Revista Inovação FAPEMA

PESQUISA MARANHENSE APONTA CAMINHOS PARA QUALIFICAR A ASSISTÊNCIA A PESSOAS VIVENDO COM HIV/AIDS

No Maranhão, 27.218 pessoas vivem com HIV/Aids, 77% desse público segue em tratamento com medicamentos antirretrovirais.

Poliana Oliveira

Farmacêutica, Pós-Graduada em Farmácia Clínica, com experiência em saúde pública e atenção especializada. Atualmente, exerce a função de Coordenadora Farmacêutica no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) do Anil, em São Luís/MA.

 

Uma pesquisa conduzida pela farmacêutica Poliana Oliveira Lemos de Brito, formada pelo CEUMA, promete fortalecer a política pública de enfrentamento ao HIV/AIDS no Maranhão. O estudo, orientado pela Drª Angela Falcai, coordenadora do Mestrado em Gestão e Atenção à Saúde, revela um diagnóstico detalhado da assistência oferecida às pessoas vivendo com HIV/AIDS no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de São Luís, Iniciada este ano com previsão de conclusão em 2026.

 Entre os achados esperados, ganham destaque questões como a adesão à terapia antirretroviral, a continuidade do acompanhamento, a presença de coinfecções e a qualidade dos registros assistenciais. Ao mesmo tempo, o estudo evidencia a força da atuação multiprofissional, o impacto positivo das ações de educação em saúde e a integração entre prevenção, diagnóstico e cuidado, reforçando que o CTA desempenha papel estratégico na rede pública.

A relevância da pesquisa, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), se amplia ao considerar o cenário epidemiológico do Maranhão, onde o enfrentamento ainda exige avanço em prevenção, testagem, combate ao estigma e ampliação do acesso ao tratamento. Os resultados deverão subsidiar gestores, profissionais de saúde e formuladores de políticas na reorganização de fluxos assistenciais e no aprimoramento de estratégias de prevenção combinada. Além disso, contribuirão para metas internacionais como o 95-95-95 e para compromissos globais da Agenda 2030.

Como produto final, será elaborado um manual técnico com estratégias de educação em saúde, direcionado a profissionais e usuários. O material pretende qualificar práticas cotidianas, apoiar a adesão ao tratamento e ampliar o conhecimento da população atendida, transformando evidências científicas em ações concretas que impactem a vida das pessoas.

 

Em sintonia com o Dezembro Vermelho, mês nacional de prevenção ao HIV/AIDS e outras infecções sexualmente transmissíveis, a pesquisa dialoga diretamente com o compromisso de ampliar informação, cuidado e humanização. Ela reforça que ciência, prevenção e políticas públicas precisam caminhar juntas para que o estado avance em respostas mais eficazes e integradas.

Poliana Brito destaca a importância desse olhar ampliado. “Nosso objetivo é compreender de forma profunda quem são os usuários atendidos, quais desafios enfrentam e como o serviço pode se tornar ainda mais eficiente. Uma assistência qualificada depende de informação, análise e ação estruturada, e é isso que esta pesquisa pretende oferecer”, explicou Poliana Brito.

A pesquisadora também enfatiza o papel fundamental da FAPEMA ao financiar estudos aplicados voltados ao SUS. “O apoio da FAPEMA foi determinante. Sem esse incentivo, não seria possível conduzir uma investigação com rigor metodológico e impacto social. O financiamento permite que o conhecimento científico se transforme em soluções concretas para a saúde pública do Maranhão”, disse.

Entre o impacto emocional e a construção de novas possibilidades de vida

 No atendimento a pessoas recém diagnosticadas com HIV, o papel da psicologia é fundamental para acolher, orientar e ajudar cada paciente a reorganizar suas emoções diante de uma notícia que pode ser profundamente impactante. A psicóloga Izabella Azevedo Duailibe, especialista no acompanhamento de pessoas vivendo com HIV no Hospital Presidente Getúlio Vargas, explica que as primeiras reações costumam variar, mas seguem um padrão emocional bastante comum.

“As reações variam muito, mas algumas são muito comuns”, afirma. “Há o choque inicial, aquela sensação de que ‘nunca aconteceria comigo’. O medo também aparece. Medo da morte, do preconceito e, principalmente, de contar para alguém. Muitos vivem uma tristeza profunda, quase como um luto. Outros sentem raiva, seja de si mesmos, de alguém ou da situação, especialmente quando é um paciente que usava preservativo, parou de usar e acabou contraindo o vírus. A culpa por comportamentos passados é frequente. Também vemos a negação, quando a pessoa evita falar sobre o assunto ou buscar ajuda. E há o silêncio emocional: pacientes que parecem estar bem, mas estão, na verdade, anestesiados”, explicou a psicóloga.

 Segundo Izabella Duailibe, essas reações fazem parte do processo emocional inicial e são compreendidas pela equipe multiprofissional. Com o passar dos anos e a ampliação das campanhas educativas, Izabella observa uma mudança importante no perfil emocional de quem recebe o diagnóstico. “Hoje percebemos menos reações extremas. Antes, havia pacientes que se jogavam no chão ao receber o resultado. Agora, muitos chegam com bastante informação e dizem que sabem que vão ter uma vida normal”, contou.

Essa mudança está diretamente relacionada aos avanços nos tratamentos e à difusão de informações corretas. Para Izabella, estratégias claras e humanizadas são essenciais nesse processo de aceitação. “Informação acolhedora é a base de tudo. Explicar de forma simples que, com o tratamento adequado, a vida é absolutamente normal, As pessoas precisam saber que hoje o HIV é uma condição crônica controlável.”

 Além da informação, o suporte emocional é indispensável. A psicóloga destaca: “O acompanhamento psicológico, quando necessário, faz toda a diferença. Seja por meio de terapia individual, grupos de apoio presenciais ou online, ou simplesmente tendo alguém de confiança para conversar.”

Ela reforça que a construção de uma rede de suporte, formada por família, amigos e profissionais, contribui diretamente para o bem-estar e para a adesão ao tratamento. E ressalta ainda a importância da relação com a equipe de saúde: “A confiança é fundamental. O paciente precisa sentir que está sendo acolhido sem julgamentos, com espaço para tirar dúvidas, falar de medos e entender cada etapa do tratamento.”

Com informação correta, acolhimento e suporte contínuo, o enfrentamento do diagnóstico se torna menos solitário e menos carregado de estigma. O trabalho psicológico, segundo Izabella, é justamente o de transformar medo em compreensão, culpa em cuidado e silêncio em possibilidade de diálogo, permitindo que cada pessoa retome sua vida com dignidade e segurança.

Campanha Dezembro Vermelho

Entre 2022 e 2025, o Maranhão notificou 9.049 novos casos de HIV, 3.284 diagnósticos de Aids, 782 gestantes vivendo com o vírus e 1.405 mortes relacionadas à doença. Só em 2024, foram 2.568 casos de HIV e 358 óbitos. Em 2025, até outubro, o estado registrou 1.414 novas infecções e 265 mortes. A campanha Dezembro Vermelho, que adota o tema “Nascer sem HIV e Viver sem Aids”, busca mobilizar a sociedade, combater o estigma e difundir estratégias de prevenção combinada, incluindo testagem regular, uso de preservativos, PrEP e PEP.

 

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