A integração entre fomento público e inovação técnica como pilar para o desenvolvimento da produção cinematográfica maranhense
Tássia Duhr

Atriz, roteirista e diretora. Atua como coordenadora da Jaguatirica Filmes e proponente do projeto Laboratório de Audiovisual.
O cenário do audiovisual no Maranhão está atravessando uma mudança de paradigma: a transição de uma produção isolada para a integração em uma cadeia produtiva de alta performance. Este movimento é capitaneado pelo LACINE – Laboratório de Audiovisual, um projeto que não se limita ao fomento cultural, mas se estabelece como um ativo estratégico de desenvolvimento econômico e tecnológico.
Aprovado pelo edital Tecnova III – fruto de uma parceria entre a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e a FAPEMA, o laboratório fundamenta-se na premissa de que o cinema, na era do streaming, é um campo fértil para a inovação e o intercâmbio de capital intelectual.
Historicamente, o investimento em ciência e tecnologia costuma ser associado a laboratórios de bancada. No entanto, o apoio da FAPEMA à 2ª edição do LACINE ampliou a programação do evento, que ocorreu há um ano, e redefiniu o audiovisual como uma área de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

A inovação, aqui, manifesta-se na metodologia: o uso de Script Doctors (consultores de roteiro) para elevar a qualidade técnica de projetos locais e a realização de rodadas de negócios com grandes players do mercado nacional.
A presença de produtoras como a Conspiração Filmes (responsável por sucessos globais como 3% e Dom) e a Pródigo Filmes (de Coisa Mais Linda e Cidade Invisível), ambas com forte atuação na Netflix, sinaliza que o objetivo do LACINE foi preparar o profissional maranhense para o rigor técnico e comercial exigido pelas plataformas internacionais de streaming.

Para Tássia Duhr, coordenadora do projeto, a iniciativa preencheu uma lacuna histórica de capacitação e instrumentalização no estado. Segundo ela, o foco residiu em transformar o talento local em uma força competitiva. “A nossa intenção foi, além de oferecer a formação gratuita, construir uma vitrine dos projetos locais para alcançar o mercado nacional, aproximando fluxos de negócios e criatividade”. Duhr destaca que o impacto do projeto visou a inserção definitiva do estado na economia criativa brasileira: “Queremos entrar na cadeia produtiva nacional do cinema”.

Resultados e Legado Estrutural
Cerca de 140 pessoas participaram das atividades formativas, que incluíram desde técnicas de atuação e direção até estratégias de mercado e pitching. Mais do que formação, o projeto entregou produtos concretos, como a produção de selftapes profissionais para atores e o desenvolvimento de três projetos selecionados para mentorias profundas com consultores especializados.
O investimento em infraestrutura também foi notável. O relatório técnico aponta a aquisição de equipamentos de ponta, como câmeras, lentes, gimbals e unidades de processamento (SSDs e notebooks), garantindo que o laboratório funcionasse com o que há de mais moderno na técnica cinematográfica.
Metodologia Prática e Resultados Concretos
A conexão entre nomes estabelecidos do cinema e novos talentos foi a espinha dorsal da segunda edição do LACINE. Para o cineasta Lucas Sá, o convite da Jaguatirica Filmes proporcionou uma experiência de via dupla: ao organizar suas referências de roteiro, enquadramento e montagem para cerca de 30 alunos, o diretor também refinou sua própria prática. “Consegui formular um processo meu e passá-lo para os alunos dentro de um aprendizado mais formal”, revela Sá.

O rigor técnico do laboratório foi testado em um desafio de 24 horas: transformar o aprendizado de uma semana em curtas-metragens de cinco minutos. O resultado superou as expectativas, gerando dois filmes — um de ficção e um documental. O destaque ficou para o curta “Crash”, que ganhou grande visibilidade após a oficina. “Apesar de ter sido fruto de uma oficina com apenas 24 horas para gravar, editar e exibir, o filme gerou uma repercussão incrível, circulando por festivais respeitados como a Mostra de Tiradentes e o Maranhão na Tela”, destaca Lucas Sá.
Perspectivas: O Hub do Futuro
O sucesso do LACINE aponta para a consolidação de um hub regional de desenvolvimento audiovisual. A meta, agora, é a institucionalização deste modelo, permitindo que produções maranhenses circulem não apenas em festivais nacionais, mas também em mercados internacionais e grandes catálogos de streaming.
Ao unir o fomento à ciência (FAPEMA/FINEP) com a potência criativa local, o Maranhão deixa de ser apenas um cenário de beleza natural para se tornar um polo de exportação de conteúdo, tecnologia e identidade cultural para o mundo. A continuidade de editais periódicos para formação técnica e desenvolvimento de projetos é vista como vital para manter esse ecossistema audiovisual estruturado e competitivo.





