
Publicado em 2024 pela Editora da UFRJ, o livro Quem não tem cão, caça com gato: estudando a gambiarra, de autoria de Sabrina Seldmayer, professora titular da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisadora do CNPq, constitui uma joia rara por permear um universo tão nosso conhecido, mas tão pouco estudado cientificamente. Por mais de quinze anos, Sabrina tem estudado o assunto e o livro dele decorrente consiste numa tentativa de dar vazão a uma leitura da “gambiarra” para além dos muros cotidianos, de modo a adentrar o âmbito da arte e da cultura brasileira.
No formato de livro de bolso, o pequeno exemplar fisga o leitor pelo denso conteúdo em torno de uma velha prática, utilizada, sobretudo, pela população mais pobre. Desde técnicas de improviso em que são aproveitados materiais e resíduos para uso artesanal, perpassando pela “necessidade elástica” que, em sendo global, atinge os países “periféricos”, obrigados a buscarem alternativas diante da falta de recursos, até a sua transformação em objetos artísticos absolutamente originais e autênticos.
Sabrina argumenta que a “precariedade da vida aciona um modo de engrenagem de práticas que podem ser denominadas de ‘gambiarra’” (Seldmayer, 2024, p. 45), valendo-se de exemplos ilustrativos de Cuba que, até os dias atuais, tem se valido dessa estratégia para superar ou suportar a ausência de recursos suficientes para a condução da vida cotidiana. Para tanto, recheia o livro de imagens sui generis, como o de uma bicicleta (a rikimbili cubana) à qual foram acoplados motores, de modo a garantirem maior velocidade na mobilidade, além de manuais ou antologias pedagógicas, lançadas durante o governo de Fidel Castro, que ensinavam o compartilhamento de experiências com o intuito de “reforçar ‘o espírito combatente’, ‘a capacidade de resistência’, ‘a valentia’, a ‘fé’ na vitória cubana’” (Seldmayer, 2024, p. 49).
Antes de mais nada, as gambiarras são carregadas de inventividade, indisciplina, engenhosidade, não se submetendo às amarras capitalistas que imprimem normas de consumo cultural e tecnológico. Não importa a faceta mercadoria, antes a sua materialidade. Curiosamente, Sabrina sustenta que a gambiarra “negocia dentro do essencialismo do discurso nacional e encara o desafio de carregar seu sotaque num mundo globalizado” (Seldmayer, 2024, p. 58). No campo artístico e estético, o cenário é bem impactante, haja vista a desconstrução da produção do belo, do paradigma da beleza, que remonta desde as vanguardas europeias, na mão de artistas como Marcel Duchamp e Andy Warhol, e o que é possível identificar no Brasil a partir, por exemplo, da arquiteta Lina Lo Bardi, afeita à produção cultural do artesanato, que levou para o “espaço aurático do museu” uma inédita história da arte brasileira, construída sob o lema da experimentação, seja do lixo, do refugo, seja do resto industrial.
Imagens dessa produção artística no livro não faltam: bules feitos a partir de latas de manteiga salgada, canecas a partir de latinhas de lubrificantes, lamparinas a partir de lâmpadas queimadas. Por fim, Sabrina lança luz sobre a cena literária, trazendo para o palco do discurso a obra renomada de Carolina Maria de Jesus: Quarto de despejo – diário de uma favelada (1960) sobre a qual tece uma série de considerações em torno da “cartografia do lixo”. Carolina, na visão de Sabrina, “elabora uma mistura de mundos e de línguas ao colocar em prática experimentações improvisadas diante das adversidades vividas” (Seldmayer, 2024, p. 82). Palavra intraduzível, “despejo” não se resume a resto ou a refugo, antes se associa à desobediência e à subversão. Além de Carolina, outros artistas são suscitados, nomeadamente os poetas que vivenciam a cultura digital contemporânea, valendo-se da apropriação e da colagem.
Este estudo não tem fim, como sugere o subtítulo do livro. O que Sabrina salienta, em suas linhas gerais, é que a gambiarra não deve ser vista apenas como resposta inovadora diante das adversidades, sob o risco de persistirem as desigualdades socioeconômicas. Antes como pulsão contraditória, viva, túrgida de fragilidades.





