Biofábrica de mudas levará inovação, tecnologia e conhecimento científico aos produtores de São Domingos do Maranhão, consolidando um novo modelo de desenvolvimento para esta cadeia produtiva
O município de São Domingos do Maranhão, localizado na região centro leste, é o maior produtor de abacaxi do estado, condição que lhe rendeu, por meio de decreto estadual, em 2022, o título de “Capital do Abacaxi”. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção é de 35 milhões de frutos por ano. Este número é ainda maior, segundo o Sindicato dos Produtores Rurais de São Domingos, que contabiliza cerca de 50 milhões de frutos na safra deste ano, sendo quase 95% do abacaxi da cultivar Pérola, a mais consumida no país.
A implantação de um laboratório para produção de mudas de alto padrão genético vai ampliar a produção do município e marcar um novo momento para a fruticultura maranhense. A iniciativa levará ao campo técnicas avançadas de cultura de tecidos vegetais, permitindo a produção de mudas mais tolerantes à doenças, uniformes e de alta qualidade genética, aproximando a pesquisa científica das necessidades dos produtores rurais.
A biofábrica vai resolver um gargalo enfrentado pelos produtores: a baixa quantidade e a dificuldade em produzir mudas de qualidade em suas lavouras, e também a compra das mudas em outras regiões para aqueles que não produzem as mudas em seus campos.
A micropropagação aumenta significativamente a produção de mudas em curto período. Para se ter uma ideia dos ganhos que os produtores terão com a biofábrica, uma única planta-matriz, quando propagada pelo método tradicional, produz em média oito mudas ao longo de 18 meses. Já pelo cultivo in vitro, no mesmo período, é possível produzir cerca de 160 mil mudas.
Outro problema enfrentado pelos produtores refere-se à irregularidade do regime de chuvas no município. Esta condição prejudica o desenvolvimento das plantas e provoca perdas significativas. A fusariose, fungo que provoca deformação e apodrecimento da fruta, chega a comprometer até 80% da produção, representando um dos principais entraves à sustentabilidade da cultura. Com mudas selecionadas de acordo com a tolerância à essa doença, este é um problema que também será minimizado.
A pesquisadora da UEMA, Thais Corrêa, explicou que inicialmente as mudas serão produzidas no Laboratório de Cultura de Tecidos Vegetais da UEMA, em São Luís, que dará todo o suporte para a biofábrica e onde também será capacitada a equipe que irá atuar no município. Posteriormente, nós pretendemos desenvolver todas as atividades em São Domingos com a equipe do município”, explicou.

O laboratório da UEMA conta com profissionais especializados em biotecnologia vegetal com expertise na área de cultura de tecidos vegetais, o que garante o suporte técnico científico adequado.

Para realizar a propagação tradicional de mudas é utilizado muito material vegetal e intensa mão-de-obra, em curto tempo. Isso eleva os custos e reduz a eficiência produtiva. “Ano passado, a gente teve problema com a aquisição de mudas para o plantio desta safra que a gente está cultivando agora. Muita gente deixou de plantar até por falta de mudas”, contou o produtor e agrônomo, Kleber da Silva Souza. Ele cultiva frutos das variedades Pérola e Turiaçu, em uma área de dois hectares, utilizando irrigação por gotejamento e fertirrigação.
O vice-presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de São Domingos do Maranhão e secretário municipal de Agricultura do município, Astolfo Seabra de Carvalho Sobrinho, pontuou que a dificuldade para obter mudas de qualidade é um dos maiores entraves para o crescimento da cultura do abacaxi na região. “Agora podemos produzir mudas de qualidade para nossos produtores, isentas de todo tipo de doença e com uma padronização que vai nos permitir ter o melhor abacaxi do mundo, com toda certeza. Esse trabalho poderá resultar em ganho de produtividade e mais qualidade na fruta. Com a uniformização dos nossos plantios, poderemos atender os mercados e principalmente, vender nosso fruto com um preço melhor, destacou.
Ele contou que na safra do ano passado, uma linha de mudas que custava R$ 1 mil atingiu um valor de R$ 6 mil. “Plantamos, em média, cerca de 12 mil mudas por tarefa, em cada linha. Multiplicando esse valor por quatro, chegamos a aproximadamente 48 mil mudas. Esse número é alcançado quando as condições de cultivo são satisfatórias e não há necessidade de utilizar produtos para indução floral, permitindo que o processo ocorra de forma natural”, explicou.
Acordo de Cooperação Técnica
A implantação da biofábrica está sendo viabilizada por meio de um Acordo de Cooperação Técnica firmado entre a Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e o Sindicato dos Produtores Rurais de São Domingos do Maranhão.

