Revista Inovação FAPEMA

FLORA MARANHENSE SERÁ CATALOGADA EM BANCO DE DADOS INÉDITO PARA CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE

Projeto da UEMASUL cria plataforma para mapear espécies e somar com estratégias frente às mudanças climáticas

Atividade de levantamento florístico-arbóreo em fragmento florestal do Bioma amazônico no Maranhão

Antônio de Carvalho

Bacharel e licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), mestre em Ciências Florestais pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e doutor em Ciência e Tecnologia Ambiental pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). É professor da UEMASUL e da Rede Estadual de Educação Básica (CE União).

Nas últimas décadas, a expansão das atividades agroindustriais em direção aos biomas Amazônia e Cerrado tem se configurado como fator de pressão ambiental. Esta ação humana vem impactando diretamente a dinâmica desses ecossistemas. No Maranhão, esse processo se mostra preocupante e desafiador, tanto para as populações locais quanto para os componentes da natureza. O cenário aponta a necessidade de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável, capazes de conciliar crescimento econômico, conservação ambiental e bem-estar social.

Neste contexto, iniciativas científicas com foco na compreensão e  monitoramento dos recursos naturais, tornam-se importantes para subsidiar estratégias de conservação e gestão ambiental. Estudo inovador desenvolvido no Maranhão resultará na criação de uma plataforma, chamada FloraMa 1., capaz de mapear espécies arbóreas do estado com base em modelagem ecológica e projeções de mudanças climáticas. 

A pesquisa é de autoria do doutor em Ciência e Tecnologia Ambiental e pesquisador Antônio Expedito de Carvalho, da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL). A plataforma funcionará como um banco de dados georreferenciado, reunindo informações que auxiliam no monitoramento, conservação e planejamento ambiental da flora maranhense.

Segundo o pesquisador, o objetivo central é estruturar uma base robusta de dados capaz de apoiar decisões estratégicas. “Estamos criando uma ferramenta científica que permita compreender onde as espécies ocorrem hoje e como poderão se distribuir no futuro, diante das mudanças climáticas”, ressaltou Antônio Expedito de Carvalho. 

Mapa mostra diminuição das áreas florestais com aumento das pastagens e monoculturas

O estudo parte da constatação de que o avanço do desmatamento e da expansão agroindustrial no Brasil, especialmente na Amazônia e no Cerrado, tem alterado profundamente os ecossistemas. No Maranhão, onde coexistem três biomas e ecótonos de alta relevância ecológica, os impactos são ainda mais sensíveis. Neste cenário, o FloraMa 1.0 permitirá integrar dados ambientais de solo e uso da terra, combinados com variáveis ecofisiológicas, para gerar modelos preditivos de distribuição de espécies arbóreas.

A construção da base de dados vem de levantamentos parciais que já somam mais de 120 mil registros de ocorrência, os quais estão sendo submetidos a rigoroso processo de curadoria taxonômica e geográfica. Isso inclui raspagem de dados, validação de geolocalização e atualização nomenclatural, garantindo a consistência e a confiabilidade das informações que alimentarão os modelos. 

Considerando que apenas as angiospermas somam cerca de 37.214 espécies no Brasil, 14.742 ocorrentes na Amazônia, 14.239 no Cerrado e 6.435 na Caatinga, o recorte taxonômico e geográfico do FloraMa 1.0 representa um dos mais ambiciosos esforços de sistematização florística já empreendidos no estado.

A inovação está no fato da criação do FloraMa 1.0 ser o primeiro banco de dados georreferenciado das espécies arbóreas do Maranhão. “Será um marco no estudo botânico, taxonômico, sistemático, evolutivo, fitogeográfico e ecológico da flora arbórea estadual. Com a criação e disponibilidade do banco de dados espera-se que toda a rede de pesquisadores em Ciência Vegetal utilize e aprimorem esta plataforma para ampliar conhecimento”, observa o pesquisador.

O projeto conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA). O estudo está alinhado às diretrizes do Plano Maranhão 2050, na área Meio Ambiente Valorizado e Resiliente e contribui diretamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).

Biodiversidade do Maranhão

Os três biomas presentes no Maranhão figuram entre os mais biodiversos do planeta. A Amazônia abriga 14.742 espécies de plantas, o Cerrado 14.239 e a Caatinga 6.435, conforme o Programa Reflora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Esse universo inclui todas as formas de vida vegetal com flores, ervas, arbustos, lianas, epífitas e árvores. Ou seja, o componente estritamente arbóreo representa uma fração desse total, ainda assim extraordinariamente rica e, no caso do Maranhão, subinventariada.

A dinâmica do uso e ocupação da terra nos últimos 40 anos tem avançado com o desmatamento na Amazônia Oriental e o avanço da agropecuária e das atividades da siderurgia e agroindústria de celulose. No Cerrado, acrescente-se a monocultura da soja e do algodão com impactos regionais ainda grandemente desconhecidos. Paralelamente, os estudos de ecologia florestal e mudanças climáticas estão cada vez mais robustos, com uso intensivo das tecnologias digitais e muitas alternativas sendo propostas. Um dos desafios é compreender o padrão de distribuição das espécies florestais, através da modelagem ecológica de nicho.

 Estratégia de ação

A modelagem ecológica terá foco prioritário nas espécies vulneráveis, classificadas como ameaçadas ou sob risco de extinção pelas listas nacionais e internacionais, e nas espécies de consagrado uso etnobotânico pelas comunidades maranhenses, reconhecendo o valor do conhecimento tradicional como dimensão indissociável da conservação da biodiversidade.

A proposta é transformar dados dispersos em conhecimento aplicado à conservação. Isso significa identificar áreas prioritárias, orientar restauração florestal e apoiar políticas públicas mais eficientes. A modelagem será realizada com base em cenários climáticos globais definidos pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), utilizando os Caminhos Socioeconômicos Compartilhados (SSP) e projeções do Projeto de Intercooperação de Modelos Acoplados.

Pesquisadores da UEMASUL participam do projeto que tem como principal objetivo estruturar uma base robusta de dados para subsidiar decisões estratégicas

As projeções abrangem os horizontes temporais de 2030, 2050 e 2070, sob diferentes trajetórias de emissão de gases de efeito estufa, permitindo avaliar cenários de distribuição potencial das espécies em condições climáticas progressivamente mais adversas. Esses sistemas projetam diferentes níveis de emissões de gases de efeito estufa e os desafios para a mitigação e adaptação climática, abrangendo o período de 2030 a 2100.

Além do avanço científico, o projeto prevê impacto direto na formulação de políticas ambientais e na gestão territorial, incluindo estratégias de mitigação climática, sequestro de carbono e implantação de sistemas agrossilvipastoris (produção sustentável que integra agricultura, pecuária e florestas). As informações geradas subsidiarão, ainda, políticas públicas estaduais voltadas à produção de mudas das espécies mapeadas, com potencial de articulação com viveiros institucionais e programas de restauração ecológica, ampliando a cadeia de impacto do conhecimento científico produzido.

A iniciativa também se articula com programas estruturantes como Maranhão sem Queimadas e Maranhão Verde, ampliando a integração entre ciência, gestão pública e desenvolvimento sustentável. “Estamos falando de uma ferramenta que conecta pesquisa, conservação, passado, presente e futuro”, concluiu o pesquisador. O estudo possui vice-coordenação do professor Sílvio Cortez e Silva, com participação de pesquisadores da UEMASUL e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA), além de alunos de graduação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *