Revista Inovação FAPEMA

RESGATANDO O PASSADO PARA GARANTIR O FUTURO: COMO A TECNOLOGIA ESTÁ AJUDANDO A PRESERVAR A MEMÓRIA LITERÁRIA MARANHENSE

Sem o cuidado adequado, acervo original está ficando deteriorado

Projeto está digitalizando obras raras em risco de extinção com o uso de inteligência computacional para mapear a historiografia cultural do Estado

Emanoel Assis

Graduado em Letras Licenciatura em Português/Inglês e respectivas literaturas, pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA Campus Caxias (2008). Mestre em Letras – Estudos Literários – pela Universidade Federal do Piauí- UFPI. Doutorado em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Realizou estágio de pós-doutoramento em Humanidades Digitais na Universidade de Oslo. 

Muitos dos livros que fundaram a identidade cultural do Maranhão correm o risco de virar poeira. Obras raras de autores fundamentais muitas vezes encontram-se restritas a pouquíssimos exemplares físicos, guardados em estantes de acesso limitado ou sofrendo com a ação do tempo e de micro-organismos. 

Para romper essas barreiras e salvar essa memória, pesquisadores maranhenses vêm unindo tecnologia, filologia e a paixão pelas letras em um esforço que já dura mais de uma década para manter este patrimônio acessível para todos.

Em 2015, o pesquisador Prof. Dr. Emanoel Cesar Pires de Assis, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), campus Caxias, iniciou o projeto “Acervo da Academia Caxiense de Letras (ACL):  preservação, digitalização e divulgação”. Este trabalho foi a semente que deu origem ao projeto “A cultura literária maranhense na rede: o Portal Maranhão”.

O Portal Maranhão é um robusto repositório digital que democratiza o acesso à rica produção literária do estado. A organização é de Emanoel Pires e o desenvolvimento de Roberto Willrich (da UFSC). Na equipe executora estão ainda a Profa. Dra. Marinalva Aguiar Teixeira Rocha (Uema), Profa. Dra. Natércia Moraes Garrido (UEMA/IFMA) e o Prof. Dr. Jakson dos Santos Ribeiro (UEMA).

“Este projeto é o desenvolvimento de outros anteriores sobre digitalização e disponibilização de obras literárias maranhenses em meio digital. Ele possui caráter permanente. Uma vez que sempre novas obras são lançadas e mais autores entram em domínio público alimentamos o Portal Maranhão com os dados dessas obras e seus autores. No caso dos autores, mantemos seus cadastros com informações, mesmo que suas obras não sejam disponibilizadas por ainda não estarem em domínio público”, explica Emanoel Pires.

O projeto “A cultura literária maranhense na rede: o Portal Maranhão”, é um dos 71 projetos contemplados com o edital Maranhão 2050, desenvolvido pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA). O edital faz parte do Plano Maranhão 2050, um planejamento estratégico de longo prazo que induz ao desenvolvimento socioeconômico integrado, reduzindo as desigualdades sociais e regionais do Estado.



Publicações passam por análise cuidadosa antes de serem digitalizadas

A expansão dos acervos

A iniciativa teve início com o tratamento, organização e digitalização do acervo da Academia Caxiense de Letras (ACL). Diante do sucesso e do nível satisfatório de tratamento desses dados, a equipe percebeu que era preciso ir além das fronteiras de Caxias para abraçar a totalidade da produção estadual.

O projeto expandiu-se, então, para outras instituições guardiãs da memória maranhense, como o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGC) e a Biblioteca Benedito Leite.

Pesquisadores buscam ampliar as fontes de acervo literário para expandir o portal

Emanoel Pires destaca que as informações presentes nesses acervos poderão ajudar não apenas a alimentar o Portal Maranhão, mas expandir o que se conhece sobre a literatura maranhense, seus autores e autoras, bem como suas obras. “Saímos de um universo canonizado, onde pouco mais de uma dezena de obras e autores são lembrados e estudados, e passamos a ter uma visão mais ampla sobre a produção cultural do nosso Estado”, assina.

A relevância do Portal Maranhão torna-se evidente quando confrontada com a realidade física das bibliotecas. Em um levantamento feito nos mais de 20 campi da UEMA, os pesquisadores constataram que havia apenas um exemplar físico disponível do romance A Conquista, de Coelho Neto. O romance de 1899 narra as aventuras e desventuras da geração de poetas, teatrólogos, jornalistas, intelectuais boêmios na cidade do Rio de Janeiro nos anos em que a campanha abolicionista e o movimento republicano estavam em pleno vapor.

Para Emanoel Pires esse cenário de escassez gera um impacto direto e negativo na formação acadêmica, pois estudantes de graduação, ao buscarem temas para seus trabalhos de conclusão de curso, costumam evitar autores difíceis de acessar. “A disponibilização digital muda completamente esse jogo. Desde que as obras de Coelho Neto foram integradas ao ecossistema on-line, o número de teses, dissertações e artigos sobre o autor cresceu significativamente, não apenas na Uema, mas em âmbito nacional”, comemora.

Desafios da equipe

O trabalho de trazer obras como “A conquista” para a tela do computador é complexo e envolve desafios físicos e técnicos. No início do manuseio, o estado de conservação de muitas obras era crítico. A equipe precisou adotar o uso rigoroso de luvas e máscaras tanto para proteger o papel fragilizado quanto para preservar a saúde dos próprios estudantes contra fungos e bactérias acumulados por décadas. Havia um risco real e iminente de perda definitiva dessa memória.

Digitalização do acervo garante acesso universal a obras emblemáticas da literatura do Maranhão

Superada a fase de captura das imagens, tem início o processo mais minucioso do projeto: a atualização ortográfica. Para aproximar o leitor contemporâneo dos textos antigos, a equipe realiza uma modernização gráfica estrita, sem alterar uma única palavra ou recorrer a sinônimos.

Para isto, grafias antigas com consoantes duplicadas ou letras que caíram em desuso (como photografia, pharmacia e phosphoro) são atualizadas para as normas vigentes, sem alterar a estrutura sintática, o vocabulário e o estilo editorial original do autor. Este é o mesmo padrão filológico adotado pelas grandes editoras nacionais ao relançar clássicos da literatura.



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