Estudo financiado pela FAPEMA identifica, pela primeira vez no Maranhão, a ocorrência natural de parasitoides de ovos da lagarta-do-cartucho
Solange França
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Graduada em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, graduação em Licenciatura Agrária pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, mestrado em Entomologia Agrícola pela Universidade Federal Rural de Pernambuco e doutorado em Entomologia Agrícola pela Universidade Federal Rural de Pernambuco e pós-doutorado na Universidade Federal do Piauí (PNPD/CAPES/PPGA-AT/UFPI).
No coração do cerrado maranhense, pode estar na própria natureza a solução para o controle da lagarta-do-cartucho – praga conhecida por causar prejuízos significativos às lavouras. Uma pesquisa está investigando alternativas sustentáveis para o controle da lagarta na produção de milho e já apresenta resultados que sinalizam novos caminhos para o manejo agrícola na região.
O controle biológico com uso de parasitóides é consolidado no cenário nacional, mas ainda não aplicado em Balsas.
A pesquisa conduzida pela cientista Solange França está ganhando relevância ao identificar, pela primeira vez no Maranhão, a ocorrência natural de parasitoides de ovos da lagarta-do-cartucho — pequenos insetos popularmente conhecidos como “vespinhas”. Entre eles, destaca-se o Telenomus remus, espécie já reconhecida em outras regiões pela sua eficiência no controle biológico.
Esses insetos atuam de forma estratégica: depositam seus ovos dentro dos ovos da lagarta, impedindo que ela chegue a se desenvolver. Na prática, o problema é interrompido antes mesmo de causar danos à lavoura.
Além do Telenomus, a pesquisa também registrou a presença de parasitoides do gênero Trichogramma, reforçando a existência de um conjunto de inimigos naturais já adaptados às condições do Cerrado Maranhense.
“Conseguimos demonstrar em laboratório que esses organismos têm alta eficiência no parasitismo, mesmo em diferentes densidades de ovos da praga”, explica a pesquisadora, que conta com apoio da FAPEMA para executar a pesquisa.
Do campo à economia
Outro desdobramento relevante da pesquisa está no potencial de criação de mais biofábricas no Maranhão.
Como os parasitóides identificados já estão adaptados às condições locais, sua produção em escala pode se tornar viável, abrindo novas oportunidades de negócios, geração de emprego e fortalecimento da economia regional.
Outro passo importante são reuniões que já aconteceram com duas empresas do setor do controle biológico para apresentação dos resultados e a possibilidade de lançar esse produto de forma comercial.
A pesquisadora Solange França informou que três empresas que fabricam bioinsumos a procuraram interessadas numa parceria para a produção massal desses parasitoides para fins comerciais em grande escala.

Alunos de agronomia da UEMA, que são bolsistas de iniciação científica, durante instalação de campo experimental
Testes em campo
Apesar dos avanços, os pesquisadores reforçam que os resultados não representam uma solução definitiva. A investigação segue em andamento, especialmente com testes em campo que possam validar a eficácia dos parasitóides em condições reais.
A cautela acompanha a própria complexidade do problema. A lagarta-do-cartucho já apresenta sinais de adaptação a tecnologias amplamente utilizadas, como o milho Bt — evidenciando que o manejo precisa ser dinâmico e integrado.

“O uso de inimigos naturais não elimina completamente outras estratégias, mas contribui para reduzir a dependência de inseticidas e aumentar a eficiência do controle”, afirma Solange França.


