Espécies nativas surgem como alternativa para indústria de peixes ornamentais
Marcos Ferreira

Acadêmico do curso de Engenharia de Pesca (UEMA) e técnico em Aquicultura (IFMA), com forte atuação acadêmica e científica na área de ictiofauna. Foi Diretor-Presidente da empresa júnior ENGPESC (2023–2024).

Nas águas que recortam a Ilha de São Luís, um potencial ainda pouco explorado começa a ganhar forma científica e econômica. A diversidade de peixes nativos da região, muitas vezes invisível ao grande público, revela-se agora como uma oportunidade concreta para inovação, sustentabilidade e desenvolvimento regional. É nesse cenário que se insere a pesquisa de Marcos Paulo Pinheiro Ferreira, vinculada à Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

Com o título “Prospecção de espécies nativas de peixes da Ilha de São Luís como alternativas à indústria de peixes ornamentais”, o estudo parte de uma pergunta estratégica: por que depender majoritariamente de espécies exóticas, quando o próprio Maranhão abriga uma riqueza natural capaz de sustentar um mercado competitivo e sustentável?
Os resultados alcançados são expressivos. Ao todo, foram compiladas 249 espécies de peixes na região hidrográfica da ilha, das quais 87 são estritamente de água doce. A partir desse universo, 18 espécies foram selecionadas por apresentarem alto valor agregado e demanda no mercado ornamental. Entre as descobertas, destaca-se o primeiro registro oficial da espécie Megalechis thoracata, popularmente conhecida como Tamatá, um dado que amplia o conhecimento científico sobre a fauna regional.
A pesquisa se destaca por sua abordagem integrada, combinando um levantamento bibliográfico robusto com expedições de campo nas bacias hidrográficas locais. O resultado é a construção de uma base de dados inédita, que cataloga a biodiversidade regional e aponta caminhos práticos para a criação de uma cadeia produtiva sustentável no estado.
“Nosso projeto buscou enxergar a biodiversidade local com um olhar estratégico, identificando espécies que, além de sua importância ecológica, possuem alto valor no mercado ornamental. É uma forma de transformar conhecimento científico em oportunidade econômica para o Maranhão”, explica Marcos Paulo.
Além disso, o estudo evidenciou um gargalo importante: atualmente, cerca de 89% dos peixes comercializados por lojistas em São Luís são importados de outros estados. Esse dado reforça a dependência externa do setor e evidencia o potencial de substituição por espécies nativas, já validado pela pesquisa.
Ao propor o uso sustentável da ictiofauna local, o estudo apresenta um modelo direto de bioeconomia. Na prática, isso significa reduzir custos logísticos, estimular a produção local, gerar renda e abrir espaço para novos empreendedores. Ao mesmo tempo, contribui para a preservação ambiental, ao evitar a introdução de espécies exóticas que podem causar desequilíbrios ecológicos.
O financiamento do projeto faz parte do Edital de Bolsa de Iniciação Científica para alunos da UEMA, com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA).
“O apoio da FAPEMA foi essencial para que a pesquisa saísse do papel. A bolsa possibilitou a realização das coletas em campo e a construção de um banco de dados sólido, que hoje pode servir de base para decisões econômicas e ambientais no estado”, destaca o pesquisador.
A pesquisa também fornece subsídios importantes para políticas públicas, oferecendo dados concretos que podem orientar estratégias de manejo sustentável e incentivo à aquariofilia regional.

Cenário global – A relevância dessa discussão cresce à medida que a aquariofilia – prática de criar peixes, plantas e organismos aquáticos, se consolida como um setor expressivo no cenário global. Estima-se que o mercado mundial de peixes ornamentais movimente bilhões de dólares anualmente, impulsionado pela demanda crescente por aquários domésticos e corporativos. No Brasil, esse segmento também apresenta expansão contínua, sustentado pela ampla biodiversidade e pelo interesse crescente de consumidores, embora ainda enfrente desafios estruturais e dependa, em muitos casos, da importação de espécies.
Dentro da economia pesqueira, os organismos ornamentais ocupam um nicho estratégico de alto valor agregado. Diferentemente da pesca voltada ao consumo, a comercialização de espécies ornamentais pode gerar maior rentabilidade por unidade, além de demandar menor volume de captura, o que favorece práticas mais sustentáveis quando bem manejadas. Esse segmento já representa uma importante fonte de renda para comunidades em diferentes regiões do mundo, especialmente em áreas tropicais ricas em biodiversidade.
Baseada no uso sustentável de recursos naturais, bioeconomia é um dos principais vetores de desenvolvimento no século XXI, pois propõe conciliar crescimento econômico, conservação ambiental e inclusão social. No Brasil, país reconhecido por sua megadiversidade, a bioeconomia desponta como uma oportunidade estratégica, especialmente na Amazônia e em zonas costeiras, ao transformar ativos naturais em produtos e serviços de alto valor, com base em ciência e inovação.





