Pesquisa da UFMA investiga o uso combinado de silício e Azospirillum brasilense para otimizar o cultivo do milho diante das limitações hídricas e nutricionais de Chapadinha
Felype Boaventura

Discente do curso de Zootecnia na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), atuando como bolsista no Núcleo de Pesquisa em Produção e Conservação de Forragens do grupo GEPRUMA.

O cultivo do milho safrinha na região do Baixo Parnaíba enfrenta um gargalo histórico: a transição drástica do período chuvoso para a seca rigorosa, aliada à baixa fertilidade natural dos solos maranhenses. Em Chapadinha, a janela de chuvas se concentra entre dezembro e abril, abrindo espaço para um longo período de estiagem com precipitações esporádicas. Mas uma pesquisa feita na cidade está ajudando a transformar esta realidade e garantir a produção.

Quem resolveu enfrentar o desafio de achar uma solução para este problema foi o pesquisador Felype Isac Meireles Boaventura, aluno de Zootecnia do Campus de Chapadinha da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Ele desenvolve atividades de iniciação científica com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) e sob a orientação do Prof. Dr. Anderson de Moura Zanine está desenvolvendo o trabalho “Estratégias para melhorar a produção e o valor nutricional do milho safrinha com diferentes níveis de silício e inoculação com microrganismos na entressafra agrícola”.
O trabalho de Felype Boaventura nasceu da observação de que, para o produtor local, manter a produtividade de uma cultura exigente em água e nitrogênio sem inflacionar os custos com fertilizantes sintéticos é um desafio complexo.
“A região de Chapadinha, inserida no Baixo Parnaíba, apresenta estação chuvosa concentrada entre dezembro e abril e uma longa estação seca, de maio a dezembro, com precipitações inferiores a 6 milímetros e esporádicas. Isso torna o milho safrinha particularmente vulnerável ao déficit hídrico durante fases importantes do desenvolvimento da cultura. Outro gargalo é a baixa disponibilidade de nutrientes no solo, especialmente o nitrogênio, já que o milho apresenta elevada exigência nutricional”, explica o pesquisador.

O pesquisador destaca ainda que o custo e a dependência de fertilizantes minerais, além da necessidade de aumentar a eficiência no uso da água e dos nutrientes, traz muitos desafios para os produtores da região. “Os principais desafios são a irregularidade e limitação da disponibilidade hídrica; alta demanda nutricional do milho; dependência de fertilizantes nitrogenados; necessidade de produzir durante períodos climaticamente mais restritivos; busca por tecnologias que aumentem a eficiência produtiva sem elevar excessivamente os custos”, informa.
Por isso, o trabalho, que também tem a orientação do Mestre em Ciência Animal, Carlos Rodolfo do Nascimento Castro, desenvolveu um estudo multifatorial focado no ganho de eficiência do milho.
A busca pela sinergia no manejo
A motivação central do projeto foi testar a combinação de dois insumos com grande potencial complementar: o Silício (Si) via fertirrigação, que é conhecido por atuar na tolerância a estresses hídricos e térmicos, além de otimizar a absorção nutricional. A fertirrigação é uma técnica que aplica fertilizantes dissolvidos na água de irrigação, levando os nutrientes diretamente para a raiz das plantas. O método economiza tempo e mão de obra, aumenta a absorção dos minerais e reduz o desperdício de insumos. O outro insumo aplicado foi a inoculação com Azospirillum brasilense, uma bactéria promotora de crescimento vegetal associada à fixação biológica de nitrogênio (FBN) e ao desenvolvimento radicular.


A hipótese biológica levantada pelo pesquisador era de que a união da tolerância hídrica do silício com a promoção nutricional da bactéria resultaria em um ganho produtivo exponencial. E os resultados confirmaram efeitos positivos de ambos os fatores isoladamente. “O Silício apresentou resposta linear no ganho de matéria seca e o A. brasilense aumentou significativamente a produção de espigas. Contudo, do ponto de vista estatístico, não houve uma interação sinérgica direta para a matéria seca, mostrando que cada insumo atuou de forma independente”, ressalta o discente.
Superando desafios técnicos e operacionais
A aplicação do silício via fertirrigação exigiu precisão metodológica. Diante da ausência de parâmetros nacionais consolidados para a cultura do milho, a equipe adaptou recomendações do International Rice Research Institute (IRRI).
Para evitar a polimerização do elemento na solução de irrigação, o manejo foi dividido estrategicamente em três etapas: fracionamento com 6 aplicações no total (3 no estágio vegetativo e 3 no reprodutivo); controle de concentração com uso de lâmina de 2,5 mm, mantendo a concentração máxima de Si em 2,85 mmol L⁻¹ (unidade de medida que indica a concentração molar de uma substância em um litro de solução ou fluido corporal) bem abaixo do limite crítico de 3,5 mmol L⁻¹; e estabilização com o emprego de fonte de silício estabilizada com sorbitol, um álcool de açúcar (poliol) com sabor doce, encontrado naturalmente em frutas como maçãs, ameixas e peras, e usado como adoçante e umectante.
A polimerização é uma reação química em que moléculas pequenas, chamadas monômeros, se unem por ligações covalentes para formar uma macromolécula gigante chamada polímero. Esse processo cria materiais essenciais para o nosso dia a dia, como plásticos, borrachas e fibras sintéticas.
“Portanto, o desafio operacional foi encontrar um equilíbrio entre fornecer a quantidade total necessária de Si, manter a estabilidade química da solução e distribuir as aplicações ao longo do ciclo da cultura”, detalha Felype Isac Meireles Boaventura.
Sustentabilidade e viabilidade econômica
Felype Boaventura explica ainda que o uso combinado de bioinsumos e fertilizantes minerais não visa substituir integralmente os fertilizantes sintéticos, mas, sim, otimizar seu rendimento, pois ao melhorar a absorção de nutrientes e promover a fixação biológica de nitrogênio, a tecnologia reduz perdas ambientais e diminui a dependência excessiva de adubos nitrogenados de alto custo.

“Para médios e pequenos produtores de Chapadinha e do Maranhão, a estratégia demonstra alta viabilidade operacional. A inoculação e a aplicação do silício podem ser incorporadas às práticas já existentes nas propriedades rurais sem a necessidade de investimentos em novas estruturas”, aponta.
Próximos passos da pesquisa
O experimento abre caminho para novas investigações na UFMA. Entre as prioridades para os próximos ciclos, destacam-se os testes de dosagem, por meio dos quais é possível avaliar a redução gradual de nitrogênio mineral em conjunto com o A. brasilense. Aliado a isto, também pode ser feita a validação em campo, com a aplicação dos testes nas áreas comerciais de produção e a posterior análise econômica por meio do mapeamento da relação custo-benefício precisa para a realidade do agricultor maranhense.
Ao transformar dados experimentais em protocolos práticos, a pesquisa reforça o papel da ciência regional na construção de uma agricultura mais sustentável e adaptada às particularidades do semiárido e do Cerrado maranhense.





