Projeto estuda cultivo desta espécie para agregar valor à produção agrícola
Weverton Rodrigues

Doutor e mestre em Produção Vegetal pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). Possui graduação em Engenharia Agronômica pela UENF e formação técnica em Agropecuária pelo Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Bastos Borges (CTAIBB/UFF).

A base do setor agrícola maranhense é fortemente a cultura de grãos como soja e milho. Mas a cafeicultura do tipo conilon pode se tornar uma oportunidade promissora para ampliar o valor agregado da produção agrícola. O cultivo do produto traz a possibilidade de abrir novas frentes de renda e fortalecer o agronegócio local, criando um ambiente mais dinâmico para agricultores e empreendedores.
Este novo cenário para a agricultura maranhense está sendo avaliado no projeto ‘Inserção do café conilon no Estado do Maranhão – uma nova cultura, uma nova perspectiva’, desenvolvido pelo doutor em Produção Vegetal e professor do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (Uemasul), Weverton Pereira Rodrigues.

Em estágio inicial, o projeto se concentra na região sul do Maranhão, mas precisamente em Açailândia, devido às condições agroclimáticas favoráveis ao cultivo do tipo Coffea canephora, conhecido como café Conilon. A similaridade com regiões já consolidadas, como Rondônia, aponta expectativas positivas, em relação à boa adaptação da cultura.

“Espera-se que o café Conilon apresente boa adaptação às condições da região, com potencial produtivo elevado”, aponta Weverton Rodrigues. Ele ressalta ainda que, apesar disso, a ausência de estudos específicos sobre o desempenho de genótipos locais ainda é um entrave para a expansão desta cultura em larga escala. “O projeto pretende identificar elementos que possam assegurar a viabilidade deste cultivo”, acrescenta.
Para superar esse desafio, o projeto aposta em avaliações detalhadas que incluem produtividade, crescimento e resistência a estresses bióticos (interação com seres vivos) e abióticos (interação com elementos naturais do ambiente e químicos). As análises serão realizadas ao longo de diferentes períodos do ano e por vários ciclos produtivos. “Estamos conduzindo análises ecofisiológicas completas, justamente para entender como a planta responde às condições locais”, explica o professor. Esse acompanhamento contínuo é parte indispensável para validar o cultivo na região.
Um dos pilares da pesquisa é a identificação dos clones mais adaptados ao ambiente maranhense. Entre os critérios analisados estão produtividade, qualidade do grão e da bebida, além de características fisiológicas e nutricionais. O professor enfatiza que a seleção dos materiais genéticos será determinante para o êxito da cafeicultura no estado. Fatores econômicos também serão considerados, garantindo que a produção seja viável do ponto de vista comercial.
Experiências em outras regiões inspiram avanços do projeto maranhense. Estudos realizados no Centro-Oeste brasileiro já demonstraram que determinados genótipos do café Conilon conseguem apresentar bons rendimentos, mesmo em condições desafiadoras, como altitudes mais elevadas. Esses resultados apontam para a necessidade de ampliar a base genética estudada no Maranhão. A expectativa é que, com o avanço das pesquisas, seja possível desenvolver uma cultivar clonal adaptada às condições locais e consolidar uma produção no estado.

Sabor intenso – O café Conilon representa cerca de 25% a 35% da produção nacional, com destaque para o Espírito Santo, maior produtor do país, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). De origem africana, o café conilon é conhecido pela alta produtividade, resistência a pragas e sabor intenso, é amplamente utilizado na produção de cafés solúveis e em blends. Destaca-se também pela maior resistência a doenças, como a ferrugem, e à seca, graças ao seu sistema radicular mais profundo. Seu cultivo concentra-se em áreas de baixa altitude e clima quente, com forte uso de irrigação e materiais clonais. Rondônia, Bahia, Minas Gerais e Mato Grosso são outros estados com grande produção deste café.
Viabilidade agrícola e comercial
Antes mesmo da implantação completa dos experimentos, o projeto já despertou o interesse de produtores rurais e investidores. Agricultores do Maranhão e de estados vizinhos buscam informações sobre a viabilidade do cultivo. Empresas, instituições públicas e o setor financeiro já acompanham o desenvolvimento do estudo. “Esse movimento mostra que, quando o produtor demonstra interesse, toda a cadeia produtiva se mobiliza”, observa Weverton Rodrigues.
Um dos pontos relevantes do projeto é o potencial de reduzir desigualdades regionais. A cafeicultura pode favorecer o desenvolvimento de pequenas e médias propriedades, ampliando a participação da agricultura familiar. Neste sentido, a cultura do café tem grande capacidade de inclusão produtiva, especialmente em regiões que queiram diversificar suas atividades.
A introdução do café Conilon é uma estratégia para reposicionar o Maranhão no cenário agrícola nacional. Ao apostar em inovação e diversificação, o estado pode construir um modelo de desenvolvimento mais equilibrado e sustentável. Se confirmadas as expectativas, a cafeicultura poderá transformar o perfil econômico da região, consolidando o Maranhão como um novo polo emergente na produção de café no Brasil.
Pesquisa e produção
E para garantir que o conhecimento gerado chegue aos produtores, o projeto aposta em estratégias de comunicação direta. A implantação dos experimentos em campo já funciona como vitrine tecnológica. Estão previstas ações como dias de campo, participação em feiras agrícolas e uso de mídias digitais para ampliar o alcance das informações. O avanço da iniciativa também depende da atuação conjunta de órgãos públicos e privados. Instituições de extensão rural terão papel central na disseminação das tecnologias desenvolvidas. “É importante que esse conhecimento chegue de forma acessível aos agricultores, especialmente os pequenos e médios”, observa Weverton Rodrigues.
Com o avanço do projeto, novas frentes de pesquisa deverão ser incorporadas, incluindo temas como manejo de poda, irrigação, espaçamento e controle fitossanitário. Também estão previstos estudos sobre colheita e pós-colheita, aspectos essenciais para garantir a qualidade final do produto e sua competitividade no mercado. O projeto tem previsão de dois anos de desenvolvimento, nesta primeira etapa, mas, terá continuidade para obtenção de uma cultivar clonal para o estado do Maranhão.





