A pesquisa aborda a relação das crianças de Viana com as paisagens sazonais dos campos inundáveis, propondo novos tombamentos e a valorização do saber ancestral no currículo escolar.
José Raimundo Campelo Franco

Graduado em Geografia Licenciatura e mestre em Sustentabilidade de Ecossistemas pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pós-graduado Lato Sensu por duas vezes: em “Ensino da Geografia” e: “Orientação Educacional e Gestão Escolar”.
VENCEDOR DO PRÊMIO FAPEMA 2026
Categoria: Comunidades Tradicionais e Patrimônio Cultural (3º Lugar)
Título: Nas Ribeiras das Venezas e Pantanais: Infâncias Ribeirinhas como revitalizadores de memórias e indicadores de patrimônio cultural na Baixada Maranhense

Quando as águas dos lagos alimentados pelo rio Maracu sobem e cobrem os campos da Baixada Maranhense, a paisagem urbana e rural se transforma. Onde antes havia terra firme, surgem canais navegáveis e palafitas suspensas. Para os adultos, o período das cheias exige adaptação na rotina de trabalho e deslocamento. Já para as crianças ribeirinhas , o cenário transborda em um território de descobertas, brincadeiras e produção viva de cultura.
Essa relação profunda entre a infância, as cheias sazonais e a memória territorial é o tema central do livro e projeto de pesquisa “Nas ribeiras das venezas e pantanais: criançando uma geografia de águas, campos e brincadeiras na Baixada Maranhense”, de autoria do professor Dr. José Raimundo Campelo Franco, docente da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). O estudo etnográfico acompanhou crianças e famílias do município de Viana entre os anos de 2019 e 2024, investigando como os pequenos constroem memórias e identidades nas chamadas “beiras-de-campo”, “puções” e “ruas-venezas”.
Para o pesquisador, que ganhou o Prêmio FAPEMA 2026 na categoria Comunidades Tradicionais e Patrimônio Cultural, o modo como essas crianças interagem com os campos inundáveis resgata uma ancestralidade milenar. “As crianças dos campos inundáveis de Viana não são meras espectadoras do ambiente. O ‘piqueno das águas’ é um produtor ativo de cultura, de memória e de geografia. Quando uma criança brinca em uma rua-veneza ou em um banho de pução, ela está reativando a memória ancestral dos povos que habitam a Baixada Maranhense há milênios”, afirma José Raimundo.
O patrimônio vivo das “ruas-venezas” e o conceito de “geolugrafia”

O estudo critica a visão tradicional sobre patrimônio cultural, que frequentemente prioriza casarões, monumentos e centros urbanos históricos, deixando invisíveis as práticas imateriais e os modos de vida tradicionais das populações ribeirinhas.
Ao documentar as brincadeiras infantis, o autor sistematizou neologismos e conceitos geográficos inéditos. Entre eles destaca-se a “beira-de-campo”, que define o espaço de transição entre as moradias e as planícies, e a “geolugrafia”, neologismo que traduz o espaço vivido e transformado pelos afetos e pela percepção da infância.
José Raimundo defende que esses espaços cotidianos constituem patrimônios vivos que precisam ser institucionalizados. “A visão tradicional de patrimônio cultural costuma focar apenas em monumentos ou prédios históricos do centro urbano. Mas na Baixada Maranhense, o patrimônio é vivo e dinâmico. A ‘beira-de-campo’ e as ‘ruas-venezas’ formadas pelas cheias são espaços de memória, afetividade e pertencimento que precisam ser reconhecidos e protegidos pelas políticas públicas”, pontua o docente.
Mapeamento das microestações e propostas para a gestão pública
Uma das principais contribuições científicas do trabalho foi o mapeamento inédito das quatro microestações da Baixada Maranhense: a estação “Das Inundações” (configuração de pantanal), “Das Cheias Plenas” (configuração de veneza), “De Vazão” (várzeas) e “Da Seca” (campestre).

A partir desse diagnóstico socioambiental, o projeto apresenta propostas concretas de políticas públicas para os municípios da região. O trabalho sugere o tombamento do Padrão Arquitetônico Vernacular das vilas de palafitas junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e defende o planejamento de infraestruturas comunitárias adaptadas às cheias: “como passarelas fixas e ‘pracinhas-venezas’ que funcionem como playgrounds aquáticos seguros durante as enchentes”, detalha o autor.
Impacto na educação e transposição didática
Além do impacto na gestão territorial, a pesquisa dialoga diretamente com as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e da Geografia Escolar Decolonial. Os achados da pesquisa foram transformados em materiais paradidáticos, fotopoesias, paródias e cartografias afetivas que já estão sendo utilizadas no ensino de graduação na UFMA (Campus Pinheiro) e em escolas da educação básica no interior.
O autor enfatiza que a educação precisa refletir a realidade local do estudante baixadeiro. “Nossa pesquisa busca trazer uma Geografia Escolar Decolonial, que considere o saber do aluno do interior. Precisamos levar os conceitos das geolugrafias e das microestações dos campos para dentro do currículo das escolas, permitindo que a criança da Baixada veja a sua própria realidade estampada nos livros didáticos”, argumenta o pesquisador.
Devolução comunitária e afeto
Longe de se limitar a relatórios acadêmicos, o projeto destacou-se pela permanente restituição comunitária. Ao longo dos cinco anos, foram promovidos encontros, exposições fotográficas, lançamentos de livros em eventos científicos e rodas de conversa com as próprias crianças e responsáveis, garantindo que os sujeitos da pesquisa se reconhecessem como coautores da obra: “Trabalhar junto às famílias e crianças em Viana nos ensinou que o conhecimento científico só ganha sentido se for compartilhado com a comunidade. Escrever esse livro foi uma forma de registrar a poesia do cotidiano ribeirinho e transformar a vivência do ‘criançar’ em um manifesto de valorização do nosso patrimônio socioambiental”, conclui o autor.





