A análise cruza literatura e história para investigar como raça, gênero e classe moldaram personagens e relações sociais da época
Luany Dias Almeida

É graduanda em Sociologia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus Bacabal.
Mais de um século depois de Aluísio de Azevedo colocar São Luís no centro da obra O Mulato, o romance continua funcionando como uma espécie de janela para um Maranhão marcado por hierarquias, preconceitos e violências. A obra foi lançada originalmente em 1881, e é nesse passado literário e profundamente histórico, que a pesquisadora Luany Dias Almeida, graduanda em Sociologia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus Bacabal, concentra sua investigação sobre as relações entre gênero, raça e escravidão na obra do escritor maranhense.
O estudo, intitulado ‘Gênero, raça e escravidão na obra O Mulato, de Aluísio de Azevedo’, integra o projeto ‘Interseccionalidade e história nos romances de Aluísio de Azevedo, Graça Aranha e Maria Firmina dos Reis’, coordenado pela professora Poliana Santos, que também é coordenadora do Grupo de Pesquisa História e Literatura (GPHL), responsável pelo desenvolvimento do estudo. A pesquisa propõe um diálogo entre duas áreas capazes de lançar diferentes luzes sobre o passado: a história e a literatura.

A pesquisa parte da compreensão de que um romance não é apenas uma obra de ficção isolada de seu tempo. Narradores, personagens, espaços, gestos e conflitos podem carregar marcas da sociedade em que a obra foi produzida. Nesse sentido, O Mulato é analisado como um testemunho literário capaz de revelar aspectos da estrutura social e cultural do Maranhão e do Brasil oitocentista.

“O principal foco deste estudo é analisar como a obra O Mulato representa o Brasil e o Maranhão do século XIX. Para isso, nos apoiamos em aspectos narrativos, das personagens e do narrador, entendendo como a estrutura social e cultural daquele período se internaliza no texto ficcional”, explica Luany Almeida.
A pesquisadora, que teve o apoio da FAPEMA, utiliza a interseccionalidade como ferramenta para observar como diferentes condições sociais se cruzam e interferem nas experiências individuais. Raça, gênero e classe são analisados como categorias que, combinadas, determinavam oportunidades, relações de poder e formas de tratamento destinadas aos indivíduos.

Para sustentar a análise, o trabalho dialoga com autores como Antônio Candido, Carlo Ginzburg, Lélia Gonzalez e Bell Hooks, além de outras referências dos campos da história, literatura e estudos de gênero. A perspectiva de Candido ajuda a compreender a relação entre texto e contexto, enquanto Ginzburg contribui para uma leitura atenta dos detalhes aparentemente pequenos, mas que podem funcionar como indícios de experiências históricas.
O estudo aponta a literatura como uma fonte importante para compreender experiências históricas, que muitas vezes permanecem ausentes ou silenciadas nos documentos oficiais. Ao colocar em diálogo personagens, estruturas sociais e contextos históricos, a pesquisa mostra que as desigualdades retratadas no romance não pertencem apenas ao passado: elas ajudam a compreender a formação de problemas relacionados à raça, gênero e classe que continuam presentes na sociedade brasileira.
Literatura como vestígio da história
O romance O Mulato acompanha Raimundo, filho de um português com uma mulher negra escravizada, que retorna a São Luís depois de anos vivendo e estudando na Europa. Ao chegar à cidade, ele se hospeda na casa do tio, Manuel Pescada, onde também vivem a prima Ana Rosa, Maria Bárbara e pessoas escravizadas. A relação amorosa entre Raimundo e Ana Rosa passa a ser atravessada pelo preconceito racial e pelas rígidas hierarquias sociais daquele período.
É justamente nesse universo que a pesquisa identifica diferentes destinos para mulheres de acordo com sua cor, condição econômica, idade e posição social. Ana Rosa, jovem branca e integrante da elite, é educada para o casamento e a maternidade. Já mulheres negras escravizadas, como Mônica, Brígida e Domingas, aparecem vinculadas ao trabalho, à servidão, à violência e à exploração. “Os papéis femininos no período oitocentista não eram iguais para todas as mulheres. Se o papel da mulher branca era associado à maternidade e ao casamento. Esse atributo era muitas vezes negado à mulher negra, que consideravam principalmente como força de trabalho”, aponta a pesquisadora.
A trajetória de Mônica sintetiza uma dessas contradições. Escravizada e ama de leite de Ana Rosa, ela dedica à menina um amor maternal depois de ter os próprios filhos vendidos para outras regiões. Domingas, mãe de Raimundo, sofre violência extrema após ser descoberta em uma relação com seu senhor português. Já Brígida é apresentada a partir de características que associam a mulher negra à sensualidade, revelando, segundo a pesquisa, estereótipos construídos historicamente em torno da negritude feminina.

A análise também observa como religião, medicina e educação contribuem para estabelecer expectativas sobre o comportamento feminino no século XIX. No caso de Ana Rosa, por exemplo, sintomas como nervosismo e desmaios são associados pelo médico à necessidade de casamento. A maternidade e a vida doméstica aparecem, assim, como destinos socialmente esperados para as mulheres brancas das camadas privilegiadas.
Ao revisitar o romance mais de 140 anos depois de sua publicação, a pesquisa mostra uma dupla dimensão da obra de Aluísio de Azevedo. Ao mesmo tempo em que O Mulato denuncia aspectos violentos da escravidão e do preconceito racial, também reproduz estereótipos sobre pessoas negras, especialmente mulheres. Essa contradição é fundamental para a investigação, que não pretende transformar a literatura em simples documento histórico, mas, compreender como a sociedade de uma época se manifesta dentro da construção ficcional.




