Revista Inovação FAPEMA

MAR QUE AVANÇA E HISTÓRIA QUE RESISTE: A ARQUEOLOGIA COMO SENTINELA DO CLIMA NA COSTA DO MARANHÃO

Sequência de camboas na Praia de Panaquatira, que estão em pleno uso pela população pescadora e mariscadora

Sequência de camboas na Praia de Panaquatira, que estão em pleno uso pela população pescadora e mariscadora

Arkley Marques Bandeira

Possui graduação em Licenciatura em História pela Universidade Estadual do Maranhão, Especialização em Educação Ambiental, mestrado em Arqueologia pela Universidade de São Paulo e doutorado em Arqueologia pela Universidade de São Paulo. 

O litoral maranhense, com sua vasta extensão e biodiversidade, guarda segredos que vão muito além da paisagem. Sob as marés e entre os manguezais, estruturas arqueológicas como os sambaquis e as camboas de pedra funcionam como verdadeiros “termômetros” da história da Terra. Por isso, estão sendo alvo de um estudo apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e o Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) para modelar as variações do nível do mar e prever os impactos das mudanças climáticas na costa maranhense.

Coordenado pelo Prof. Dr. Arkley Marques Bandeira, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o projeto “Abordagens transdisciplinares para caracterização e predição das flutuações do nível médio do mar e os possíveis impactos aos sítios arqueológicos das comunidades na Zona Costeira Maranhense” tem como objetivo inserir o estado nos estudos das mudanças climáticas e seus impactos no patrimônio arqueológico, uma preocupação global já apontada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) e Conselho Internacional de Museus (ICOM).

De acordo com dados do ano de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Maranhão a zona costeira compreende uma área de 40.219 km2 e engloba 35 municípios, o que corresponde a 13% do território do Estado.

 

 

 
Mapa com os sambaquis e as camboas da Ilha de São Luís

O projeto, integrado ao Plano Maranhão 2050, busca entender como o nível do mar subiu nos últimos 11 mil anos para projetar o que nos espera nas próximas décadas. “No aspecto prático, a pesquisa objetiva testar e confirmar as hipóteses de importantes geólogos e geomorfólogos brasileiros que estudaram o Quaternário e desde a década de 1970 já apontavam o potencial de unir os conhecimentos arqueológicos com as Ciências da Terra, no sentido de construir conhecimentos acerca dos diferentes estágios do nível médio do mar, utilizando-se como marco de referência os sítios arqueológicos costeiros, principalmente os sambaquis e outras estruturas arqueológicas ao longo do Holoceno”, explicou o pesquisador.

O Quaternário é o período geológico mais recente e atual da Terra. Caracteriza-se pelas Eras do Gelo, evolução humana, estabilização do clima no período atual entre outras. Já o Holoceno é a época geológica atual, iniciada há cerca de 11 mil anos após a última Era Glacial. É caracterizado por um clima estável, que permitiu o desenvolvimento da civilização humana, agricultura e expansão populacional. Geologicamente, as Épocas são espaços de tempo menores localizados dentro de um Período, que já englobam medições temporais maiores.

Camboa da Ponta do Bonfim, na área do Itaqui Bacanga, em 1960

Sambaquis e camboas de pedras como indicadores

Por isso, a importância dos sambaquis, que são pequenos montes de conchas e restos culturais, e das camboas de pedra, armadilhas de pesca indígenas montadas pelos indígenas que habitaram a região onde hoje fica a costa maranhense. Serão avaliados inicialmente 10 sambaquis e 10 camboas de pedra, selecionados com base em três critérios: existência de dados cronológicos já disponíveis, grau de vulnerabilidade aos impactos climáticos e relevância para uso científico e educacional.

Neste sentido, a lógica do estudo coordenado por Arkley Marques Bandeira é geoarqueológica e espaço temporal. “Sítios como as camboas de pedra, construídas por grupos Tupi, precisavam estar exatamente na zona entre marés para funcionar. Se hoje uma camboa está permanentemente submersa ou completamente seca e afastada da água, ela nos informa com precisão que a linha da costa mudou desde sua construção”, completa.

Ao cruzar a localização geográfica atual desses sítios com datações precisas, a equipe de pesquisadores que atua no projeto consegue reconstruir as antigas linhas de costa há 11 mil anos. O sítio, portanto, torna-se um documento tridimensional que ajuda a calibrar os modelos geológicos de teóricos como João José Bigarella, Kenitiro Suguio e Aziz Ab’Saber, cujos trabalhos são referência para o pesquisador.

Diferencial inovador

Para transformar vestígios ancestrais em dados que possam subsidiar ações futuras que possam mitigar os danos, a pesquisa utiliza ferramentas de última geração como o SMC-Brasil 3.0, um sistema de modelagem que quantifica as variações do litoral ao longo do tempo; o PETRA 3.0, que é um software que simula o impacto de ondas e marés nos perfis costeiros, permitindo prever a erosão em áreas de sambaquis; e o QGIS, uma plataforma de geoprocessamento que integra coordenadas geográficas a dados cronológicos.


Escavação arqueológica do sambaqui do Bacanga, em São Luís

“O diferencial inovador desta pesquisa é usar os sítios como pontos fixos de calibração. Ao modelar cenários do passado – como o Ótimo Climático (entre 8,5 mil e 5 mil anos atrás), quando o mar estava 3 metros acima do nível atual – podemos projetar, com base nos relatórios do IPCC, a vulnerabilidade do nosso patrimônio e das nossas cidades no futuro”, informa Arkley Marques Bandeira. O IPCC é o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) responsável por avaliar as evidências científicas relacionadas às mudanças climáticas no planeta.

Saberes tradicionais aliados à ciência

A ciência, neste projeto, não caminha sozinha. A pesquisa entende que pescadores, marisqueiras e extrativistas detêm uma memória territorial vital. Muitas vezes, a transmissão oral de uma comunidade sobre um ponto de pesca que “sumiu” ou um cemitério antigo tragado pelo mar confirma os modelos matemáticos gerados nos softwares, visto que estas comunidades estão na linha de frente dos impactos das mudanças climáticas.

 “Na Ilha de Igarapé Grande, em Turiaçu, famílias lutam para conter o avanço das águas que já destruiu o cemitério local. Esses locais são chamados de hotspots, que são áreas onde o risco ambiental é crítico”, alerta o pesquisador.

Comunidade marisqueira da Praia de Panaquatira, pescando e capturando mariscos nas estruturas de pedra das camboas

Com o segundo maior litoral do Brasil e uma posição estratégica na Margem Equatorial, o Maranhão tem a oportunidade de ser referência em políticas de adaptação. Desta forma, conclui o pesquisador, o objetivo final é que esses dados científicos robustos fundamentem políticas públicas de mitigação, garantindo que o patrimônio cultural e os modos de vida maranhenses não sejam apagados pelo avanço do oceano.

 De acordo com o IPHAN, atualmente, são conhecidos mais de 300 sítios arqueológicos e novas pesquisas estão sendo desenvolvidas, com destaque para a região dos Lençóis Maranhenses, vale dos rios Pindaré, Grajaú, Mearim, Parnaíba e região Tocantina. 

Elevação das moradias é uma medida para mitigar o avanço da praia em Turiaçu

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