O anúncio da biofábrica foi um dos destaques da programação do Festival do Abacaxi de São Domingos, realizado em julho deste ano.
A parceria inclui estruturação da parte física da biofábrica, que seguirá padrões técnicos, de biossegurança e de eficiência operacional. Contempla ainda, a aquisição dos insumos e equipamentos, além da capacitação da equipe que receberá as bolsas de incentivo e vai atuar no município.
Na etapa final, prevista para o segundo semestre de 2027, a biofábrica entra em plena operação, com a produção das mudas de abacaxizeiro da variedade Pérola, por meio da técnica de cultura de tecidos. As plantas serão multiplicadas em biorreatores de imersão temporária, tecnologia que aumenta a eficiência do processo e a capacidade de produção. As mudas permanecem em cultivo até atingirem o tamanho e o vigor ideais, assegurando elevada qualidade fitossanitária, uniformidade e maior resistência ao campo. Na fase final, são preparadas para a aclimatação e, posteriormente, distribuídas aos produtores, concluindo assim o ciclo de produção da biofábrica.
Capacitação
A capacitação de profissionais que já atuam no município é um dos pilares do Acordo de Cooperação Técnica. Os profissionais da área de Ciências Agrárias receberão bolsas para se dedicar ao projeto e participarão de formação técnica. Com isso, haverá o aprimoramento de técnicas biotecnológicas, visando futuramente a geração de emprego e renda na própria região.
O estudante de agronomia, Francisco Simão Neto, vai integrar a equipe que atuará junto aos produtores. “A nossa expectativa com essa preparação é trazer o aprendizado e a experiência no laboratório. Queremos agregar com o campo para que a possamos trazer esse benefício de mudas com o melhor desenvolvimento das frutas e atingir um padrão comercial mais competitivo”, disse ele.
Festival do Abacaxi mostra potencial da região
Esta foi a 7ª edição do Festival do Abacaxi, que movimentou toda a região no período de 22 a 26 de julho. A programação incluiu shows e uma agenda técnica com palestras voltadas para o tema, apresentadas por professores e pesquisadores de instituições como a Embrapa e UEMA.

“O festival tem como seu principal objetivo divulgar para todo o Brasil, através das mídias, através das redes televisivas, através dos meios de comunicação, o avanço da nossa abacaxicultura”, comemorou o presidente do sindicato, Astolfo Seabra.
Distante cerca de 390 quilômetros de São Luís, o município de São Domingos do Maranhão possui aproximadamente 1600 produtores de abacaxi, com uma área plantada de 2 mil a 3 mil hectares, segundo informações do sindicato.
Dos 1600 produtores, cerca de 50 deles possuem de 5 a 10 hectares de plantio de abacaxi, que na sua maioria é exportado para outros estados, como a Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. “A comercialização do nosso abacaxi ocorre, atualmente, em sua maior parte por meio de atravessadores, que são responsáveis pela compra de cerca de 90% da nossa produção. Esses compradores vêm de diferentes regiões do país, como o Sul, o Sudeste e o Nordeste, para adquirir o abacaxi diretamente aqui na nossa região”, explicou o presidente do sindicato.





