Revista Inovação FAPEMA

O ESPECTRO DA PESTE COLONIAL: COMO A VARÍOLA DEFINIU A POLÍTICA, A RAÇA E A SALVAÇÃO NO BRASIL DOS SÉCULOS XVI E XVII

Como os jesuítas transformaram as tragédias sanitárias em retórica de fé, poder e disciplina espiritual no Brasil colonial

Allef dos Santos

Doutorando e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Maranhão (PPGHIS/UFMA), instituição onde também obteve suas graduações em Licenciatura em História e Bacharelado em Direito, atuando ainda como professor substituto na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). 



Mapa histórico da América Portuguesa destacando a divisão das capitanias e as conexões marítimas entre a Bahia e o Norte colonial — eixos por onde circulavam mercadorias, populações escravizadas, discursos missionários e epidemias de varíola nos séculos XVI e XVII

 

Prancha médica ilustrando a evolução das lesões causadas pelas pústulas da varíola. Nos séculos XVI e XVII, a reação visível no corpo ulcerado era interpretada pelos missionários jesuítas como uma evidência do “flagelo divino” e da urgência da conversão espiritual

Muito antes de a medicina moderna mapear vírus e epidemias, a doença já era uma das ferramentas mais potentes de controle social, político e religioso no Atlântico colonial. Longe de ser um mero sobressalto biológico, a varíola — conhecida nas crônicas da época como “a peste das bexigas” ou “câmaras de sangue” — atuou como uma verdadeira lente de aumento sobre as divisões sociais, raciais e políticas da América Portuguesa. Este é o tema da pesquisa de doutorado desenvolvida por Allef Gustavo Silva dos Santos (orientado pelo profº drº Marcus Baccega)  no Programa de Pós-Graduação em História da UFMA. Diante de uma histórica escassez de dados estatísticos ou registros demográficos de óbitos dos séculos XVI e XVII, a investigação analisa como a varíola foi apropriada pela Ordem Jesuíta e conduzida a uma intensa “retórica do Além”.

A Rota microbiana do Atlântico

O fluxo constante de caravelas, mercadorias e seres humanos escravizados entre a Europa, a África e o Brasil sustentava uma intrincada rede de contágio. A varíola atingia com extrema violência os corpos sem imunidade prévia nas terras americanas, desorganizando populações inteiras. Os relatos reunidos na obra Cartas Avulsas (1550–1568) traduzem a dimensão desse colapso social e biológico. Em um documento de 1563, registra-se que a chegada de uma única nau a Ilhéus alastrou uma epidemia devastadora: “Escassamente deixou viva a quarta parte dos moradores da Bahia”, acumulando um saldo estimado em “passante de trinta mil almas” mortas.

Gravura médica mostrando as lesões da varíola no braço, cuja devastação nos corpos era ressignificada pela retórica religiosa dos séculos XVI e XVII

Em cartas enviadas do Espírito Santo em 1558, missionários diziam que a peste avançava “cortando a espada da ira de Deus” e matando em até seis dias. Nas aldeias onde a mortalidade era devastadora, faltavam recursos humanos: “não havia quem olhasse pelos doentes, nem que fosse por um cabaço [vasilhame] d’água à fonte”. Diante dos enterros em massa, o som dos sinos foi proibido para evitar o desespero coletivo, e a figura do sacerdote passou a ser ressignificada pela população: “já não chamavam ao Padre senão o que leva os mortos”.

A morte no período colonial esteve longe de ser um evento biologicamente neutro ou demograficamente igualitário. Segundo Allef Gustavo, no regime missionário colonial a varíola funcionou simultaneamente como fenômeno biológico, evento retórico e operador de poder. O Pesquisador explica que a gestão da morte na colônia assumiu contornos de necropolítica: “A produção de mortos desiguais — indígenas não batizados, degredados, escravizados — é parte constitutiva da ordem colonial”, afirma Allef. Enquanto o modelo europeu clássico tendia a suavizar ou ocultar o morrer, nas terras coloniais a varíola revelava a face mais violenta da hierarquização social e da desumanização, ao separar os corpos que mereciam assistência espiritual dos que seriam simplesmente descartados.

O Triunfo da Morte (1562), de Pieter Bruegel. A iconografia europeia que retratava o apocalipse e o julgamento divino inspirou a retórica com que os jesuítas significavam o sofrimento e a morte por varíola no colonialismo.

