Revista Inovação FAPEMA

BIOTECNOLOGIA MARANHENSE EM DESTAQUE INTERNACIONAL

Pesquisa do IFMA utiliza extrato vegetal de árvore para criar curativo promissor no tratamento de feridas crônicas

Ana Angélica Mathias Macedo

Engenheira Química pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Mestre em bioquímica pela mesma instituição e doutora em biotecnologia pela Rede Nordeste de Biotecnologia.

O extrato de açúcar natural é processado para criar uma barreira protetora que acelera o processo cicatricial e protege a pele contra agentes externos.

As feridas crônicas conhecidas como úlceras por pressão — popularmente chamadas de escaras — representam um desafio persistente para a saúde pública. Dados da literatura científica indicam que a complicação afeta cerca de 9% dos pacientes hospitalizados e até 23% das pessoas acamadas em leito domiciliar, exigindo cuidados continuados e gerando impactos significativos para as famílias e para o sistema de saúde. Em busca de caminhos acessíveis para atenuar essa realidade, uma pesquisa desenvolvida no Instituto Federal do Maranhão (IFMA) surge como uma promissora contribuição para a área de tratamentos dermatológicos.

 

Sementes da árvore Adenanthera pavonina L. sob análise. O polissacarídeo extraído dessas leguminosas é o componente principal do novo curativo.

Sob a coordenação da pesquisadora e professora Dra. Ana Angélica Mathias Macêdo, do IFMA Campus Imperatriz, a equipe projetou um curativo do tipo hidrocolóide — uma cobertura gelificada e flexível que retém a umidade ideal da pele para acelerar a regeneração do tecido — formulado à base de galactomanana e sulfadiazina de prata. A proposta combina o uso de matérias-primas de origem vegetal com a proteção antimicrobiana, alcançando um importante marco de reconhecimento ao obter a concessão de sua patente em cotitularidade com o Instituto Politécnico de Coimbra (IPC), em Portugal.

Essa aproximação com a instituição portuguesa demonstra a capacidade dos grupos de pesquisa locais em estabelecer parcerias acadêmicas sólidas e proteger o conhecimento gerado nos laboratórios.

Soluções Acessíveis Inspiradas na Flora

A concepção do projeto partiu do entendimento das condições necessárias para favorecer o processo de cicatrização. A literatura médica aponta que a recuperação de lesões na pele é estimulada por coberturas que mantenham a umidade fisiológica, garantam a permeabilidade necessária para trocas gasosas e conservem a temperatura na faixa dos 37 ºC — ambiente adequado para apoiar a mitose e a renovação celular. ” Pensou-se nos hidrocolóides como uma alternativa para atender a essas especificidades. Escolheu-se a Adenanthera pavonina L. pela facilidade de obtenção da galactomanana, que é  um material atóxico, acessível e com versatilidade para atuar como gel, membrana ou placa”, explica a pesquisadora.

Amostras do curativo hidrocolóide desenvolvido a partir da galactomanana extraída das sementes vegetais. A estrutura gelificada, biocompatível e flexível funciona como uma barreira protetora que retém a umidade ideal da pele

A Adenanthera pavonina L., conhecida popularmente como olho-de-pavão, fornece através de suas sementes a galactomanana — um polissacarídeo vegetal, que nada mais é do que um tipo de açúcar natural e gelificante extraído de plantas. Esse componente funciona como uma rede estruturante no curativo, auxiliando na retenção de água e na formação de uma camada protetora sobre a lesão.

Diferenciais e Potencial Prático

O grande diferencial da formulação está na integração harmoniosa entre o biopolímero natural e a sulfadiazina de prata (que representa até 5% da mistura). Enquanto a matriz vegetal cria o ambiente ideal para a regeneração da pele, o fármaco agrega uma valiosa propriedade antimicrobiana, auxiliando na prevenção e no combate a contaminações bacterianas comuns em lesões expostas.

Além da eficácia biológica, a tecnologia destaca-se pelo seu método de obtenção, que envolve etapas de extração do endosperma da semente, solubilização, homogeneização e liofilização. Esse processo resulta em um material biocompatível, atóxico e de manipulação simplificada, projetado para interagir com os tecidos humanos de forma segura.

Sob a perspectiva socioeconômica e ambiental, a utilização do açúcar vegetal de baixo custo posiciona a pesquisa como uma alternativa sustentável. Ao empregar matérias-primas renováveis e solventes seguros, o projeto desenha um caminho viável para reduzir custos de produção no futuro, com o potencial de tornar o tratamento de feridas crônicas mais acessível no sistema de saúde.

Embora os testes laboratoriais indiquem resultados bastante promissores quanto à viabilidade e biocompatibilidade do produto, a tecnologia ainda cumpre suas etapas de amadurecimento. O avanço para eventuais aplicações clínicas depende da captação de novos recursos para a realização de análises biológicas complementares e ensaios in vivo. O projeto desenvolvido no IFMA coloca-se como uma valiosa promessa no campo da biotecnologia aplicada à saúde, reforçando a importância do fomento à pesquisa para a construção de soluções sustentáveis na saúde. 

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