora. 

Exóticas x Nativas: o alívio da pressão sobre a mata

Uma das grandes hipóteses que impulsionam o projeto é o conceito de redundância utilitária (avaliado por meio do índice Uredit). A ideia é verificar se a introdução e o cultivo de plantas exóticas (de fora da região) ajudam a “aliviar a pressão” de extração sobre as plantas nativas do ecótono Cerrado-Amazônia.

Foram realizadas 45 entrevistas e levantamento que revelou 769 registros etnobotânicos.

Embora os dados ainda estejam em fase de consolidação e classificação botânica, Daniel pondera que a forte presença de espécies cultivadas nos quintais indica um papel estratégico no cotidiano local. “Ainda seria cedo afirmar que as espécies exóticas estão reduzindo a pressão sobre as nativas. O que já percebe-se é uma presença importante de plantas cultivadas nos quintais. A ideia é verificar se uma espécie exótica está sendo utilizada para as mesmas finalidades de uma nativa e se isso pode representar uma substituição funcional. Só depois dessas análises estatísticas poderemos dizer se realmente existe esse efeito de aliviar a pressão de uso”, explica o pesquisador. 

Além do levantamento de campo, o projeto contempla o estudo anatômico das folhas em laboratório, utilizando técnicas de microscopia. A análise morfológica e anatômica das estruturas vegetais busca sanar dúvidas taxonômicas e criar diagnósticos seguros para espécies nativas da região que possuem pouca literatura científica disponível. 

Registro científico contra o esquecimento

Diante do risco de descontinuidade na transmissão oral entre gerações mais jovens, o registro etnobotânico surge como uma ferramenta de preservação histórica e cultural. Como devolutiva prática às comunidades pesquisadas, o projeto prevê ações de divulgação científica direta, palestras e a publicação de um guia impresso com as espécies registradas.

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