Revista Inovação FAPEMA

O QUE OS PEIXES DIZEM SOBRE A QUALIDADE AMBIENTAL DO LAGO AÇU, NA BAIXADA MARANHENSE?

Metais pesados, esgoto e necrose em peixes: pesquisadora maranhense utiliza a histologia para mostrar como a poluição está afetando a biodiversidade aquática local

Ingrid Lima

Doutoranda em Biodiversidade e Biotecnologia (PPG/BIONORTE-UEMA). Mestre em Ecologia e Conservação da Biodiversidade (PPGECB/UEMA). Especialista em Educação Patrimonial no Ensino de Ciências da Natureza pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Especialista em Ciências da Natureza, suas Tecnologias e o Mundo do Trabalho (UFPI). Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). 

VENCEDORA DO PRÊMIO FAPEMA 2025

Categoria: Dissertação de Mestrado

Área de conhecimento: Ciências Agrárias

Título: Abordagem de múltiplos biomarcadores em peixe neotropical para avaliação de impactos no ambiente lacustre em área protegida da Baixada Maranhense, Brasil”

Orientadora: Débora Martins Silva Santos 

Coorientadora: Raimunda Nonata Fortes Carvalho Neta



Para muitos os peixes podem ser uma fonte de renda ou de alimento, mas para a pesquisadora Ingrid Caroline Moreira Lima eles são também uma caixa-preta das mudanças ambientais em curso e suas consequências. Ao mergulhar nas células das espécies encontradas na região de Conceição do Lago-Açu, situada na Baixada Maranhense, ela traçou um mapa da degradação na região no local que tem importância ambiental internacional.

A pesquisa “Abordagem de múltiplos biomarcadores em peixe neotropical para avaliação de impactos no ambiente lacustre em área protegida da Baixada Maranhense, Brasil”, foi a dissertação de mestrado da bióloga Ingrid Caroline Moreira Lima, que agora é doutoranda em Biodiversidade e Biotecnologia. O trabalho foi desenvolvido no Laboratório de Biologia e Ambiente Aquático (BioAqua) da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).

Com esta pesquisa Ingrid Caroline Moreira Lima uniu curiosidade e paixão. “Meu interesse pelo tema surgiu a partir da minha afinidade com a histologia, área pela qual sempre tive grande interesse durante a minha formação”, explica.

A histologia é o estudo dos tecidos que compõem os órgãos dos organismos vivos que, segundo a pesquisadora, funcionam como verdadeiros indicadores biológicos, revelando os impactos ambientais aos quais os seres estão expostos. 

Check-up dos peixes do Lago Açu

A pesquisa, que teve como orientadora a professora Débora Martins Silva Santos e coorientadora a professora Raimunda Nonata Fortes Carvalho Neta, foi desenvolvida em dois momentos complementares: campo e laboratório. O trabalho de campo ocorreu em uma área de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), localizada em uma zona úmida de importância internacional, no estado do Maranhão, tendo como área de estudo a região de Conceição do Lago Açu, que fica localizada na Área de Proteção Ambiental da Baixada Maranhense.

O objetivo foi avaliar a qualidade ambiental desse corpo aquático, que possui grande relevância social e econômica para o município, especialmente por sustentar atividades como a pesca artesanal, fundamental para a subsistência da população local.

Foram analisados peixes das espécies curimatá, branquinha e traíra

“Durante o trabalho de campo, realizamos a coleta de água, sedimento e peixes, que posteriormente foram analisados em laboratório. As análises incluíram avaliações histológicas, bioquímicas e genotóxicas, além da determinação de parâmetros físicos e químicos da água e da quantificação de metais na água e no sedimento. Essa abordagem integrada foi essencial para obter uma visão mais ampla e consistente sobre a condição ambiental da área estudada. Após as coletas, as amostras foram processadas em laboratório, onde foram realizadas análises biológicas mais detalhadas e específicas”, explica a bióloga.

Na região estudada, foram analisadas três espécies de peixes: Curimatá (Prochilodus lacustris), Branquinha (Psectrogaster amazônica) e Traíra (Hoplias malabaricus). Entretanto, o foco principal da pesquisa foi a Curimatá, por ser uma espécie que respondeu de forma mais evidente aos impactos ambientais e ainda considerada bioindicadora, o que a torna especialmente adequada para estudos de biomonitoramento.

No laboratório foram realizadas análises biológicas mais detalhadas e específicas

Impactos ambientais preocupantes

Ingrid Caroline Moreira Lima destaca que os resultados da pesquisa foram bastante relevantes. “Em relação à qualidade da água, foram observadas alterações significativas em parâmetros físicos e químicos essenciais para a manutenção da vida aquática, como oxigênio dissolvido, pH e turbidez. Também foi detectada a presença de metais em concentrações preocupantes, com destaque para o mercúrio, além de cobre, chumbo, ferro e manganês. Foram identificados ainda altos níveis de compostos nitrogenados, como nitrato e nitrogênio amoniacal, indicando um possível processo de eutrofização do ambiente”, enfatizou.

No que se refere às análises biológicas, foram observadas, ainda, diversas alterações nos órgãos-alvo estudados, especialmente brânquias, fígado e rins, variando desde lesões leves até danos severos e irreversíveis, como a alteração do tipo necrose, que é morte não programada de células ou tecidos em um organismo vivo.

“Além disso, as análises bioquímicas realizadas no fígado das espécimes coletados revelaram alterações em enzimas antioxidantes, como catalase e GST, indicando que esses organismos estão constantemente envolvidos em processos de biotransformação de substâncias xenobióticas presentes no ambiente”, alerta a doutoranda.

Como resolver o problema?

Mas Ingrid Caroline Moreira Lima também aponta medidas para a mitigação dos problemas identificados. “Um dos primeiros passos é o desenvolvimento de projetos de extensão e educação ambiental, uma vez que parte da contaminação está associada a atividades locais, como o descarte inadequado de resíduos sólidos, derramamento de óleo de embarcações e o lançamento de esgoto sanitário”, assinala.

A pesquisadora frisa que o município de Conceição do Lago-Açu tem apenas 2,4% de tratamento de esgoto, o que agrava significativamente a contaminação dos corpos hídricos locais. “Dessa forma, é fundamental o fortalecimento de políticas públicas, bem como a atuação conjunta com órgãos ambientais, como a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais e a Prefeitura Municipal”, propõe.

Por fim, Ingrid Caroline Moreira Lima reforça que “a adoção de medidas de sensibilização ambiental, aliada à melhoria da infraestrutura de saneamento básico, é essencial para reduzir os impactos sobre o lago, proteger a saúde da população” que utiliza o ambiente para recreação e pesca, e preservar a fauna aquática local.



Ingrid Lima foi vencedora do Prêmio FAPEMA 2025 na categoria Dissertação de Mestrado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *