Revista Inovação FAPEMA

PESQUISA ANALISA O CINEMA MARANHENSE COMO REFERÊNCIA PARA ESTUDOS SOBRE CONSTRUÇÃO ESPACIAL CINEMATOGRÁFICA

Foram analisados três filmes do cineasta Frederico Machado: O exercício do caos, O signo das tetas e As órbitas da água.

Alexandre Costa

Doutor em Comunicação Social pela UFMG, mestre em Cultura e Sociedade e graduado em Jornalismo pela UFMA. Pesquisador nas áreas de cinema, estética, espacialidade fílmica e narrativa.

No cinema, a espacialidade é a maneira como um filme constrói, organiza e faz o espectador perceber o espaço dentro da narrativa, indo além simplesmente do cenário onde a história acontece. É o que avalia pesquisa ‘O espaço inquieto como operação do fantástico: montagem e espacialidade na trilogia fílmica de Frederico Machado’, do doutor em Comunicação, Alexandre Bruno Gouveia Costa. Partindo da cinematografia do maranhense Frederico Machado, o pesquisador aproxima sua obra da produção literária do pai, Nauro Machado.

A pesquisa analisa três filmes de Frederico Machado: O Exercício do Caos (2013), O Signo das Tetas (2015) e As Órbitas da Água (2020), colocando o cinema maranhense no centro de uma nova discussão sobre espaço, imagem e montagem. A partir da observação do espaço como parte da narrativa, o estudo propõe uma nova maneira de perceber essa questão. O pesquisador aponta que a experiência de inquietação provocada por um filme não depende apenas da reação do público. “Ela também pode ser criada pela própria linguagem cinematográfica, por meio da relação entre espaço, imagem, tempo, enquadramento, duração e montagem”, explica Alexandre Costa.

 É a partir dessa ideia que o pesquisador apresenta o conceito de ‘espaço inquieto’, principal contribuição teórica da tese. Ele procura explicar como um filme pode criar espaços instáveis, ambíguos e em constante transformação a partir da relação entre diferentes imagens. Outro ponto importante da pesquisa é a maneira como a montagem cinematográfica participa da construção do espaço.

Como funciona o processo de montagem de um filme?

A montagem, num filme, é o processo de selecionar, ordenar e relacionar planos e cenas, construindo relações de tempo, espaço, continuidade, ritmo e significado.

 “A montagem não serve apenas para organizar os diferentes planos de um filme. Cortes, duração das imagens, vazios, repetições, corpos, gestos e lugares estabelecem relações e criam diferentes intensidades entre as cenas. Com isso, a percepção do espaço pode mudar ao longo do filme”, exemplifica.

Para analisar esse processo, o pesquisador identifica cinco formas de funcionamento da montagem presentes nos filmes estudados: repetição com variação, quando uma imagem, gesto, lugar ou situação reaparece, mas com alguma mudança que altera seu sentido; retenção e saturação, quando um plano, som, movimento ou elemento visual permanece por mais tempo ou se intensifica, aumentando a sensação de tensão; fricção entre planos, quando duas imagens colocadas em sequência produzem contraste, conflito ou uma nova relação de significado; intervalo energético, quando a pausa, o vazio ou a passagem entre uma imagem e outra também participa da construção da experiência do espaço; e sobrevivência e retorno de formas, quando imagens, gestos, corpos ou configurações espaciais reaparecem ao longo do filme e carregam sentidos de momentos anteriores. 

Esses operadores ajudam a compreender como a montagem faz o espaço deixar de ser apenas cenário e passar a atuar na narrativa, acumulando tensões, transformações e diferentes possibilidades de percepção.

Pesquisa amplia o conhecimento sobre o cinema maranhense

Alexandre Bruno apresentando sua pesquisa num seminário acadêmico

A relação com o Maranhão é um dos pontos centrais da pesquisa. Ao estudar a obra de Frederico Machado, cuja trajetória está ligada ao audiovisual maranhense, a tese contribui para ampliar a documentação e a circulação acadêmica da produção cultural do estado. O estudo também mostra que o cinema produzido no Maranhão pode ir além de seu valor artístico e cultural: ele pode servir de base para a criação de conceitos e ferramentas teóricas aplicáveis a outros estudos sobre cinema.

 Nesse sentido, a pesquisa amplia o alcance da cinematografia maranhense, ao colocá-la em diálogo com discussões nacionais e internacionais sobre cinema, comunicação e estética. O trabalho também pode ser referência de pesquisa para estudantes, professores, pesquisadores, realizadores audiovisuais, críticos e outros profissionais da área da comunicação e ultrapassar os filmes estudados, abrangendo mais filmes de Frederico Machado e outros títulos no cinema maranhense e até nacional.

“Este estudo amplia a maneira de compreender a produção audiovisual do Maranhão. O estado deixa de ser visto apenas como um território representado pelo cinema ou como local de produção de filmes, e passa também a ser apresentado como um espaço capaz de produzir novas ideias e conceitos para pensar o próprio cinema”, avalia Alexandre Costa.

A tese foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na linha de pesquisa Textualidades Midiáticas, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA).

 

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