Ciência que nasce do território
O estudo também evidencia o papel estratégico do investimento em ciência aplicada à realidade local. O apoio da FAPEMA e de instituições parceiras foi essencial para viabilizar todas as etapas da pesquisa.
Esse tipo de iniciativa fortalece a conexão entre pesquisadores e produtores, ampliando a aceitação e a aplicação das tecnologias desenvolvidas. “A ciência transforma desafios em oportunidades. Quando investimos em pesquisa, conseguimos desenvolver soluções adaptadas à nossa realidade”, destaca a pesquisadora.
Ainda em Balsas, Solange França realizou mais duas pesquisas. Uma delas o título do estudo foi: Manejo de Mononychellus planki e Tetranychus desertorum em soja no Cerrado Maranhense: bioecologia, resistência de plantas e controle químico, financiada por meio de um Acordo de Cooperação Técnica – Bolsas Produtividade Estaduais CNPq/FAPEMA e também a pesquisa intitulada: acaroufauna e aspectos bioecológicos de ácaros associados a culturas da soja e do feijão em Balsas-MA.
Maranhão se destaca na produção de grãos
De acordo com a publicação do Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (IMESC), “Desempenho da Agricultura Maranhense 2024”, o estado do Maranhão se destaca cada vez mais no setor agrícola a nível regional e também nacional.
A publicação, veiculada em novembro do ano passado, apontou que em 2024 o Maranhão foi o segundo estado da região Nordeste no que se refere ao índice de Valor de Produção (VP), quando registrou o montante de R$ 12,9 bilhões nas atividades agrícolas — que englobam lavouras temporárias e permanentes. No ranking nacional o estado ocupou a 12ª posição.
As culturas de soja, milho e arroz, que representam mais de 90% da área plantada no Maranhão, respondem por quase a maioria do valor gerado. As três somaram cerca de 12,7 bilhões.
Os dados do IMESC, baseados nas informações da Produção Agrícola Municipal (PAM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontaram que, em termos de área cultivada, a soja lidera com 63,1%, seguida pelo milho (24,0%) e pelo arroz (3,7%).
Além do município de Balsas, com 611,1 mil toneladas, também se destacam os municípios de Tasso Fragoso (606 mil toneladas), seguidos por Açailândia, Alto Parnaíba, Buriticupu, Itinga do Maranhão e Grajaú. O plantio de soja já abrange 82 municípios maranhenses.
Colheita do milho acontece até o mês de agosto
Ocupando o segundo lugar em área cultivada, o milho ganha cada vez mais espaço na produção de grãos no Maranhão.
De acordo com dados divulgados no dia 14 de abril pelo Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), pesquisa mensal realizada pelo IBGE, a previsão é de que o estado alcance, na safra 2025/2026, uma produção de 2.746.678 toneladas. Os números indicam o crescimento da produção do milho, bem como da produtividade, visto que nas safras anteriores a cultura atingiu 2.291.243 toneladas na safra 2023/2024 e 2.706.679 toneladas na safra 2024/2025.
Os estudos realizados pelo IBGE informam que o plantio da primeira safra de milho foi realizado entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026. As lavouras encontram-se em desenvolvimento vegetativo, floração, enchimento de grãos e início de maturação. As chuvas regulares de fevereiro beneficiaram todas as regiões produtoras e a colheita dos grãos de milho já iniciou este mês e deve acontecer até o mês de agosto.

Pesquisas em outras regiões
Dado o crescimento da produção de milho em todo o Estado do Maranhão os desafios também crescem e as pesquisas são fundamentais para contribuir com uma agricultura sustentável, a exemplo da pesquisa da professora Solange França, realizada no município de Balsas.

Em outros municípios, pesquisadores também contribuem para isso, como é o caso do Daniel dos Santos Rodrigues, pesquisador da UEMA que desenvolveu o projeto “Fitossociologia de plantas espontâneas em milho-verde consorciado com mucuna-anã em sistema agroecológico”, com o apoio da FAPEMA por meio da Bolsa de Iniciação Científica.
A pesquisa teve como objetivo avaliar o consórcio mucuna anã (Mucuna cinereum) em consórcio com milho-verde (zea mays L.) em diferentes arranjos espaciais (na mesma linha de plantio, nas entrelinhas e combinando as duas formas) em sistema agroecológico para supressão da vegetação espontânea para o melhor estabelecimento da cultura principal avaliando o seu efeito sobre a produtividade.
Na pesquisa foi observado que a presença da mucuna altera o crescimento das plantas espontâneas e que o plantio junto com o milho muda o comportamento do “mato” na área. Isso pode ajudar no manejo dessas plantas e influenciar o desempenho da lavoura, podendo favorecer o desenvolvimento do milho.
Os estudos do pesquisador José Henrique dos Santos Nascimento, intitulado “Efeito do biocarvão de resíduos de casca do coco babaçu no metabolismo bioquímico do milho no Leste Maranhense”, avaliou como o uso de biocarvão (um tipo de carvão vegetal rico em nutrientes) produzido a partir da casca do babaçu influencia o desenvolvimento do milho na região Leste do Maranhão.
O pesquisador é da Universidade Federal do Maranhão, Campus Chapadinha e os resultados apontaram que o biocarvão de babaçu funciona como um “ajuste fino” na nutrição do milho. Quando usado na medida certa, potencializa o desenvolvimento da planta e contribui para uma agricultura mais eficiente e sustentável.





