Pesquisadores do IFMA estão desenvolvendo sistema preditivo que pode antecipar focos de incêndio

Francisco Marques de Oliveira Neto

Biólogo graduado pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), com mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela mesma instituição e doutorado em Medicina Tropical pela FIOCRUZ/IOC.
No IFMA Campus Bacabal, pesquisadores desenvolvem um sistema de inteligência artificial capaz de prever focos de incêndio antes que a ignição ocorra. Coordenado por Francisco Marques de Oliveira Neto, o projeto utiliza modelagem espacial e Redes Neurais para processar dados históricos e variáveis climáticas, substituindo a tradicional gestão reativa – focada no combate ao fogo já iniciado – por uma estratégia de antecipação. Financiada pela FAPEMA, por meio do edital “Plano Maranhão 2050: Soluções Inovadoras”, a iniciativa integra o sensoriamento remoto à gestão pública para reduzir danos ambientais e sociais.
O coração da pesquisa reside na fusão de dois mundos: os Sistemas de Informação Geográfica (SIG) e o Aprendizado de Máquina (Machine Learning). Enquanto o SIG funciona como uma análise técnica do território — sobrepondo camadas de umidade do ar, temperatura do solo e a declividade dos terrenos —, as Redes Neurais processam grandes volumes de dados para identificar padrões de risco.
Diferente dos modelos estatísticos convencionais, as Redes Neurais identificam padrões não lineares. O sistema analisa décadas de registros de queimadas no solo maranhense e correlaciona a queda da umidade com a proximidade de infraestruturas, como estradas e áreas de expansão agrícola. “Estamos saindo do monitoramento do que já está queimando para a predição do que pode queimar”, explica Francisco Marques.

O Custo da Omissão: Saúde Pública e Justiça Social
A poluição atmosférica derivada das queimadas não é apenas um dano ambiental, mas uma crise de saúde pública que onera o Estado e pune as populações mais vulneráveis. Ao suspender partículas tóxicas e aerossóis no ar, os incêndios provocam um aumento súbito em internações por enfermidades respiratórias e cardiovasculares.


“A falta de um sistema preditivo robusto dificulta a execução de políticas públicas eficazes para a gestão ambiental e a mitigação de incêndios florestais. Atualmente, a maior parte das estratégias de enfrentamento é reativa, sendo implementadas somente após o desencadeamento dos incêndios, momento em que os danos ambientais e econômicos já se tornam significativos”, destaca o coordenador do projeto.
Democracia Tecnológica e Soberania Estatal
A democratização da tecnologia é um dos pilares centrais da iniciativa, que busca romper o isolamento acadêmico e entregar soluções práticas a quem enfrenta o problema na ponta. O projeto prevê que a inteligência produzida nos laboratórios do IFMA seja disseminada por meio de uma rede interinstitucional de cooperação, incluindo oficinas presenciais e a produção de materiais instrutivos para agentes públicos locais.
“As oficinas tratarão da utilização do sistema, da interpretação de mapas e das estratégias de resposta. Serão criados manuais, vídeos instrutivos e diretrizes para a atualização das informações, visando facilitar a incorporação da ferramenta pelos usuários locais”, detalha o pesquisador.
Vanguarda Global com DNA Maranhense
A revolução tecnológica no combate a incêndios já é realidade em países como os Estados Unidos e a Austrália. Conforme reportado pelo jornal inglês The Guardian, agências na Califórnia utilizam algoritmos de IA para identificar focos de ignição em minutos — tarefa que antes levava horas. Esses sistemas simulam o comportamento futuro do fogo com base no vento e na vegetação, garantindo uma vantagem estratégica que salva vidas.

Enquanto nos EUA essa inovação é impulsionada por investimentos privados massivos, no Maranhão a solução nasce de uma instituição pública. A proposta de Bacabal adapta o estado da arte da ciência climática para o bioma pré-amazônico, provando que a tecnologia de ponta pode ser uma ferramenta de soberania de Estado.
Para o coronel Cleyton Cruz, coordenador da operação Maranhão Sem Queimadas-Protetores do Bioma, do Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão (CBMMA), a inovação é uma aliada fundamental. Em 2025, os bombeiros combateram mais de 6 mil focos de incêndio no estado. “A tecnologia contribui para uma resposta mais rápida e estratégica. Este sistema inteligente proposto no estudo pode somar significativamente nas ações de prevenção”, avalia o coronel.
Ao unir sensores globais (como MODIS e VIIRS) a uma modelagem espacial própria, a iniciativa da FAPEMA e do IFMA prova que a resposta para as queimadas não reside apenas no aumento do efetivo de combate, mas na capacidade de antecipação científica, transformando o Maranhão em um polo regional de resiliência climática.