O corpus da pesquisa: das boticas ao legado de Vieira

Para reconstruir o modo como a epidemia de varíola foi ressignificada nesse ambiente colonial, a pesquisa de Allef Gustavo, apoiada pela FAPEMA, referenciou-se em  acervos do Brasil e de Portugal — como o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, a Biblioteca Nacional e o Arquivo Público do Estado do Maranhão. Longe de serem tratados como relatórios neutros, esses documentos são analisados como construções discursivas elaboradas em contextos específicos de catequese, administração missionária e circulação atlântica de saberes.

O núcleo central do estudo fundamenta-se nas cartas e crônicas jesuíticas produzidas entre os séculos XVI e XVII . Os relatos quinhentistas de padres como Manuel da Nóbrega (em suas Cartas do Brasil) e José de Anchieta são cruciais por registrarem o impacto inicial dos surtos na costa brasileira, revelando as primeiras estratégias de assistência espiritual em meio ao pânico coletivo.

Por sua vez, o vasto acervo do Padre Antônio Vieira no Maranhão serve como o principal elo documental da pesquisa. Conforme destaca o historiador, os escritos do jesuíta no Maranhão revelam a dimensão conectada da colônia: “As cartas de Vieira funcionam como um elo documental precioso, revelando como a crise sanitária e o esforço de salvação espiritual uniam a Bahia e o Norte do Estado do Maranhão e Grão-Pará”, pontua Allef. A manipulação de remédios para alívio do corpo era estrategicamente combinada com a administração dos sacramentos, comprovando que a assistência médica colonial estava profundamente amarrada à pedagogia da salvação da alma.

Teatralização e  “Pedagogia do Além”

Diante dessa catástrofe epidemiológica, os missionários da Companhia de Jesus não silenciaram a morte. Ao contrário, promoveram uma intensa teatralização escatológica. “Em vez de ocultação, o que se observa é uma intensa ‘teatralização escatológica’ da morte epidêmica”, observa Allef Gustavo. “A varíola não é silenciada, mas transformada em espetáculo da justiça divina, em exemplum para vivos e em instrumento de disciplinamento dos corpos indígenas e coloniais”, completa o pesquisador. O sofrimento físico nos corpos era convertido em prova viva da providência, um espetáculo pedagógico para informar  os vivos sobre a brevidade da vida e o destino eterno da alma.

A administração do batismo nesse ambiente de pânico gerava disputas simbólicas acirradas. Entre os nativos, conforme registrado nas Cartas Avulsas (1558), espalhava-se o temor em relação à água de batismo: “tínham por mui certo que lhe deitam a morte com o bautismo”. Muitos se escondiam nas redes para evitar os missionários, enquanto os padres desfaziam os panos para alcançar crianças moribundas e garantir a “lavagem da original nódoa” antes da morte.

Retrato do jesuíta Antônio Vieira. Na investigação de Allef Gustavo, as pregações e correspondências de Vieira no Maranhão servem como ponte entre a Bahia e o Norte colonial
Retrato histórico do jesuíta José de Anchieta. Suas cartas produzidas entre 1562 e 1564 registram os sintomas, o pavor coletivo e a intensa assistência espiritual prestada aos moribundos durante os primeiros grandes surtos de varíola na costa brasileira

Recuperando concepções medievais reacendidas pela Contrarreforma católica, os jesuítas interpretavam as pragas como “flagelos divinos” — punições enviadas para castigar pecados coletivos —, mas também como oportunidades pedagógicas cruciais de conversão, batismo de moribundos e purificação das almas. Como resume o pesquisador sobre a dinâmica retórica da ordem jesuíta: “Ao associarem a doença ao destino eterno das almas, os missionários produziram narrativas que transformavam a experiência epidêmica em evidência da providência divina e da urgência da conversão”.

Nesse cenário, conceitos abstratos como Inferno, Purgatório e Paraíso ganharam contornos concretos nas aldeias e missões. A iminência da morte por varíola transformou o ritual do batismo e da confissão no derradeiro “passaporte” para a salvação eterna, consolidando o controle espiritual e social da Companhia de Jesus sobre as populações indígenas e coloniais.  Mais do que mapear a tragédia epidemiológica da varíola, o estudo resgata a memória da América Portuguesa para evidenciar como a fé, a saúde e o poder se entrelaçaram na gestão dos corpos e no seu valor simbólico.

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