Estudo da UEMASUL catalogou 200 sinais de prosa, poesia e teatro usados pela comunidade surda de Imperatriz e criou um glossário que amplia o acesso à literatura em Libras.
Ellen Vitória Sousa Silva

Graduanda de Letras (Português) com ênfase em literatura. É estudante da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASULl).
A literatura é um importante instrumento de formação cultural e desenvolvimento do pensamento crítico. Entretanto, para muitos estudantes surdos, o acesso ao universo literário ainda é limitado pela escassez de materiais didáticos em Língua Brasileira de Sinais (Libras), especialmente aqueles que consideram as particularidades linguísticas regionais. Com o objetivo de contribuir para mudar essa realidade, a pesquisadora Ellen Vitória Sousa Silva, sob orientação da professora Cláudia Lúcia Alves, da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL), desenvolveu a pesquisa “Mãos que Sinalizam: Literatura em Libras”, que resultou na elaboração de um glossário literário voltado à comunidade surda de Imperatriz (MA).

Realizada no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), com fomento da FAPEMA, a pesquisa nasceu da percepção de que ainda existem poucos materiais pedagógicos voltados ao ensino da literatura em Libras que contemplem o léxico utilizado pela comunidade surda da região. Segundo o relatório, essa ausência faz com que muitos surdos sejam “estrangeiros em sua própria língua”, expressão utilizada para descrever a dificuldade de acesso a recursos educacionais produzidos a partir de sua realidade linguística e cultural.
Mais do que reunir sinais, o projeto teve como propósito fortalecer a identidade cultural da comunidade surda imperatrizense, incentivar o ensino da literatura em Libras e disponibilizar um material de apoio para professores de escolas bilíngues e inclusivas, além de estudantes e pesquisadores interessados na área.
“Participar do projeto foi muito importante para mim, e creio que também para comunidade surda e para toda a nossa equipe, porque eu pude quebrar muitos preconceitos que eu tinha, inclusive com relação a Libras. E eu não entendia como um preconceito, mas como algo natural, porque era mais uma ignorância da minha parte por não entender a Libras”, revela a pesquisadora Ellen Vitória Sousa Silva.
Libras como patrimônio linguístico
O estudo parte de um princípio fundamental: a Libras é uma língua oficial, reconhecida oficialmente no Brasil desde 2002, dotada de estrutura gramatical, léxico e organização próprios, assim como qualquer outra língua. Apesar desse reconhecimento legal, ainda persistem preconceitos e a falsa ideia de que a Libras seria apenas um conjunto de gestos ou mímicas, visão que dificulta a inclusão da população surda em diferentes espaços sociais e educacionais.
“Libras não é uma coisa criada ao acaso, mas ela é uma língua viva, que sofre modificações e que tem um sistema linguístico extremamente complexo que merece ser estudado”, Ellen Vitória.
Diante disso, registrar e documentar os sinais utilizados em uma determinada comunidade se torna uma forma de preservar sua riqueza linguística e contribuir para a valorização da própria língua.
“Quando você analisa a estrutura interna da Libras e as suas modificações e a sua história, tudo isso envolvendo a questão linguística e também social cultural dela, você nota como ela é complexa, como ela é rica. Ela é uma língua natural, tal como o nosso português brasileiro”, ressalta Ellen Vitória.
Construção coletiva do glossário
Para elaborar o material, a equipe adotou uma abordagem qualitativa, combinando pesquisa documental e trabalho de campo.
Além da consulta a obras de referência sobre literatura, lexicografia e ao Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Libras, os pesquisadores visitaram escolas inclusivas e a Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos Professor Telasco Pereira Filho, em Imperatriz. Nessas instituições, professores surdos colaboraram na coleta, validação e verificação dos sinais utilizados no cotidiano.
Todo o processo envolveu diferentes etapas, como levantamento bibliográfico, gravação dos sinais, validação junto à comunidade surda, descrição linguística e catalogação, seguindo princípios da lexicografia aplicada à Libras.
Um retrato da Libras em Imperatriz
Ao longo da pesquisa, foram levantados 200 sinais relacionados ao universo literário, abrangendo conceitos da prosa, da poesia e do teatro.
Os pesquisadores identificaram que diversos sinais utilizados em Imperatriz apresentam variações em relação aos registrados em dicionários nacionais, evidenciando a diversidade regional da Libras. O estudo também mostrou que alguns termos técnicos da literatura ainda não possuem sinais consolidados entre os usuários da língua.
Outro resultado importante na pesquisa foi constatar que nem sempre existe a necessidade de criar um sinal específico para cada palavra da língua portuguesa. Em muitos casos, a própria estrutura visual espacial da Libras permite expressar determinados conceitos por meio de classificadores e do contexto da comunicação, preservando a riqueza e a flexibilidade da língua.
O glossário reúne sinais para termos como lenda, mito, narrador, rima, símbolo, hino, interpretar, palco e performance. Cada verbete apresenta descrição do conceito, parâmetros linguísticos da sinalização e acesso a vídeos por meio de QR Codes, permitindo que o usuário visualize a execução correta de cada sinal.
Inclusão, educação e novas pesquisas
Além de servir como ferramenta pedagógica para o ensino da literatura, o glossário abre novas possibilidades para pesquisas sobre variação linguística, morfologia, sintaxe e semântica da Libras.
O relatório destaca que o material pode auxiliar estudantes, professores, intérpretes e pesquisadores na compreensão de termos técnicos da área literária, além de incentivar investigações sobre os sinais utilizados em Imperatriz e contribuir para a documentação da língua de sinais produzida na região.





